Duas obras sensacionalmente grotescas

Esse mês li dois quadrinhos extremamente polêmicos e que poderiam ser considerados grotescos por muita gente. O primeiro deles é o mangá de Hideshi Hino, Panorama do Inferno. Publicado originalmente em 1983, o mangá conta a história de um pintor que vive nos arredores do inferno e faz pinturas que retratam partes do local da danação final. Entre corpos sem cabeça, guilhotinas, crematórios e sofrimentos, o pintor conta a história de sua família, primeiro de seus parentes próximos e depois das várias gerações de sua família que usam uma tatuagem. O interessante é que Hino usa na história parte de sua experiência pessoal durante a Guerra da Machúria para expor o inferno. A imagem acima é uma das pinturas de Hino retratando o inferno. Seu traço no mangá, entretanto, é cartunesco, por isso suas visões se tornam ainda mais terríveis.

Detalhe de uma das capas de Panoram do Inferno, de Hideshi Hino (1983).
Detalhe de uma das capas de Panorama do Inferno, de Hideshi Hino (1983).

Outra HQ que li foi Marshal Law, de Pat Mills (Sláine) e Kevin O’Neill (A Liga Extraordinária), de 1987. Mills sempre foi um autor que detestou super-heróis e neste quadrinho ele conta a história de um mundo onde grande parte da população americana transformou-se em super-heróis graças à experimentos genéticos. Para vigiar os vigilantes existe Marshal Law, uma espécie de anti-herói gim’n’gritty que em muito se assemelha ao Justiceiro, o Juiz Dredd e a Lobo. Tudo o que Marshal Law quer é erradicar de vez o maior símbolo dos super-heróis: o Espírito Público. Ao longo da história é mostrado como os super-heróis deformados são tratados pela sociedade superpoderosa. Gangreen, talvez um dos vilões carrega um colar de orelhas de suas vítimas. Mas uma descrição faz arregalar os olhos é a narração de Sorry, o quase-homem, na primeira edição da minissérie “Tive que manter tudo em segredo (estatuto dos poderes secretos). Mas quando ereto, tem mais de 90cm de comprimento. Assim, o deixo preso do lado da perna. É um pouco desconfortável quando estou correndo. Sim, se ofereceram para cortá-lo. Mas eu não me sentiria um herói sem ele”. Os vilões capturam Sorry e revelam seu segredo: ele tem um rabo. Os desenhos de O’Neill enchem as páginas de gags visuais e ele não poupa criatividade para criar o cenário futurista de San Futuro. Mas talvez o momento mais chocante da minissérie seja a parte em que os autores colocam lado a lado as figurinhas do Espírito Público (identificado como um herói solar, associado a símbolos fálicos e, por isso, temente da homossexualidade) com as figurinhas da guerra na Zona (uma espécie de Guerra do Vietnã), que reproduzo abaixo. As imagens falam pelas palavras. Fora isso, a minissérie é sensacional em sua crítica aos super-heróis, tanto os idealizados, quanto os cínicos como Marshal Law. Nenhum deles é poupado.

Página de Mashal Law, de Pat Mills e Kevin O'Neill (1987). As vigurinhas da guerra na Zona.
Página de Mashal Law, de Pat Mills e Kevin O’Neill (1987). As figurinhas da guerra na Zona.

Próximo post: Uma Breve História do Grotesco nos Quadrinhos Americanos

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