Coisas belas e sujas – 01 – Lost Girls

Dorothy, Alice e Wendy, adultas, assistindo ao teatro. (Lost Girls, de Alan Moore e Melinda Gebbie)
Dorothy, Alice e Wendy, adultas, assistindo ao teatro. (Lost Girls, de Alan Moore e Melinda Gebbie)

Ou quando a ternura e a rispidez se encontram, ou o lado negro das coisas bonitas. Bem, o que eu quero falar aqui nestes posts é sobre uma espécie de subgênero que algumas séries da Vertigo parecem estar se encaixando. Trata-se do velho embate entre o mundo infantil e o mundo adulto, no caso das séries da linha de quadrinhos adultos da DC Comics, a temática e/ou o visual cute versus a sordidez das situações e das palavras que os personagens proferem. Mas antes de falarmos da Vertigo em especial, queria chamar atenção para a obra Lost Girls, de Alan Moore e sua atual esposa, Melinda Gebbie. A história é uma homenagem à história da pornografia em geral, seguindo a tradição das Tijuana Bibles, porém sob a óptica das experiências sexuais de três personagens de contos de fada: Alice, Dorothy e Wendy. Os desenhos de Gebbie são coloridos, seus traços são um bocado infantis, porém retratam as mais diversas experiências sexuais das garotas durantes seu crescimento e amadurecimento. Moore escolheu estes três trabalhos por serem os primeiros a serem adaptados a uma mídia visual. Os três tratam de uma fuga do mundo real. Tanto Lewis Carrol quanto J. M. Barrie eram fotógrafos de crianças e o discurso da pedofilia está próximo de suas vidas.

Dorothy durante o furacão. Lost Girls foi inspirado nas Tijuana Bibles, gibis artesanais xerocados que apresentavam personagens famosos ou celebridades em histórias sexuais.
Dorothy durante o furacão. Lost Girls foi inspirado nas Tijuana Bibles, gibis artesanais xerocados que apresentavam personagens famosos ou celebridades em histórias sexuais.

Uma das interpretações de Kenneth Kidd, em seu ensaio: “Down the Rabbit Hole” é a seguinte: “Lost Girls é bem sucedida não por desviar de seus originais, mas por ser perversamente fiél à eles – aos seus temas e tramas ambivalentes, às peculiaridades de sua composição, e às releituras ‘sórdidas’ que lhe foram feitas. Enquanto versões para cinema e TV evitam a tese da pedofilia, Lost Girls a corteja agressivamente, estendendo a canonicidade de Alice, ao jogar tanto com suas qualidades literárias quanto com suas associações seminais. Um dos pontos-chave é o foco simultâneo nas perversões extra-familiares (Gancho) e das várias perversões dentro da família burguesa. Como diz o gerente do hotel em que as três meninas se hospedam e se encontram pela primeira vez: ‘Agradeço a Deus pela instituição da Família, fundada em nada além de sexo e suas infinitas consequências’”. Belo e sujo, não? Apropriar-se de uma história feita originalmente para crianças e torná-la algo sórdido, estranho, vil, próximo às necessidades humanas mais básicas é algo horrível, certo? Não se formos analisar como os contos de fadas foram escritos originalmente e quais as suas possíveis interpretações psicológicas. Para entender mais a fundo estas questões, recomendo o livro Fadas no Divã, de Diana e Mario Corso (Artmed, 2006).

A seguir: Fábulas

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