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Mais Blá, blá, blá…

Super-Homem Contra Homem-Aranha, o primeiro encontro entre super-heróis Marvel e DC.

Super-Homem Contra Homem-Aranha, o primeiro encontro entre super-heróis Marvel e DC.

Ou como aprender com a evolução do conflito entre super-heróis pode ajudar nos conflitos dos dias de hoje. Não é de agora que os fãs de super-heróis debatem para saber quem é o ser mais poderoso: Thor ou Hulk? Superman ou Capitão Marvel? E não faltaram histórias para ilustrar estes embates, mesmo quando trataram do enfrentamento entre heróis de editoras rivais. Em resumo, sim, histórias de super-heróis sempre envolvem dar e levar porrada e resolver as coisas através da violência, que sempre deve ser canalizada de uma forma construtiva. Mas trazem também conflito de ideais. O vilão quer destruir a cidade e o herói quer salvá-la. Ou ainda, o Superman quer salvar Metrópolis e o Homem-Aranha quer salvar Nova York. E, na base dos socos e pontapés, eles resolvem tudo.

Discutir posições nem sempre foi o forte desta indústria de entretenimento. Geralmente, as motivações e caracterizações dos heróis estão lá, disponíveis todo o mês, e elas não mudam. As motivações dos vilões são reveladas no último instante da história enquanto o herói está amarrado ou de alguma forma à mercê do seu antagonista. Momentos depois, o herói derrota o vilão e salva o dia.

Não sei se foi com os X-Men que isto começou, mas Magneto e Professor X foram criados para serem antagonistas de ideais, onde nem sempre o conflito físico resolvia todas as questões. Enquanto Xavier seria uma espécie de Martin Luther King, Magneto seria Macolm X, cada um com suas posições, legítimas, mas diferentes no modo de agir.  Ou seja, os diferentes fins e princípios, se expressavam nas diferenças dos meios utilizados. Enquanto um é uma força construtiva, defensiva, protetora, o outro é uma força destrutiva, agressiva, terrorista. Isso, claro, foi mudando ao longo dos anos, com Magneto se aproximando mais dos X-Men, ou se distanciando, ou com alguns X-Men se incorporando à causa de Magneto e alguns de seus aliados vilões se juntando à causa de Xavier.

Guerra Civil (Civil War), uma leve, porém impactante, mudança na maneira como os super-heróis se enfrentam.

Guerra Civil (Civil War), de Mark Millar e Steve McNiven. Uma leve, porém impactante, mudança na maneira como os super-heróis se enfrentam.

O certo é que o ponto de virada na forma como encaramos o conflito nas histórias de super-heróis aconteceu quando a minissérie Guerra Civil (Civil War) foi publicada. Como eu disse, muitos conflitos entre heróis já foram mostrados, até em proporções universais como as minisséries Marvel VS. DC/DC VS. Marvel, mas nunca da forma que foi feita em Civil War. Por quê? Nesta minissérie, os super-heróis lutavam pelos IDEAIS em que acreditavam, não para proteger inocentes, ou para salvar a cidade, o mundo ou o universo em perigo imediato. O conflito deixava de ser físico e se tornava ideológico, ou seja, o tipo de conflito mais comum que ocorre nas nossas vidas. O Homem de Ferro e seus coligados queriam implementar a lei de registro de super-humanos (ideia esta já discutida nas revistas mutantes) e o Capitão América e seus partidários acreditavam que os heróis não deveriam prestar contas ao governo. Claro que aconteceram muitas lutas, como exige o gênero, mas estava se dando um passo imenso no que tange à caracterização e motivação dos personagens, ao menos dos dois principais envolvidos. Tivemos histórias que mostravam o relacionamento dos dois em anos de convivência, mostrando o que os levou a fazer o que fizeram. O final, resultando na morte do Capitão América, não poderia ser mais simbólico e mais realista. Afinal, para derrubar uma revolta é preciso acabar com seus líderes.

Assim, os novos grandes conflitos de heróis que seguiram, como Cisma (Schism), Vingadores Vs. X-Men (Avengers VS. X-Men) e a vindoura Guerra da Trindade (Trinity War), acompanharam a linha de Civil War, colocando em xeque as posições, opiniões e orientações dos super-heróis em seu próprio universo de amigos. É uma forma de dizer que as histórias do gênero amadureceram. Os super-heróis não preocupam mais uns aos outros por causa da extensão de seus poderes, mas pelo poder de convencimento de suas ideias e como elas podem abalar e transformar o mundo. Para usar uma frase clichê dos super-heróis: “O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente”. Os ideais descontextualizados podem tornar as pessoas obsessivas. A não-discussão absoluta de ideias e ideais transformam líderes em mártires ou em fascínoras. Histórias e notícias sem relativização, idoneidade ou imparcialidade são tendenciosas e, num combate “herói contra herói”, não há espaço para isso, o que significa uma evolução e tanto neste tipo de história.

Poder Sem Limites (Chronicle, 2011): como os filmes de super-heróis deveriam ser.

Poder Sem Limites (Chronicle, 2011): como os filmes de super-heróis deveriam ser.

Enquanto isso, nos filmes mainstream de super-heróis vemos que o movimento é o contrário. Os Vingadores (The Avengers) mostrou mesmo o pega-pra-capar irracional dos super-heróis, o velho vamos-brigar-primeiro-e-vamos-discutir-depois. Porém, um filme que deve ser valorizado e usado como exemplo de como deveria ser um filme de super-heróis, apesar de não se declarar abertamente como um, é Poder Sem Limites (Chronicle, 2011). O filme, além de contar uma história bem desenvolvida, mostrar as motivações dos personagens e caracterizá-los perfeitamente, ainda traz novas utilizações para um dom “kit-básico-de-poderes-de-super-herói”, a telecinésia. A narrativa subjetiva da película também traz uma sensação mais íntima e desconfortável para o espectador, que se envolve com a história dos três personagens principais e acaba entendendo que no mundo não é tudo preto ou branco, que não impera o maniqueísmo. Sim, o filme acaba com uma batalha monumental em Seattle, mas tudo está ali. Dizem que ações expõem mais que diálogos e que quando o personagem está sob pressão é que o seu verdadeiro eu é revelado. Mas numa mídia como os quadrinhos, em que os diálogos (internos ou externos) são usados para caracterizar os personagens e num gênero em que os seus protagonistas vivem em momentos de pressão reveladores, são realmente os diálogos, e não as ações que vão expô-los.

A little less action, a little mor blablablation, pelase!

A little less action, a little more blablablation, pelase!

Há um tempo, um amigo meu reclamou que as histórias do Homem-Aranha Ultimate eram ruins porque eram muito blá-blá-blá e pouca ação. Mas isso é deixar de lado que o conflito e a ação também são revelados nos diálogos. Um bom exemplo de uma história em que os diálogos imperam, e não deixa de haver tensão e conflito, é a de New Avengers #29, (no Brasil, Os Vingadores #113), por Brian Michael Bendis e Mike Deodato Jr., em que os Illuminati se reúnem para tentar resolver o conflito Vingadores VS. X-Men e lidar com a ameaça do poder do Quinteto Fênix. Exceto por uma cena inicial de flashback, em que o Capitão América relembra os tempos de Segunda Guerra Mundial, o resto da história é puro Blá-blá-blá. Mas QUE blá-bla-blá. É ali que entendemos a motivação de cada um daqueles personagens. Ali entendemos como eles reagem às situações, seus medos, suas culpas, sua iniciativa, suas capacidades e vulnerabilidades. Que não é preciso partir pros socos e, sim, bolar uma estratégia.

Será que Gandhi ou Lennon usariam uma máscara do Guy Fawkes hoje em dia?

Será que Gandhi ou Lennon usariam uma máscara do Guy Fawkes hoje em dia?

Voltando para o que prometi no começo do post, o que isso tem a ver com o mundo real? Hoje vemos pipocar por todo o mundo revoltas organizadas através das redes sociais, em que muitas vezes vemos o vamos-partir-para-a-ignorância-antes-e-vamos-discutir-depois, de ambos os lados dos conflitos. O que quero dizer que é legal reivindicar nossos direitos, mas o mundo real não é o mundo dos super-heróis, ele não está dividido ente heróis e vilões, apesar de muitas vezes parecer. Que não precisamos usar máscaras do Guy Fawkes (V) para nos conferir uma autoridade maior que a das autoridades, nos imaginando como super-heróis mascarados em prol de uma revolução. Mostrar a cara e fazer as coisas abertamente é muito mais corajoso e altruísta no mundo real do que tentar bancar um super-herói. Afinal, toda mudança é uma revolução e nem toda mudança precisa ser conquistada na base da porrada ou do abuso de poder policial/governamental. Gandhi fez a Marcha do Sal e se tornou um ícone da não-violência. John Lennon e Yoko Ono, ficaram nus na capa da Rolling Stone e ficaram na cama, não precisaram tacar pedras em ninguém, queimar carros ou sacos de lixo ou usar gás-pimenta, usar cassetetes ou quebrar os vidros da própria viatura. O casal é lembrado até hoje como ícones da paz. Então, eu pergunto: quem é o super-herói mais poderoso? O debate ou a violência?

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