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Sequence Shot, de Greg Tocchini

Capa de Sequence Shot, de Greg Tocchini

Capa de Sequence Shot, de Greg Tocchini

É impossível transformar um filme em plano sequência numa história em quadrinhos, mas Greg Tocchini em seu Sequence Shot cria uma nova forma narrativa sequencial. Pra começar vamos dizer porquê é impossível transformar um plano sequência numa HQ: planos sequência são planos sem cortes que acompanham um personagem, cenário ou objeto durante um intervalo de tempo. Exemplos de planos sequência, o cinema oferece aos montes, desde a abertura de A Marca da Maldade, de Orson Welles a Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón, os filmes de Joe Wright, e filmes inteiramente (ou quase totalmente filmados nesta modalidade) como Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock e o brasileiro Ainda Orangotangos, de Gustavo Spolidoro.

No plano sequência, teoricamente não deve haver cortes. Nas HQs, em essência, é obrigatório haver cortes. Cada quadro está determinado a um plano, ou seja, um determinado espaço e tempo da narrativa, e sua justaposição é que cria o sentido da narrativa na cabeça do leitor. A transição entre quadros. Tocchini ao se aproximar do cinema, acaba criando uma narrativa híbrida, mas que não necessariamente reproduz um plano sequência. Para que isso fosse feito ao pé da letra, seria necessário imaginar um rolo de papel em que a história fosse se desenrolando através do cenário.

Páginas de Evolução, de Milo Manara, outro explo de como

Páginas de Evolução, de Milo Manara, outro exemplo de como “funciona” o plano sequência nos quadrinhos.

Um trabalho que se aproxima do plano sequência pensado seria Evolução de Milo Manara, que conta a “evolução” do sexo durante a história da humanidade. De qualquer forma, Evolução também não se caracteriza dessa maneira, pois há grandes saltos no tempo, apesar dos personagens não estarem limitados a um requadro e ligarem-se uns aos outros. Se interpretássemos Evolução como um grande bacanal entre dúzias de atores fantasiados, submetidos a um cenário de fundo branco, talvez fosse correspondente, mas há corte. E esse corte são as páginas, que o leitor deve virar periodicamente. Além disso, outro fator inerente ao quadrinho é o tempo de análise do leitor. No papel, ou na tela do computador, o movimento é estático e subordinado ao tempo que o leitor determinar para observar cada cena. No caso de Tocchini isso é um elemento maravilhoso que só trabalha a seu favor e a favor do leitor, que pode perceber os detalhes de cada plano para partir para o seguinte.

Abertura da HQ Sequence Shot, que já incicia com o

Essa transição de quadro para quadro também é interessante em Sequence Shot. Durante a história que Tocchini conta – o destino de uma maleta vermelha, de conteúdo misterioso, que passa de mão em mão até seu irônico final – todos os tipos de transição apontados por McCloud, em seu livro Desvendando os Quadrinhos podem ser encontrados (em exceção do non-sequitur). Mas isso não se aplica à história inteira, mas sim, a cada transição, que se dá de momento a momento, de ação para ação, de tema para tema e de cena a cena, justamente por hibridizar uma linguagem tão própria de outro meio e adaptá-la para um diferente. Sequence Shot mais que um quadrinho experimental, é uma narrativa inovadora, que ultrapassa as limitações da nona arte. Tocchini, conhecido por seu trabalho com super-heróis, em séries como Thor: Filho de Asgard,  possui um estilo de desenho próprio, que não segue as convenções da indústria: traço fluido, como se desenhasse com uma aquarela, de formas arredondadas que talvez pudessem lembrar um pouco de art-nouveau aplicada em contextos contemporâneos, como comprova seu artbook Figments of Imagination. A paleta de cores escolhida para Sequence Shot traz um lindo contraste entre cores quentes e frias, trabalhando o essa diferenciação para destacar ou esconder elementos da trama.

O selo Dead Hamster Comics também conta com as hilárias Surubotron!, de Davi Calil e Ascensão e Queda de Big Mini, de Artur Fujita.

O selo Dead Hamster Comics também conta com as hilárias Surubotron!, de Davi Calil e Ascensão e Queda de Big Mini, de Artur Fujita.

Em resumo: Sequence Shot não reproduz exatamente um plano sequência nos quadrinhos, porém ela cria todo clima para que o leitor esteja envolvido com a história, como faz todo bom filme ou quadrinho através de um bom layout de página ou de uma boa montagem de planos.

Para adquirir a HQ, acesse o site da Monkix ou curta a página da Dead Hamster no facebook.

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