Breve História do Grotesco nos Quadrinhos Americanos

Antes de entrarmos na área dos quadrinhos, seria interessante traçarmos uma definição de Grotesco. Segundo Thiane Nunes em seu livro Configurações do Grotesco, “O Grotesco marca a modernidade, principalmente pela dissonância que revela entre o homem e o mundo. É uma marca de mal-estar. Quando o que se é familiar se torna estranho ou sinistro, as proporções naturais se dissolvem, dando lugar ao sonho, à imaginação ou à realidade que transcende a normalidade”. Assim exposto como o Grotesco marcando a modernidade, é seguro afirmar que quando mais avançamos no tempo, mais representações do grotesco teremos em nossa sociedade. Não por acaso, aconteceu a mesma coisa com os comics, uma forma de arte e expressão recente, que, como todas as artes, teve sua dose de crítica e castração, mas acima de tudo sempre foi considerada uma arte menor, devido aos preconceitos de público, formato e difusão enquanto cultura massificada. Por isso, expor o grotesco nos quadrinhos sempre foi uma contradição devido a esses preconceitos, porém, segundo o esteta francês Jean Onimus: “o grotesco é um estado de consciência, essencialmente crítico. Seria uma reflexão sobre a vida, nascida de uma comparação entre as coisas tais como são e tais como aparecem na superfície”. Na pintura, temos os famosos quadros, de Brueghel, Bosch e Goya, misturando elementos da natureza com humanos, anjos e demônios, figuras humanas disformes, mescla entre seres em obras que trazem imensa riqueza de detalhes.

O Inferno, segundo Hieronymous Bosch.
O Inferno, segundo Hieronymus Bosch.

Os quadrinhos, desde seu início, com caricaturas e cartuns, tinham essa qualidade: rir da realidade e expor seu lado mais cruel. Como diz Thiane, muitas obras consideradas grotescas, não passam de malcriações de seus autores, que riam de suas produções, como se fossem um alívio para a realidade que observam. Na literatura também temos seus representantes: Mann, Poe, Meyrink, Stevenson, Lovecraft, Gógol, Baudelaire, Burroughs. No cinema temos Buñuel, Burton, Lynch, Cronenberg e o expressionismo alemão. Na música, Radiohead, Joy Division, Siouxie and The Banshees, Nick Cave and The Bad Seeds. O grotesco está em toda forma de arte, em toda forma de expressão.

Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens é um filme alemão de 1922, em cinco atos, dirigido por F. W. Murnau
Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens é um filme alemão de 1922, em cinco atos, dirigido por F. W. Murnau

Voltando aos quadrinhos, tudo começou na Alemanha, quando um dos pioneiros dos quadrinhos, Willem Busch, em 1985, criou a sequência de histórias de Max and Moritz (Juca e Chico, no Brasil). A historinha de duas páginas conta como os dois garotos aprontam uma traquinagem ao cortar dois sacos de milho e acabam pagando as consequências sendo triturados junto com o alimento. No final da história, dois desenhos feitos em milho na forma de Max and Moritz acabam servindo de alimento aos patos. Coisas assim nunca passariam pelo Código dos Quadrinhos, instituído pelo senado americano na década de 50.

Última página de Max and Moriz, de Willem Busch (1985), o grotesco é uma marca registrada dos quadrinhos desde seus pioneiros.
Última página de Max and Moriz, de Willem Busch (1985), o grotesco é uma marca registrada dos quadrinhos desde seus pioneiros.

Além das páginas dominicais, que certamente traziam muita coisa hoje considerada politicamente incorreta e chegando até as tiras de quadrinhos, temos os vilões de Dick Tracy, criado por Chester Gould em 1931. Todos eles apresentavam alguma deformação, e foi assim  também com os vilões de Spirit (Will Eisner, 1940) e Batman (Bob Kane, 1939), estes últimos talvez sejam o maior legado do grotesco caricatural nos comic book americanos dos dias de hoje, gerando gerações e gerações de novos malfeitores conceituados nas “piores” características , físicas e psicológicas, do ser humano.

Galeria de vilões de Dick Tracy (Chester Gould, 1931).
Galeria de vilões de Dick Tracy (Chester Gould, 1931).

Com o final da segunda guerra mundial e a perda de interesse do público em super-heróis, as editoras se voltaram para outros campos. A EC Comics e a Lev Gleason foram pioneiras nos gêneros horror e crime, com revistas como Tales of the Krypt e Crime Does Not Pay. As capas de suas revistas apelavam para o que havia de mais grotesco na sociedade e nos quadrinhos. Decapitações, envenenamento radioativo, corpos em decomposição. Uma história famosa da época e citada pela comissão do senado responsável pela criação do Código dos Quadrinhos foi “Foul Play” (Jogo Sujo) em que os jogadores de um time de basebol matam seus competidores e acabam disputando uma partida com as partes arrancadas dos corpos de seus rivais.

Alguns exemplos de capas de HQs de Horror e Crime dos anos 1950 nos EUA.
Alguns exemplos de capas de HQs de Horror e Crime dos anos 1950 nos EUA.
O final da história Foul Play, que foi o estopim da "caça às bruxasdos quadrinhos" do senado americano nos anos 1950.
O final da história Foul Play, que foi o estopim da “caça às bruxas dos quadrinhos” do senado americano nos anos 1950.

Além dos quadrinhos de crime e horror, outro filão enchia os bolsos da Atlas Comics (que mais tarde se tornaria a Marvel Comics): os quadrinhos de monstros. Em grande parte criados por Jack Kirby, Steve Ditko e Stan Lee, muitos dos monstros criados nos anos 50, seriam a semente para os super-heróis desenvolvidos nas décadas seguintes pela Casa da Idéias. Estes gibis de monstros vinham na onda de filmes como Godzilla, A Bolha Assassina O Monstro da Lagoa Negra, bem como séries como National Kid e outros filmes de kaiju (monstros gigantes). Especialistas dizem que esse grande interesse em monstros no pós-guerra se deve a uma visão que passou a ser costumeira nos EUA: veteranos mutilados pela guerra, pedindo ajuda nas ruas. Mais uma vez o grotesco se torna uma forma de escapar da realidade, ou de ironizá-la. Uma forma de tornar o sofrimento e o horror banal.

Aí estão alguns dos monstros da Atlas. Alguém reconhece os nomes dados para eles. E olha que a maioria destes super-heróis só surgiria em 1960. Tudo se transforma, já diria Lavosier.
Aí estão alguns dos monstros da Atlas. Alguém reconhece os nomes dados para eles? E olha que a maioria destes super-heróis só surgiria em 1960. Tudo se transforma, já diria Lavosier.

Mas, eis que veio o Código dos Quadrinhos, conforme comentado na sequência de posts sobre as Eras dos Quadrinhos e tudo o que era grotesco foi obliterado. Como alternativa para quem queria questionar a realidade, surgiram os quadrinhos undergrounds. Um dos primeiros, foi o Zap Comix, criado por Robert Crumb, que os vendia junto à sua esposa num carrinho de bebê pelas ruas de São Francisco. Temas recorrentes: experimentações de toda sorte, estados alterados da mente através de drogas, refeição de tabus sexuais e ridicularização do status quo. Muitas histórias apresentavam homossexualidade, alucinações auto-induzidas e masturbação com eletrochoque.

Detalhe da última página de uma história da Zap Comix - imprópria para menores!
Detalhe da última página de uma história da Zap Comix – imprópria para menores!

Na década de 70, influenciado por publicações da Warner Publishing, como Eerie, Creepy e Vampirella, que exploravam o terror em páginas PB desde meados dos anos sessenta, impressas em formato magazine, voltadas para um público mais maduro,  Stan Lee começou a pensar em histórias de horror, revitalizando títulos da década de 50 como Marvel Chiller’s, Monster on the Prowl, Death of Night, e Chamber of Chills. Nessa época, o comic code havia relaxado em sua restrição à violência e sensualidade nos gibis.

A Marvel criou o selo Curtis Magazine, tendo como editor Marv Wolfman, e com diversos títulos dos mais variados temas. Alguns deles eram Savage Sword of Conan, Tales of the Zombie, The Rampaging Hulk, The deadly hand of Kung-Fu, Unknow World of Science Fiction, Marvel Premiere e Drácula Lives! Nessa onda surgiram também as revistas Tomb of Dracula e Ghost Rider (Motoqueiro Fantasma).

Alguns dos personagens do universo de Horror da Marvel.
Alguns dos personagens do universo de Horror da Marvel.

E então surgiu o Monstro do Pântano e, com o chegada de Alan Moore à revista tudo mudou para o Grotesco nos quadrinhos.

Apenas para finalizar a discussão sobre o grotesco, muita gente pode achar o grotesco sensacional, outras podem considerar apelativo, outras, nojento, devasso, indecente, que fere a moral e os bons costumes. Mas é como Thiane aponta em seu livro: “As pessoas chacam-se com o Soldado Ryan e nem tanto com a criança africana mutilada que aparece no documentário da TV”.

Para ajudar as crianças da África e outros países precisando de alimentos, jogue aqui: http://freerice.com/#/english-vocabulary/5399

A seguir: 10 Motivos que tornam A Saga do Monstro do Pântano um quadrinho fundamental

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