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De onde vêm as ideias?

Flex Mentallo: O Homem dos Músculos Mistério, de Grant Morrison e Frank Quitely

Flex Mentallo: O Homem dos Músculos Mistério, de Grant Morrison e Frank Quitely

Ou “Por que é impossível não despirocar lendo Flex Mentallo e o que o inconsciente coletivo e o Enrique Iglesias têm a ver com isso tudo”. Acontece que essa semana reli Flex Mentallo, de Grant Morrison e Frank Quitely. Uma edição que estava fadada a não ser publicada no Brasil, devido a problemas com direitos autorais. Mas os obstáculos foram rompidos e, este mês, a Panini Comics lançou a obra aqui no Brasil. Antes de você ler esse texto, seria bom dar uma lida no que escrevi anteriormente sobre a mesma obra, que acabei lendo em scans na época. Aqui o link. A versão brasileira, com tradução de Érico Assis e edição de Fabiano Denardin e Daniel Lopes, é muito caprichada, numa encadernação melhor que a americana, cheia de extras, como o texto introdutório de Morrison e os rascunhos de Quitely.

Capa da Edição Brasileira de Flex Mentallo

Capa da Edição Brasileira de Flex Mentallo

A história de Flex Mentallo é cheia de metalinguagem, cheia não, submersa em metalinguagem. Dizem que a metalinguagem é uma literatura masturbatória, cheia de autorreferências, que é muito fácil criar uma história sobre histórias em que parte de você mesmo faz parte dela. Mas eu discordo. O mais difícil nessa vida é entender o ser humano e colocá-lo em discussão a partir das nossas perspectivas. Claro, há maneiras e maneiras dessa discussão ocorrer. Já dizia uma pesquisa sobre literatura brasileira contemporânea que a grande maioria dos personagens principais deste tipo de livro é um escritor. Na história de Grant Morrison, os protagonistas são um super-herói e seu criador/músico.

Na resenha anterior eu havia falado da história das histórias em quadrinhos, do amadurecimento do leitor desse tipo de mídia e da sexualização que essas obras trazem. Aqui vou falar de ideias. Essa é a maior discussão, entre as muitas outras contidas nessa minissérie: somos nós que controlamos nossas ideias ou são elas que nos controlam? De onde elas surgem? Todo escritor é perguntado: “Puxa, li seu livro, mas de onde é que você tira essas ideias?”.

Grant Morrison/ King Mob

Grant Morrison/ King Mob

Grant Morrison acredita na magia, assim como muitos de seus colegas de profissão. Não assisti ao vídeo dele, Conversando com Deuses, e nem acabei de ler o livro semiautobiográfico, Superdeuses, mas já li várias entrevistas em que diz acreditar no poder transformador das histórias. Porém ele não está falando do poder das histórias de transformar seu público, pois isso é mais do que comprovado. Mas Morrison levanta a hipótese (ou melhor, crê na hipótese) de que as histórias transformam seus criadores. Nas palavras dele, em entrevista para o Writers on Comics Scriptwriting, de Mark Salisbury (Titan Books, 1999): “Então eu coloquei King Mob (de Os Invisíveis) em uma experiência xamanística, na qual tudo que ele tem se esfacela. Pouco tempo depois, tudo na minha vida entrou em colapso; minha namorada me deixou e eu acabei num hospital morrendo de uma infecção bacteriana, dois dias pra viver. Eu realmente pensei que seria isso. Todas as histórias que eu havia escrito antes eram sobre invasões de fora por seres do tipo bactérias ou insetos. Alguma coisa no meu corpo sabia que eu estava escrevendo sobre isso. Ou poderia ser vodu, qualquer coisa que você escolher acreditar. Então eu pensei “Peraí, e se o King Mob ficasse numa boa?”. Então o levei para a América e tornei Ragged Robin sua namorada. Fiz isso deliberadamente. Peguei a capa que Brian Bolland fez e disse: “Quero conhecer aquela garota”, e fiz uma coisa mágica com isso. Encontrei uma garota exatamente como a Ragged Robin”. Só para constar, o personagem King Mob é inspirado no Grant Morrison da vida real. Coincidência? Magia? O amor que você dá é igual ao amor que você obtêm? A maior coisa que você vai aprender é apenas amar e ser amado em retorno? Talvez. Mas, no século passado, um estudioso da mente lançou uma teoria do que ele chamava de Inconsciente Coletivo. Esse estudioso era Carl Gustav Jung.

Carl Gustav Jung: O Pai da Psicologia Analítica

Carl Gustav Jung: O Pai da Psicologia Analítica

Jung era uma criança difícil, que dividia sua própria personalidade em duas, que conversavam entre si. Não muito diferente do que ocorre em Flex Mentallo. Jung estudou muitas culturas, símbolos e psiques, e acabou encontrando os arquétipos, forças que guiam nosso subconsciente e que estão presentes em todas as populações do mundo. Esses arquétipos são construídos no Inconsciente Coletivo, ou seja, “para o inconsciente, espaço e tempo parecem relativos – o conhecimento está num espaço-tempo contínuo, em que o espaço não é espaço, nem o tempo, tempo” (Hyde, Maggie, McGuinness, Michael. Entendendo Jung – Um Guia Ilustrado. LeYa, 2012). Lembrou do Flex?

Coincidências assim não acontecem apenas com Morrison, porque ele é um xamã, um mago, um médium ou o diabaquatro. Quantas vezes você já esteve pensando num amigo e, de repente, o telefone toca e é o tal amigo de que você estava pensando? A interpretação que damos às coisas é poderosa. Por isso é permitido, sim, despirocar com uma obra como Flex Mentallo, que se presta a diversas interpretações e diversos pontos de vistas. Leituras e releituras revelarão camadas e camadas de história. E, se você leu a obra há cinco anos, vai ver coisas hoje que naquele tempo não conseguia abstrair. (Bem, tudo isso acontece com todas produções mentais).

O maior poder manifestado de nosso inconsciente são os sonhos. Quantas e quantas histórias, inspirações e interpretações podemos retirar de nossas produções oníricas? Ninguém precisa ser um xamã para isso. Existem zilhares de experiências xamãnicas no mundo, desde o consumo de substâncias psicotrópicas, beber álcool até que seu corpo dá um “tranco”, ler um livro ou HQ, viagens ao espaço, ver um filme, viagem ao Tibete, ouvir uma música, fazer sexo, terapia cognitivo-corportamental, num ritual obsessivo, na meditação budista, nas psicografias, e até mesmo ao comungar, receber o Corpo e Sangue de Jesus Cristo Nosso Senhor na Unidade do Pai, Filho, Espírito Santo Toda Honra e Toda Glória Agora e Para Sempre Amém, como atestou Jung: “Você é mudado em substância… ou transubstanciado… transformado, engrandecido, literalmente autodesenvolvido”. Então, escolha a sua alternativa.

Aaaah, beber "Pespi", y es casi uns experiencia religiosa...

Aaaah, beber “Pespi”, y es casi uns experiencia religiosa…

Esse é o poder das histórias, transubstanciar seu criador e seu público, mesclá-los num só, através das conexões invisíveis, implícitas e do subtexto que é escrito por cada indivíduo. Como diria Enrique Iglesias “Y es casi uma experiência religiosa, sentir que resucito si me tocas”. Ok, despiroquei. Mas como não? Se o próprio Morrison não despirocasse nunca teríamos Flex Mentallo, nem Os Invisíveis, ou a Patrulha do Destino, ou JLA, We3, os Novos X-Men, Homem-Animal, Asilo Arkham, Corporação Batman e tantos outros. Ou seja, de onde vêm as ideias? De se permitir despirocar com o inconsciente coletivo. Pelo menos, é isso que Flex Mentallo nos diz (em uma de suas camadas). A criação não é metódica: nossa vida, nossas influências, nossa experiências, nossos sentidos e sentimentos, nossas expectativas é tudo um caos com consciência que chamamos de mundo do autor. Ela pode ser controlada e direcionada, mas explicar de onde surgem as ideias é como tentar explicar de onde surgem os sonhos. É como Wally Sage chamaria Flex Mentallo e vice-versa. É como Grant Morrison chama sua experiência xamanística: criação. No fim das contas, é o que Deus chamaria de sua obra. Todo autor é o deus de um mundinho próprio.

Pra finalizar, uma frase do Morrison: “Minha vida se tornou o quadrinho, se tornou ficção, se tornou fantasia, e quanto mais fantástico eu torná-la, melhor parece funcionar. Essas são afirmações grandes e loucas para serem feitas, mas é dessa maneira que está funcionando”.

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