Análises, quadrinhos
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Coisas belas e sujas – 05 – Jill Thompson

Os pequenos Perpétuos, no traço de Jill Thompson

Os pequenos Perpétuos, no traço de Jill Thompson

Outra pessoa que fez o caminho inverso – mas nesse sentido mais na mudança do público-alvo – foi Jill Thompson, conhecida por seu trabalho com Sandman, sua criação Minha Madrinha Bruxa (Scary Godmother), e também por ser esposa de Brian Azzarello. Jill pegou as histórias densas e complexas do universo do senhor dos sonhos e as adaptou para o público infantil nos seus traços suaves e coloridos por aquarela. Ela publicou Os Pequenos Perpétuos (2001), contando a busca de Barnabas por Delírio, passando por todos os reinos dos Perpétuos. Depois, fez uma sequência de mangás voltados para garotas. Ela adaptou o arco Estação das Brumas, em Morte: A Festa (2003) contando a história através do ponto de vista da irmã favorita de Sonho. Seu terceiro trabalho adaptando os personagens do Sonhar para as crianças foi Dead Boys Detectives (2005) em que os garotos detetives mortos precisam investigar um mistério em uma escola só de meninas, e assim, precisam se disfarçar como elas. Este mangá tem muitos elementos semelhantes a Love Hina, de Ken Akamatsu, tanto no traço quanto nas situações. Por último ela adaptou Delirium’s Party (2011 – Inédito no Brasil), em que Delírio faz uma festa com seus irmãos para animar Desespero.

Para finalizar, é preciso ressaltar o seguinte: toda mídia/narrativa feita para crianças passaram por mãos de adultos, sejam os contos de fadas, os brinquedos, as histórias educativas, as lições de moral como as fábulas de Esopo, os quadrinhos infantis, os desenhos animados e todas elas evoluíram para um contexto adulto. Os contos de fada transformaram-se na ficção científica, os brinquedos nas apostas, as histórias educativas e lições de moral se transformaram na História e nos estudos das Humanidades como as Ciências Políticas e Sociais, as animações se transformaram em discussões da sociedade moderna como Os Simpsons, Shrek, Uma Família da Pesada e South Park. Era de se esperar que os quadrinhos também se apropriassem de elementos infantis para contar histórias para adultos. Não se trata apenas de uma busca por novos públicos, mas de um amadurecimento da audiência e da própria mídia. E isso que estamos nos limitando a falar somente dos quadrinhos da Vertigo.

Neil Gaiman em um episódio de Os Simpsons

Neil Gaiman em um episódio de Os Simpsons

Pra variar, deixo vocês com uma citação pra refletir, dos mesmos Diana e Mario Corso, em seu livro A Psicanálise da Terra do Nunca (Penso, 2011), obra em que analisam mundos e situações de fantasia na literatura e no cinema: “Quando se está sob os auspícios do ‘era uma vez’, consigna que define a entrada numa história imaginária, é como naqueles sonhos que podemos ficar tranquilos já que algo nos recorda que a realidade e a fantasia estão devidamente separadas uma da outra. Porém, ao despertar de um sonho particularmente expressivo não é bem assim: restam dele sensações e lembranças que acabam contaminando a vida desperta, independente da clareza que temos de que aquilo não aconteceu de verdade. De algum jeito percebemos que aquela aventura onírica está querendo nos dizer algo, uma verdade indigesta, que não vivenciamos concretamente, mas provamos de seu gosto em sonhos e parte dela sobrevive em nossa vida desperta”.

Esse é o poder das histórias, sejam elas infantis, adultas ou que não se encaixem em nenhuma definição.

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