Mês: junho 2013

O Império dos Sentidos

Onde imperam as sensações também imperam os sentimentos. O Demolidor de Mark Waid, Paolo Rivera e Marcos Martin é uma aplicação precisa da técnica do Total Recall, ou memória eidéitca. Waid abusa dos sentidos na história do super-herói, cego desde criança, com os outros sentidos ampliados e dotado de uma percepção de radar. Tentando evitar seu destino de virar lutador como o pai, Matt Murdock tornou-se um brilhante advogado. Porém, acabou tornando-se também o combatente do crime conhecido como Demolidor. Total Recall, além de ser o nome original do filme O Vingador do Futuro, também é uma técnica de escrita e de análise, que consiste em trazer para o texto ou para o momento atual sentimentos do passado através dos sentidos. De olhos fechados, ouvindo uma melodia calma, somos levados a relembrar gostos, aromas, sensações, cores. Na história do Demolidor, Matt ajuda um garoto cego a lembrar-se de um diálogo perdido em sua memória através dessa técnica, rearranjando objetos, servindo um chá aromático, vestindo a roupa certa, etc.. A partir dessa cena temos um pequeno …

Super-herói tem é que ser é bem macha!

Os gays ainda são vistos com grande preconceito pelos leitores de quadrinhos de super-heróis e, ainda por cima, pela mídia especializada, principalmente no Brasil. Apesar dos esforços da indústria de entretenimento, que vê no segmento gay uma mina de ouro, por causa do Pink Money, essa estigmatização parece estar longe de acabar. Este é mais um texto influenciado pela leitura de Flex Mentallo, que apesar de eu ter dito aqui que tem subtexto erótico, nessa última leitura percebi que não é bem sub esse texto. Ele está lá pra quem quiser ver. Mas não vou me fixar no Flex, não. Mas nas reações dos fãs e, principalmente dos brasileiros e da mídia especializada quando se trata da homoerotização dos super-heróis. Todos nós sabemos que essa indústria de entretenimento é famosa por suas heroínas voluptuosas, de seios e coxas grandes, de decotes e collants apertados. Apesar das críticas “feministas”, muitos fãs adoram isso. Não há nada de errado em glorificar um corpo saudável. Ora, então, porque não adorar que super-heróis homens usem collants agarrados na pele …

De onde vêm as ideias?

Ou “Por que é impossível não despirocar lendo Flex Mentallo e o que o inconsciente coletivo e o Enrique Iglesias têm a ver com isso tudo”. Acontece que essa semana reli Flex Mentallo, de Grant Morrison e Frank Quitely. Uma edição que estava fadada a não ser publicada no Brasil, devido a problemas com direitos autorais. Mas os obstáculos foram rompidos e, este mês, a Panini Comics lançou a obra aqui no Brasil. Antes de você ler esse texto, seria bom dar uma lida no que escrevi anteriormente sobre a mesma obra, que acabei lendo em scans na época. Aqui o link. A versão brasileira, com tradução de Érico Assis e edição de Fabiano Denardin e Daniel Lopes, é muito caprichada, numa encadernação melhor que a americana, cheia de extras, como o texto introdutório de Morrison e os rascunhos de Quitely. A história de Flex Mentallo é cheia de metalinguagem, cheia não, submersa em metalinguagem. Dizem que a metalinguagem é uma literatura masturbatória, cheia de autorreferências, que é muito fácil criar uma história sobre histórias …

Frequência Global Vol. 1, de Warren Ellis e Vários Artistas (Citações)

Por que parar de ler V de Vingança e começar a ler Frequência Global? Para começar, Frequência Global trata das smart mobs, mobilização de um grupo de pessoas ao redor do mundo em prol de um objetivo comum. Muito parecido com o esforço das ONGs, porém espalhada pelo globo, a Frequência Global é uma organização que salva o mundo. Claro que a história tem um viés super-heróico, como naquela em que uma praticante de le parkour percorre a cidade de Londres para livrá-la de uma bomba viral. Também tem muito de ficção científicas e de sociedades secretas. Miranda Zero é a comandante da organização e Aleph, uma espécie de oráculo, é quem contata seus mais de mil agentes ao redor do planeta. Esse esforço conjunto em favor do salvamento, reconstrução, preservação do globo é a mensagem que a HQ passa. Aqui, volto a dizer, Warren Ellis faz um ótimo trabalho, se redime comigo por Transmetropolitan, contando histórias curtas e fechadas, com um muito de fantasioso, porém aplicável aos nossos dias. Para comprovar isso, seguem algumas …

V de Vingança e Miracleman: Contrastes e Correspondências

Para quem não sabe, essas máscaras que o povo anda usando nas ruas durante as manifestações, são originadas da graphic novel e do filme V de Vingança. A HQ é de Alan Moore e David Lloyd  e o filme é dos Irmãos Wachowski. A máscar também representa Guy Fawkes, que tentou explodir o parlamento inglês, e é muito usada no dia de Guy Fawkes, na Inglaterra, quando as pessoas costumam enforcá-lo, como na malhação de Judas aqui no Brasil. Acontece que a obra de Moore é levada ao pé da letra. A intenção de Alan Moore, como o mesmo já disse, não foi de apoiar movimentos, mas “a questão é: este cara está certo? Estará ele louco? O que você, leitor, pensa disto? O que para mim é uma pequena e perfeita solução anarquista. Eu não digo às pessoas o que pensarem, eu só quero que dizer às pessoas para que pensem, e reconsiderem estes pequenos elementos e assumidamente extremos, que são bastante regulares na História humana”. Alan Moore, junto a Alan Davis, outro mestre …

Mais Blá, blá, blá…

Ou como aprender com a evolução do conflito entre super-heróis pode ajudar nos conflitos dos dias de hoje. Não é de agora que os fãs de super-heróis debatem para saber quem é o ser mais poderoso: Thor ou Hulk? Superman ou Capitão Marvel? E não faltaram histórias para ilustrar estes embates, mesmo quando trataram do enfrentamento entre heróis de editoras rivais. Em resumo, sim, histórias de super-heróis sempre envolvem dar e levar porrada e resolver as coisas através da violência, que sempre deve ser canalizada de uma forma construtiva. Mas trazem também conflito de ideais. O vilão quer destruir a cidade e o herói quer salvá-la. Ou ainda, o Superman quer salvar Metrópolis e o Homem-Aranha quer salvar Nova York. E, na base dos socos e pontapés, eles resolvem tudo. Discutir posições nem sempre foi o forte desta indústria de entretenimento. Geralmente, as motivações e caracterizações dos heróis estão lá, disponíveis todo o mês, e elas não mudam. As motivações dos vilões são reveladas no último instante da história enquanto o herói está amarrado ou …

Avaliação Geral: Vertigo Crime (2)

Nesta segunda parte escolho qual dos volumes daria o melhor filme policial, qual deles é o título mas apelativo da série, John Constantine e o uso da metalinguagem.                 Sinopse da Editora: É verão em Nova Iorque, mas um “calafrio” assola a cidade – um assassino em série está à solta e está ficando cada vez mais sádico. A polícia de Nova Iorque e o FBI têm uma suspeita: uma linda jovem chamada Arlana. O único problema é que toda testemunha dá uma descrição diferente dela. Como isso é possível? Nada faz o menor sentido a ninguém, a não ser para Martin Cleary, um policial irlandês de Boston, com um grande segredo em seu passado – um passado que remete a um século ou dois… Comentário: Calafrio é o mais fraco volume da coleção. Talvez pelo que seja o mais apelativo, por isso ganhou todas as estrelas do chocômetro. Como devem saber, não gosto de linguagem de baixo calão nas histórias que leio, a não ser que seja …

Avaliação Geral: Vertigo Crime (1)

A coleção Vertigo Crime foi lançada no ano passado no Brasil pela New Pop. Contava com seis títulos, apesar de muitos mais terem sido lançados nos EUA. A Panini Comics também lançou um destes títulos, estrelado por John Constantine: Hellblazer. A diferença nos tratamentos de editora para editora é evidente: enquanto a Panini optou por utilizar o Papel Pisa Brite no miolo e diminuir o preço da publicação, a New Pop usou papel off-set e seus livros acabaram custando mais caro. Entretanto, o trabalho de edição da Panini é impecável, enquanto o da New Pop deixa a desejar. Tradução e adaptação esculhambadas, muitos erros de revisão. Para ter uma ideia “library”, biblioteca em inglês, foi traduzida como livraria, entre outros erros e palavras mal-escolhidas. Mas vamos analisar livro por livro. Primeiro, a sinopse da editora e, depois, de uma forma diferente, avaliando não só arte e roteiro, mas outros elementos comuns às histórias de crime: chocômetro, nudez e noirismo. Em seguida, os comentários gerais. Sinopse da Editora: Frank Gissel é um detetive particular da grande …

Os Arquétipos e os Super-Heróis da Marvel

Os arquétipos funcionam de certa forma como instintos que guiam e moldam nosso comportamento. As mitologias, bem como os arquétipos, ajudam as pessoas a encontrarem suas identidades, ajudam-nas a em sua luta para entender o universo e o lugar que ocupam nele. Segundo Randazzo (1997, p. 32), os meios de comunicação têm o papel de transmissores da mitologia dos arquétipos, capitaneados pela publicidade geradora de modas e padrões que orientam as massas. No âmbito racional, os super-heróis se identificam com o arquétipo das Cenas do Cotidiano, quando em sua identidade secreta, seu alter-ego mortal. Ao demonstrar, incertezas, pouco conhecimento de si, ao se projetarem em oura pessoa que admiram, como fazem os super-heróis humanizados da Marvel, se aproximam mais dos leitores por serem identificados em suas fraquezas. Esses personagens além de lutar contra seus inimigos têm de batalhar para sobreviver, portanto, têm uma forte consciência das suas responsabilidades e obrigações, conforme diz o lema do Homem-Aranha: “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, tendo para si a crença de que tudo se realiza com esforço, mesmo …

X-Men para Novatos

Se você curtiu os filmes dos X-Men e não sabe por onde começar nos quadrinhos porque tudo é muito confuso, são muitos personagens, as histórias começam de um ponto em que você não consegue se situar e você precisa ter uma bagagem de informações para ficar atualizado… (ufa!). Aqui vai uma lista de recomendações de leituras que o ajudarão a começar sua aventura nos quadrinhos dos heróis mutantes. Se você gostou de: X-Men – O Filme Provavelmente vai gostar de: Marvel Millennium: X-Men Por quê? A linha Ultimate (Marvel Millennium no Brasil) foi criada exatamente para capturar o público vindo dos filmes. Você vai reparar que os uniformes também são de couro com alguns detalhes em amarelo. Outra correlação com o filme é que Magneto é o vilão principal e sua irmandade é muito parecida com a do filme (com exceção de Mística). Em uma das cenas de Marvel Millennium, inicialmente produzida por Mark Millar e Adam Kubert, Magneto ataca a Casa Branca e deixa o presidente George W. Bush nu na frente das câmeras …

Peripécias de Publicações dos Periódicos dos Paladinos Premium e Platinum Passando Posteriormente Para a Poderosa Panini

A Editora Abril foi a editora que teve os direitos de publicação dos super-heróis por mais tempo, mas apresentava alguns problemas que desagradavam os leitores. Os cortes de páginas, o salto nas cronologias, edições não publicadas, quadrinhos redesenhados. “Tudo isso levou alguns leitores a consumir as edições originais americanas, criando um mercado que até então não existia” (Diogo, 1997, p.31). Com a chegada do primeiro filme dos X-Men aos cinemas, em 2000, a Abril resolveu mudar sua tática e o formato de suas revistas de super-heróis. Com o mercado de quadrinhos em retração, e a não-renovação do seu público, os editores resolveram se voltar aos colecionadores com o que foi chamado de Super-Heróis Premium, conforme descrito no site do Correio Brasiliense: “(…) a editora vai cancelar doze revistas e substituí-las a partir de agosto, por cinco publicações em formato americano (o formatão de 17 cm x 25,8 cm), com capa em cartão plastificado e 160 páginas em papel tipo de luxo (tipo couché). A nova concepção da editora modificará uma tradição dentro do mercado de …

A Trajetória da Publicação dos X-Men no Brasil

A primeira revista a trazer uma história dos X-Men editada no Brasil foi Edições GEP, da GEP – Gráfica e Editora Penteado –, lançada em 1969, segundo a revista Wizard[1]. Com um formato próximo ao das revistas americanas, a revista trazia a capa colorida enquanto o miolo era preto e branco. O diferencial desta revista é que, devido ao seu formato, algumas páginas eram preenchidas por histórias inéditas dos X-Men desenhadas por artistas nacionais, entre eles Gedeone Malagola. A revista durou apenas 13 números. Nem todos eles continham histórias dos mutantes. Após dez anos sem histórias próprias publicadas no Brasil, os X-Men voltaram às bancas em 1979 pela RGE – Rio Gráfica e Editora –, atual Editora Globo, no título Almanaque do Hulk. Em 1984, com a passagem dos direitos de publicação da Marvel Comics para a Editora Abril, os X-Men passaram a ser publicados em formatinho na revista Superaventuras Marvel do número 14 ao 72. Depois de uma passagem pelo último número da revista Heróis da TV e  cinco anos sendo publicados em Superaventuras …

Os X-Men dos Anos 50

Os X-Men comemoram 50 anos esse ano. Para comemorar isso, irei postar várias coisas relacionadas com os mutantes aqui. Pra começar: e se o filme dos X-Men fosse rodado nos anos 50? Um tanto impossível, já que eles surgiram só na década seguinte, mas Sean Hartter tentou com essa montagem: Dêem uma olhada na equipe do filme. Taí uma produção que eu gostaria de ver!  

Saudades: Shazam!

Heróis da TV. Superaventuras Marvel. Grandes Heróis Marvel. DC 2000. Heróis em Ação. Super Powers. Superamigos. Revistas que duraram um bocado de tempo, mas que sempre vão ficar na memória dos leitores brasileiros como marcos da sua época. Aqui na seção Saudades quero falar sobre revistas que tiveram uma sobrevida curta e que poderiam ter durado mais, devido a qualidade de seu mix de histórias. Hoje em dia temos casos de revistas que duram pouco pela Panini, como é o caso de Grandes Heróis Marvel, Deadpool, Flash e Edge, mas essas quatro estão longe de deixar qualquer saudade. O que as revistas aqui nesta sessão terão em comum? Séries que são favoritas dos leitores e que foram pedidas por anos e sempre foram relegadas ao segundo plano. Até que algum editor resolveu dar uma chance para elas, apenas para que caíssem no limbo novamente. Aqui começa a seção das revistas que deixaram saudades. Vamos começar com Shazam!, da Editora Abril. Dados Gerais: Shazam! (Editora Abril) Duração: 13 números (0 + 12 edições) – Outubro de …