Coadjuvantes Cômicos e Cheinhos da Era de Ouro

Desde Robin tem sido assim, quando se discute os companheiros dos paladinos da justiça logo se vêm à mente crianças ou adolescentes belos, saudáveis e habilidosos que se arriscavam ao lado dos heróis e tomavam para si a identificação do leitor. Mas nem sempre foi assim. Muitos heróis durante a Era de Ouro, ao contrário de terem como sidekicks jovens aprendizes, contavam com a ajuda de adultos, na maioria com alguns quilos a mais e que proporcionavam o alívio cômico em suas histórias de aventura.

O gordo mordomo Alfred, da Era de Ouro.
O gordo mordomo Alfred, da Era de Ouro.

Para começar, Batman tinha Alfred, que diferente do esguio serviçal retratado hoje em dia era um rotundo inglês com ácidas palavras capazes de constranger até o Cavaleiro das Trevas. Johnny Quick tinha Tubby Watts. E como um efeito retardado desta onda até Lois Lane, lá pelos anos 70 tinha uma amiga gordinha com o sugestivo nome de Marsha Mellow. Os amigos gordinhos e engraçados foram um aspecto muito característico dos quadrinhos de super-heróis durante os anos 40, inspirados em grande maioria por comediantes da época não negavam a origem do nome que consagrou este meio: os comics.

Durante a Era de Ouro a DC tinha um braço editorial chamado All-American Comics, comandado por Max Gaines  e Sheldon Mayer, a mesma dupla que havia indicado Superman para Action Comics, em 1938. Enquanto Max futuramente se tornaria editor e dono da EC Comics (primeiramente Educational Comics, casa de quadrinhos bíbicos e de animais falantes e posteriormente, já sob a batuta do filho William, se tornaria Entertainment Comics publicando seus famosos quadrinhos de horror como Contos da Cripta e a hilária MAD), Sheldon, que era cartunista, contribuiu com inúmeros personagens cômicos que figuravam na revista All-Amercan Comics. Nesta mesma divisão editorial surgiriam personagens como Flash, Lanterna Verde e Mulher-Maravilha e são destes três personagens os parceiros gordos e engraçados que trataremos a partir de agora.

Os Três Cabeças-Ocas: Winky era o maior deles com cabelos castanhos crespos, Blinky era o ruivo com os olhos sempre escondidos por baixo da franja e Noody era o menor deles, com um grande chapéu sobre os cabelos negros.
Os Três Cabeças-Ocas: Winky era o maior deles com cabelos castanhos crespos, Blinky era o ruivo com os olhos sempre escondidos por baixo da franja e Noody era o menor deles, com um grande chapéu sobre os cabelos negros.

As aventuras do Flash geralmente apresentavam fortes elementos humorísticos, talvez pelo estilo de seu traço tender para o cartunesco, e tudo isso era enfatizado pelos três cabeças-ocas que acompanhavam o herói: Winky, Blinky e Noody. Claramente inspirados nos Três Patetas, eram amigos de Jay Garrick e Joan Williams, e poderiam se meter em suas próprias trapalhadas ou se misturavam a um problema recém surgido e, em muitas histórias, davam um jeito para que Flash, de uma maneira ou de outra, os ajudasse a resolver as encrencas em que se metiam. Mais tarde passaram a estrelar uma participação regular em All-American Comics.

Os três aparvalhados começaram sua carreira trabalhando como peixes-pequenos no mundo do crime empregados por Walter King, mas não eram especialmente bons nisso. Depois de se encontrarem com Flash, que levou seu patrão à cadeia, passaram então a perseguir caminhos mais bondosos. Foram desde carregadores de malas e faxineiros, a restauradores, investidores — e até mesmo inventores! Por algum tempo foram famosos como “Professores em Personalidade” tendo inventado um “raio de personalidade”. Blinky chegou a ter uma breve missão como o super-herói Muscleman. Por sua vez, Winky também experimentou a carreira como lutador. Em outro episódio, os três descobrem uma “vitamina do desparecimento”. Eles desapareceram com o término da primeira fase do herói, quando novos artistas como Carmine Infantino e Lee Elias deram uma abordagem mais séria ao herói.

Nesta capa vemos uma árvore sapiente dando em Doiby Dickles a surra da sua vida, enquanto o Lanterna sorri ao fundo. Uma vez que seu anel não funciona contra madeira, não há muito que Alna Scott possa fazer para ajudar seu parceiro.
Nesta capa vemos uma árvore sapiente dando em Doiby Dickles a surra da sua vida, enquanto o Lanterna sorri ao fundo. Uma vez que seu anel não funciona contra madeira, não há muito que Alan Scott possa fazer para ajudar seu parceiro.

Algo semelhante aconteceu com o Lanterna Verde Alan Scott, cujas histórias eram editadas por Sheldon Mayer, escritas por Bill Finger e, na maioria das vezes, ilustrado por Irwing Hasen, que se tornaria seu intérprete definitivo. Para destacar o estilo cartunesco e a abordagem aparentemente simples de Hasen, Mayer introduziu um coadjuvante de estilo pastelão chamado Doiby Dickles, um motorista de táxi que era alvo de chacota por causa de seu carregado sotaque irlandês do Brooklyn — Doiby é a corruptela de Derby nessa pronúncia.

Doiby surgiu em 1941 seguindo o Lanterna enquanto o herói rasteava um grupo de foras-da-lei que tentavam roubar um novo sistema de rádio livre de estática. Depois de Scott ter sido aparentemente morto pelos vilões, Doiby confrontou-os em uma roupa de Lanterna Verde. Pouco tempo depois, o verdadeiro Lanterna apareceu e, com a ajuda de Doiby, salvou o dia. Passada aquela aventura, o Lanterna Verde mandou a Doiby uma carta que dizia: “Doiby – Um bom homem como você poderia me ajudar a lutar em minha luta contra todo o mal. O que acha disso? – Lanterna Verde”. A partir de então, Doiby passou a agir ao lado de Alan Scott.

No novo milênio, Doiby foi realocado como líder da Velha Justiça.
No novo milênio, Doiby foi realocado como líder da Velha Justiça.

Outro elemento cômico associado a Doiby Dickles era seu amado táxi, Goitrude (Gertrude, no sotaque de Derby). Em uma história, Alan Scott cansado de combater o crime como super-herói aposta com Doiby que conseguiria dirigir Goitrude por um dia sem perder o bom-humor, afirmando que dirigir um táxi era muito mais fácil que combater o crime. Ao fim da história Alan Scott percebe o quanto estava errado e que a nobreza está presente em qualquer profissão.

O coadjuvante compartilhou espaço com o Lanterna Verde por várias histórias, inclusive no combate aos nazistas durante a Segunda Guerra. Já na era moderna, foi revelado o paradeiro de Doiby: ele fora mandado a um planeta distante para casar com a rainha local. Lá ele era admirado por sua vasta sabedoria, enquanto Alan Scott voltava à carreira solo. Um tempo depois, Doiby se juntou a um grupo chamado “Velha Justiça” formado apenas por sidekicks da Era de Ouro para dar cabo da Justiça Jovem.

Diana: "Sabe, Etta, você devia parar com os doces, eles vão acabar com a sua silhueta". Etta:“Pirou, querida! Minha silhueta tem espaço para melhoramentos!” Diana: “Mas, Etta, se você ficar muito gorda não vai conseguir um homem...” Etta: “E quem quer? Quando você tem um homem não há nada que você possa fazer com ele... mas doces você pode comer”.
Diana: “Sabe, Etta, você devia parar com os doces, eles vão acabar com a sua silhueta”. Etta:“Pirou, querida! Minha silhueta tem espaço para melhoramentos!” Diana: “Mas, Etta, se você ficar muito gorda não vai conseguir um homem…” Etta: “E quem quer? Quando você tem um homem não há nada que você possa fazer com ele… mas doces você pode comer”.

Fechando a trinca dos principais heróis da All American, a parceira cômica e cheinha da Mulher-Maravilha era Etta Candy, que, assim como Marsha Mallow, era fanática pelos doces, especificamente por chocolate. Vinda do texas, Etta era líder de uma irmandade na Universidade Hollyday e apareceu pela primeira vez em Sensation Comics#2. Seu grito característico era “Woo, woo!”, inspirado no comediante Hugh Herbert. Mas, diferente dos outros sidekicks, Etta era segura de si, animada, corajosa e determinada e os momentos de comédia que estrelava eram pontuados por suas tiradas não-convencionais. Em certo momento, Diana se dirige a ela e diz: “ Você sabe, Etta, é preciso perder peso se quiser atrair um homem” e a gordinha responde: “Quem precisa de um homem quando se tem doces?”. Assim como os outros, Etta não tinha poder algum, mas enfrentava nazistas, gângsteres e guardas de prisões mexicanas. Em uma edição, no melhor estilo Doiby Dickles, Etta se torna Mulher-Maravilha por uma noite e combate vários vilões da Amazona como a Mulher-Leopardo, Homem Angular e a Cisne de Prata.

Como diria Caetano: "Etta, etta, etta... e o resto vocês sabem..."
Como diria Caetano: “Etta, etta, etta… e o resto vocês sabem…”

Após Crise nas Infinitas Terras, com a retomada da cronologia da Mulher-Maravilha por George Pérez e Greg Potter, Etta Candy se tornou uma oficial da Força Aérea Americana, romanticamente ligada e posteriormente casada com Steve Trevor, que era até então o interesse romântico de Diana.

Contudo, os parceiros rechonchudos e burlescos dos super-heróis não eram exclusividade da All-American Comics. As editoras rivais também apresentavam seus representantes. Para começar, a casa do maior rival do Superman na Era de Ouro, A Fawcett, trazia na Família Marvel dois representantes nesta onda redonda e cheia de graça. Um deles era o Tio Marvel, mais conhecido com o Sr. Dudley, um homem de meia idade que afirmava não apenas ser parente dos Marvel como ter ele próprio poderes semelhantes aos deles. Nenhuma das afirmações era verdadeira. Ele era apenas a pessoa responsável pela adoção dos três garotos Marvel: Billy, Mary e Freddy (respectivamente, Capitão Marvel, Mary Marvel e Capitão Marvel Jr.).

A falta de poderes, entretanto, não impedia o Sr. Dudley de entrar em ação. Ao lado de um de seus protegidos enquanto gritavam “Shazam!” e encoberto pelo brilho do raio, Dudley rapidamente trocava sua roupa comum pelo uniforme Marvel que ele próprio confeccionara. Para justificar sua falta de podere, ele dizia que uma doença chamada Shazambago o estava incomodando. Essa artimanha nunca enganou Billy, Mary ou Freddy, mas eles entravam no jogo por julgarem divertido.

A Família Marvel
A Família Marvel

O Tio Marvel participou em várias aventuras da Família Marvel geralmente acompanhando Mary Marvel em suas histórias. (N. do A.: Obviamente, por ser mulher, Mary era tão indefesa que precisava que um indivíduo sem poderes a amparasse!). Dudley também fundou a “Shazam Inc.”, uma organizaçõa de caridade que permitia ao homem comum acesso à ajuda da Família Marvel e que propiciou muitas das aventuras dos heróis da Fawcett. Muitas vezes o dia foi salvo pelo Tio Marvel, mesmo desprovido de poderes. Foi ele quem enganou o Adão Negro e o fez pronunciar a palavra mágica transformando-o no mortal Teth Adam. Como muitos de seus pares cômicos, o Tio Marvel era baseado no ator de comédias W. C. Fields.

O outro representante desta tendência na Família Marvel era o Gordo Marvel. Não, você não leu errado. O Gordo Marvel era um dos Tenentes Marvel e também se chamava Billy Batson.

Tudo começou quando um concurso de rádio apresentou Billy Batson(a identidade civil do Capitão Marvel, jovem locutor da rádio Whiz) a três outros garotos norte-americanos de mesmo nome. Um deles tinha altura elevada e vinha do Texas; o outro era obeso, do Brooklin; já o último vinha do sul e era um jovem rústico, ou como o próprio gibi explicita, eram o Billy Alto, o Billy Gordo e o Billy Caipira. Assim que o Dr. Silvana soube da identidade secreta do Capitão Marvel, mandou seus capangas conferirem o endereço de cada Billy Batson residente nos EUA. Apiedado dos garotos, o mago Shazam conferiu-lhes poderes para enfrentar a ameaça que surgia. Nasciam assim o Alto Marvel, o Caipira Marvel e o Gordo Marvel, que passaram a compartilhar com os outros protegidos do Mago e com Joca, o Coelho Marvel, os poder de Shazam!

Uma das muitas capas estrelando o Borrachudo e Bolão, com gags como as que adornavam as capas da Turma da Mônica na época da editora Globo.
Uma das muitas capas estrelando o Borrachudo e Bolão, com gags como as que adornavam as capas da Turma da Mônica na época da editora Globo.

Em agosto de 1941, a outra concorrente da DC Comics, a Quality Comics, lançava o primeiro super-herói assumidamente cômico das histórias em quadrinhos, o Homem-Borracha, na edição de número um da Police Comics. No ano seguinte, na edição #13, estreava o sidekick do herói: Woozy Winks (Bolão, no Brasil), cuja personalidade foi baseada nas comédias de Lou Costello.

A partir daquele ponto poderia se perceber um estilo mais jocoso e cartunesco no trabalho de Jack Cole, criador dos personagens, que garantia maior flexibilidade ao desenvolver um personagem que poderia alterar sua forma praticamente de qualquer maneira e que era acompanhado por um sujeito obeso e bobalhão que usava um chapéu largo, uma camisa verde pettit-pois e que não podia ser ferido de forma alguma. Não é por acaso que a obra de Cole é uma das jóias raras da Era de Ouro.

A origem dos poderes de Woozy Winks remonta à feitiçaria de uma bruxa que o atrapalhado rechonchudo salvou de um afogamento. Seus poderes estavam ligados à natureza e sua primeira reação a eles foi iniciar uma onda de crimes até ser impedido pelo Homem-Borracha através de uma boa dose de psicologia reversa e do velho sentimento de culpa para regenerá-lo. A partir de então, os dois dividiram os méritos de seus feitos heróicos por 16 anos.

Woozy e Homem-Borracha em Countdown To Mystery (2007) por  Matthew Sturges e Stephen Segovia
Woozy e Homem-Borracha em Countdown To Mystery (2007) por Matthew Sturges e Stephen Segovia

Em 1999, depois do retorno triunfal do Homem-Borracha nas páginas da LJA de Grant Morisson, uma origem alternativa e Pós-Crise foi dada à Woozy em Plastic Man Special. Na história, o parceiro de Eel O’Brian era um agente extremamente inteligente e competente chamado “Green Cobra”. Na primeira vez em que se encontram, ambos estavam presos, o Homem-Borracha estava ferido e os odores do sangue do herói, que é similar em composição à cola usada em aviões, danificou o cérebro de Winks fazendo com que ficasse pateta para sempre. Essa origem difere muito do do ocorrido nas eras de Ouro e de Bronze, nas quais Winks sempre foi parvalhão.

Os Coadjuvantes Cômicos e Cheinhos eram ousados e intrépidos. Cada um a ser modo representavam o oposto de uma auto-imagem negativa, apesar de serem rotundos. Doiby era mais casca-grossa que o Lanterna, Woozy era quase mais poderoso que o Homem-Borracha, Etta exalava auto-confiança e, nesse quesito, muitas vezes ofuscava a própria Diana. Todos respeitavam os heróis sem serem ofuscados por eles, tinham força própria. E o mais importante, nunca questionavam suas habilidades para contribuir em qualquer empreitada heróica por serem gordos ou imperfeitos. Sempre davam o ar da graça. E que graça!

Hoje, ironicamente, todos os protagonistas destes comics acabaram reunidos sob a égide da DC Comics, mas a atenção que era dada a seus companheiros cômicos e cheinhos está muito longe daquela luz de refletor sob as quais se apresentavam na década de quarenta. São citados como relíquias e curiosidade em muitas revistas. Além disso, se volta ao velho discurso de que os quadrinhos de super-heróis não representam o corpo humano como ele se apresenta em maior parte das pessoas no mundo contemporâneo, muitas vezes gordas ou fora de forma demais, longe das aspirações musculosas de todo coadjuvante dos comics que encontramos nas bancas. Como escreve um dos autores que pesquisei ao construir esta matéria: “Onde foram todas as pessoas gordas dos quadrinhos? Quando foi a última vez nos quadrinhos que você viu uma barriga de tanquinho? Quando foi a última vez que você se encontrou com alguém com uma?”.

– Artigo publicado originalmente no site fanboy.com.br

Para saber mais sobre o corpo nas HQs, acesse:

  1. Super-Homens, Super-Mulheres e Vilões: O Corpo nas Histórias em Quadrinhos
  2. Quadrinhos Fazendo Gênero: Discutindo Imagens Masculinas em HQs Norte-Americanas (em PDF) 
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