Roteiristas contemporâneos e seus momentos grotescos

As sensações que a estética grotesca nos causa ainda é a mesma: o estranhamento, ou o nojo, a melancolia e até mesmo a culpa. Um bom exemplo disso são as campanhas da Benetton, do final da década de 90, realizadas por Oliviero Toscani. O fotógrafo, na contramão da publicidade, queria usar imagens que despertassem alguma mudança de comportamento no público que as via. Por isso buscou em imagens polêmicas como um homem agonizando, um padre beijando uma freira, corações humanos, camisinhas, um bebê recém-nascido. Foi um dos primeiros a se utilizar de uma publicidade não-comercial, porém que acabou lucrando em cima do sofrimento humano. Toscani defende que sua publicidade e suas fotografias revela um lado do humano que a maioria das pessoas não é capaz de suportar e que estaríamos ignorando que o mundo é feito de mais anomalias do que se pensa. O grotesco e o surreal agora fazem parte de uma nova estratégia de publicidade. A publicidade grotesca de Toscani criou escola e é uma das poucas publicidades capazes de identificar um estilo, um autor por trás dela.

Hearts, Oliviero Toscani (1996)
Hearts, Oliviero Toscani (1996)

Em seu ensaio “Notas Sobre a Teoria do Autor de 1962”, Andrew Starris estudava os diretores de cinema. Ele colocava: “A terceira e principal premissa da teoria do autor é a preocupação com o significado interior, a glória suprema do cinema como arte. O significado interior é extrapolado da tensão entre a personalidade do diretor e seu material”.  Assim como Toscani, os autores aqui apresentados como fiéis representantes do quadrinho americano grotesco contemporâneo, não estão preocupados com o chocar pelo chocar (bem, talvez alguns estejam, sim), mas com o significado interno, seja para os leitores ou para si mesmos, como exposição de seus próprios medos, preconceitos, sentimentos e visão de mundo.

A maioria destes autores é cultuada mundo à fora exatamente pela coragem de inserir elementos “WTF?” nas histórias em que participam. E a atração para esses autores é simples de explicar. Citando Douglas Wolk, em seu livro Reading Comics: “Os quadrinhos underground quebraram um tabu particular por serem alguns dos primeiros quadrinhos deliberadamente feios. E o meta-prazer de fruir experiências que poderiam repelir a maioria das pessoas é, efetivamente, a experiência de ser um boêmio ou uma pessoa da contracultura”.

Os autores expostos aqui são, certamente, da cultura mainstream dos quadrinhos. Mas todos eles, de certa forma, começaram à margem, no quadrinho underground, alternativo e independente até serem venerados por seu estilo e suas histórias.

Autor: Alan Moore (Northampton, Inglaterra, 1953)

Um de seus momentos grotescos:

O nascimento da filha de Miracleman (1988)
O nascimento da filha de Miracleman (1988), desenhos de Alan Davis.

Autor: Frank Miller (Olmey, EUA, 1957)

Um de seus momentos grotescos:

Capa e Contracapa de Hard Boiled (1990-1992), desenhada por Geoff Darrow.
Capa e Contracapa de Hard Boiled (1990-1992), desenhada por Geoff Darrow.

Autor: Grant Morrison (Glasgow, Escócia, 1960)

Um de seus momentos grotescos:

Um massacre nos mais variados detalhes, em We3 (2004), desenhos por Frank Quitely.
Um massacre nos mais variados detalhes, em We3 (2004), desenhos por Frank Quitely.

Autor: Warren Ellis (Inglaterra, 1969)

Um de seus momentos grotescos:

Capa de Black Summer (2007), desenhos de Juan Jose Ryp.
Capa de Black Summer (2007), desenhos de Juan Jose Ryp.

Autor: Garth Ennis (Dublin, Irlanda do Norte, 1970)

Um de seus momentos grotescos:

Capa de The Boys#72 (2013), desenhos de Darick Robertson.
Capa de The Boys#72 (2013), desenhos de Darick Robertson.

Autor: Mark Millar (Glasgow, Escócia, 1969)

Um de seus momentos grotescos:

O Final de O Procurado - Wanted: "Essa é minha cara enquanto eu fodo a sua bunda" (2003-2005). Desenhos de J.G. Jones.
O Final de O Procurado – Wanted: “Essa é minha cara enquanto eu fodo a sua bunda” (2003-2005). Desenhos de J.G. Jones.

Autor: Robert Kirkman (Richmond, EUA, 1978)

Um de seus momentos grotescos:

Não é The Walking Dead, é Invencível! A morte de Invencível (Invincible#100 - 2013), desenhos de Ryan Ottley.
Não é The Walking Dead, é Invencível! A morte de Invencível (Invincible#100 – 2013), desenhos de Ryan Ottley.

Estes são apenas alguns exemplos de como o grotesco vem se proliferando nos comic books e como eles ajudam, através da arte, tornar o que é estranho, nojento, polêmico, violento, banal. Em sua Crítica do Julgamento Estético, Immanuel Kant faz uma difrenciação entre harmonioso, bom, belo e sublime:

– Harmonioso: É aquilo que os quadrinhos mainstream tentam ser: tem aver com interesse, que vai na direção de desejos e gostos específicos.

– Bom: Algo que dá prazer além de si mesmo, porque achamos que é algo valoroso, legitimado e recomendável. Aqui se encaixariam os cartoons e caricaturas, sátiras do cotidiano e do mundo político.

– Belo: A bondade, a gratidão, aquilo que nos agrada por si mesmo sem relação a outras coisas. Uma estética “livre”. Aqui se encaixariam os pin-ups, por exemplo, ou as capas dos comic books.

– Sublime: Consiste no tipo de prazer que mais se aproxima ao terror, ele chega a dar um nó no cérebro. “Em comparação com o sublime todo o resto é pequeno”, diz Kant. Segundo Wolk, o jeito que os quadrinhos que não se encaixam no mainstream ( e eu incluo aqui os quadrinhos que se utilizam do grotesco) criam o efeito de que o sublime é mais metafórico: fazer o leitor entender como é abraçar o infinito.

“Eles podem ter um impacto imediato, mas este impacto não é satisfatório por si só, ele próprio não pode vender uma fantasia ou um ideal a qualquer um. Desenhos feiosos fazem a fantasia da identificação e participação menos fácil e poderosa; nos chama de volta ao o que realmente está acontecendo na imagem e na narrativa à qual pertence. O observador é forçado a olhar além da superfície da imagem para saber o que pode significar: o que os traços do personagem e o estilo têm a dizer, como é composto, que detalhes são significantes, qual é a significância que uma grande metáfora pode ter”, diz Douglas Wolk no ensaio Autores, a História do Quadrinhos de Arte e Como Ver os Desenhos Feiosos.

E para concluir essa análise sobre o grotesco nos quadrinhos mainstream americanos, ficamos com mais uma citação de Thiane Nunes:

“Como arte, o grotesco foi exposto à sociedade, que o gerou e por vezes o renegou. Os responsáveis pelo grotesco na arte foram geralmente artistas inconformistas, que procuravam dar um objetivo às suas obras que não fosse a simples exposição do belo. Enfim, por que a arte deveria ser sempre uma ilusão perfeita do real?

O estranho, o sobrenatural, o insano e o diferente sempre fascinaram o homem que busca uma explicação para os fenômenos que ocorrem à sua volta. Em qualquer parte do mundo, em qualquer cultura e em qualquer período da história, sempre encontramos configurações do grotesco nas linguagens culturais do homem”.

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4 Comments

    1. É um momento grotesco, mas não é ruim, pelo contrário, é sensacional! Só que existe uma linha tênue entre o sensacional e o massaveio e o apelativo. Abs!

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