Coisas belas e sujas – 02 – Fábulas

Imagem do primeiro encadernado de Fábulas (arte por James Jean).
Imagem do primeiro encadernado de Fábulas (arte por James Jean).

Nessa onda de reinterpretar os contos de fadas para um contexto adulto, surgiu a série Fábulas, criada por Bill Willingham em 2002. A série conta a história de vários personagens dos contos de fadas, fugidos de suas Terras Natais, que encontraram morada em Nova York, num povoado secreto chamado a Cidade das Fábulas. Lá, todos os personagens tiveram, ao longo dos anos, que se adaptar ao mundo real. Branca de Neve, por exemplo, é a vice-prefeita da Cidade das Fábulas e Bigby Lobo (O Lobo Mau) é o xerife, que cuida dos crimes perpetrados pelas fábulas “más” e também mantém a segurança e o sigilo daquele universo tão peculiar. Há o cafajeste Príncipe Encantado, que, diferente das historinhas, pegou todas as princesas da DisneyTM, e os bizarros habitantes da Fazenda, uma comunidade isolada onde as fábulas não-humanas podem vivem “livremente” em nosso mundo. A série de Willingham preencheu o vácuo de histórias de fantasia deixado por Neil Gaiman após o encerramento de Sandman. Até hoje a série recebeu 14 vezes o prêmio Eisner. Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos, diz o seguinte sobre a série: “Ele (Willingham) soube trabalhar o tema com seriedade e dar uma nova personalidade a cada um dos personagens dos contos de fadas. Nem todos são o que eram nos livros. Fica no ar o que Pinóquio faz numa das histórias. É algo que deixaria qualquer vovozinho morrendo de vergonha”.

João das Fábulas: mais humor, sexo e metalinguagem. Cpa de Jack of Fables#20, de Brian Bolland
João das Fábulas: mais humor, sexo e metalinguagem. Cpa de Jack of Fables#20, de Brian Bolland

Fábulas teve vários spin-offs. O principal deles foi João das Fábulas, cujo protagonista, João das Lorotas, encarna todos os Joões das histórias da carrochinha, inclindo o do pé de feijão e o alfaiate que derrotou os três gigantes. Menos, é claro, o João de João e Maria, que nos EUA e no resto do mundo são conhecidos como Hensel e Gretel. Nesta série, os criadores Bill Willigham e Matthew Sturges tiveram mais liberdade e, longe do tom sério de Fábulas, resolveram colocar mais humor e mais sexo nas aventuras do trambiqueiro que está sempre em busca de se dar bem. Além destes dois elementos, há a metalinguagem. Existem os personagens do Sr. Revisor, chefe do Galhadas Douradas, uma espécie de prisão para as fábulas fugidas das Terras Natais e suas filhas, as Bibliotecárias. Todos devem garantir que as fábulas se mantenham como foram criadas originalmente, por isso precisam ser aprisionadas. Eles desconhecem a existência da Cidade das Fábulas e precisam de João para localizá-la. Um dos personagens mais interessantes das histórias de João é o desmemoriado Gary, a Falácia Patética, capaz de animar seres inanimados. Em um dado ponto da história, Gary apaixona-se por um manequim.

Quem também garante bons momentos de diversão é Babe, a vaca azul de Paul Bunnyam. Como uma história dentro da história, sempre ocupando uma página inteira, acompanhamos a cada edição Babe contando uma desventura de seu personagem da vez. Pode ser um dentista, um oftalmologista, um cowboy, um ator de cinema, todos eles são intrépidos e valentes, capazes das mais grandiosas proezas, mas todos têm um porém. E esse porém, esse encerramento, é que garante nossas risadas. Uma fórmula pronta, mas que não cansa e adoramos ver as suas variações.

Babe, o pequeno boi azul (arte por Joe Akins)
Babe, o pequeno boi azul (arte por Joe Akins)

Dez anos depois, surgia, a série de TV Once Upon a Time, que tinha uma premissa muito parecida com Fábulas: trazer esses personagens do imaginário infantil com uma roupagem de mundo real. A série tem seus méritos. E tanto podemos dizer que Harry Potter copia os Livros da Magia, quanto Once Upon a Time copia Fábulas. O importante não é discutir quem veio primeiro, mas sim fazer bom proveito dessas histórias e perpetuá-las adaptando aos gostos e demandas das novas gerações, surpreendendo com novas abordagens e conceitos, que captem uma nova audiência, como uma lata-velha é transformada num carro tunado. Afinal, esse é o motor de vários ícones dos quadrinhos e da literatura universal, e porque não dizer de vários, mitos, lendas, crenças e religiões, ao longo dos séculos.

 

“Hey, Snow White, it’s gonna be alright…

How can you win some?…

When the Company goes public,
you’ve got to learn to love what you own…”

Hey, Snow White – Destroyer

 

Aqui tem uma versão bem legal dos The New Pornographers:

 

A seguir: O Inescrito

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