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Super-herói tem é que ser é bem macha!

Os gays ainda são vistos com grande preconceito pelos leitores de quadrinhos de super-heróis e, ainda por cima, pela mídia especializada, principalmente no Brasil. Apesar dos esforços da indústria de entretenimento, que vê no segmento gay uma mina de ouro, por causa do Pink Money, essa estigmatização parece estar longe de acabar.

A lânguida Emma Frost de Milo Manara e o Gavião Arqueiro da Hawkeye Initiative: mundo maniqueísta dos super-heróis.

A lânguida Emma Frost de Milo Manara e o luxurioso Gavião Arqueiro da Hawkeye Initiative: mundo maniqueísta dos super-heróis.

Este é mais um texto influenciado pela leitura de Flex Mentallo, que apesar de eu ter dito aqui que tem subtexto erótico, nessa última leitura percebi que não é bem sub esse texto. Ele está lá pra quem quiser ver. Mas não vou me fixar no Flex, não. Mas nas reações dos fãs e, principalmente dos brasileiros e da mídia especializada quando se trata da homoerotização dos super-heróis. Todos nós sabemos que essa indústria de entretenimento é famosa por suas heroínas voluptuosas, de seios e coxas grandes, de decotes e collants apertados. Apesar das críticas “feministas”, muitos fãs adoram isso. Não há nada de errado em glorificar um corpo saudável. Ora, então, porque não adorar que super-heróis homens usem collants agarrados na pele que revelam seu corpo bem trabalhado no cotidiano de boas ações? Essa exposição do corpo feminino em detrimento do masculino gerou um tumblr chamado The Hawkweye Initiative, que basicamente consiste em pegar o personagem Gavião Arqueiro, famoso pegador do Universo Marvel e colocá-lo nas situações constrangedoras que as heroínas/vilãs acabam submetidas. O sucesso foi imenso e imediato. Mas alguns não pararam para refletir a ironia.

É, é muito macho mesmo esse mundo em que os fãs discutem moda: não mudem o uniforme da Vespa! Ela vive mudando seu visual! A verdadeira Vespa só usa Valentino! Não deixem a Mulher-Maravilha usar calças, ela fica melhor com aquela calcinha de estrelinhas, da coleção primavera-verão do Yves Sain-Laurent! Isso sem falar dos fãs que compram trocentas variações de action figures, por causa dos uniformes novos. A nova coleção outono-inverno, escolhido Crossover do Ano, do grande estilista dos croquis, Jim Lee. SPFW = Superpoderosos Fashion Week.

Eu, Wolverine. OPS! Eu, Ricky Martin. "O próximo é você!"

Eu, Wolverine. OPS! Eu, Ricky Martin. “O próximo é você!”

Já os desenhistas brasileiros, como Mike Deodato Jr. e Ed Benes, são famosos por conferir às beldades benfazejas, digamos, curvas mais, digamos, brasileiras. Não que isso seja ruim, pois muitos dos seus homens também têm as, digamos, curvas também mais brasileiras. Mas vêm as redes sociais e estragam tudo, revelam o que temos de melhor e de pior. Na ocasião em que Ricky Martin saiu do armário muitos artistas brasileiros começaram a postar piadas no microblog, do tipo “Fulaninho, agora é sua vez!”.

Há um tempo atrás, houve uma discussão entre a comunidade gay, grande consumidora de produtos de entretenimento como os quadrinhos, videogames e séries e a instituição One Million Moms, que, aparentemente, não lê quadrinhos. A primeira exigia a saída do roteirista Orson Scott-Card (O Jogo do Exterminador, Homem de Ferro Ultimate) porque o autor abominava a união de casais do mesmo sexo e poderia usar isso nas histórias do Superman – que foi contratado a escrever. A segunda apoiava Scott e foi responsável por várias petições para que as lojas parassem de vender gibis que mostrassem qualquer relacionamento homoafetivo, com a desculpa que isso poderia influenciar as crianças a tornarem-se gays. Vale ressaltar que nenhuma das ações da One Million Moms surtiu efeito. Já a da comunidade gay e de simpatizantes acabou por afastar, por motivos pessoais, Chris Sprouse, o desenhista designado para a história de Scott-Card da publicação The Adventures of Superman.

Em meio a essa discussão, uma postagem me chamou a atenção. Foi no blog Papo de Quadrinho, do Jota Silvestre. O blogueiro dava o expediente normal da notícia, mas, por fim, atiçava os leitores com a pergunta: “se um artista se recusasse a desenhar o roteiro de um roteirista gay, qual seria a reação”? A resposta veio alguns dias depois: porque um desenhista que é contra negros seria afastado do seu trabalho, enquanto um roteirista negro não. Simples assim. Basta relativizar um pouquinho, né? E eu não tenho nada contra o Orson, não, viu. Ele é um grande escritor de ficção científica e garanto que escreveria uma ótima história do Superman sem nem pensar em tocar no assunto casamento, seja ele do mesmo sexo ou não.

Essa não! Descobriram o lobby gay! E agora, onde vamos gastar nosso pink money?

Essa não! Descobriram o lobby gay! E agora, onde vamos gastar nosso pink money?

Então, este mês, leio a revista Mundo dos Super-Heróis e dou de cara com a coluna de opinião do editor, Manoel de Souza, no final da revista. Tratava sobre isso mesmo, o casamento gay nos quadrinhos. Ele até fala bem da iniciativa das editoras começarem a lançar os olhos sobre esta minoria e começar a retratá-la, mas, aos poucos, o texto vai tornando-se chauvinista. Primeiro porque o colunista acusa a indústria de quadrinhos de estar promovendo uma espécie de lobby gay, baseada em ações de marketing para as revistas venderem mais. Ok. Concordo. Mas não é disso que vive a indústria dos quadrinhos americanos? Marketing?

Mudanças de uniformes, acontecimentos bombásticos, capas variantes e capas com gimmicks, mortes e renascimentos de personagens e… casamentos?  O nicho gay é, hoje, um dos mais visados pela publicidade e pelo marketing, está cada dia em maior visibilidade. Segundo a revista IstoÉ Dinheiro, o Pink Money, ou seja, o poder de consumo dos gays, movimenta 3 trilhões de dólares por ano. O público homossexual gasta 30% a mais que o público heterossexual. “No Brasil, de acordo com as estatísticas, esse público é formado por cerca de 18 milhões de pessoas, com renda média de R$ 3.200. Pertencentes, em sua maioria, às classes A e B, eles movimentam cerca de R$ 150 bilhões por ano no País, segundo a consultoria InSearch Tendências e Estudos de Mercado”, diz a revista. Ou seja, é um tiro no pé ignorar ou rechaçar esse segmento.

Hoje, apesar de toda crítica da sociedade,  as pessoas são incentivadas a mostrar suas verdadeiras cores, seja pela indústria do entretenimento, seja pela psicologia, seja pela própria publicidade. Menos, é claro, pelas religiões. Ou seja, é legítimo que exista um lobby gay, pois como é comprovado pelo próprio Ricky Martin, a indústria do entretenimento é feita por eles, seja em frente ou detrás (ui!) das câmeras.

Wolverine beijar hércules numa realidade alternativa? NÃO PODE! Nocaute e Escândalo Savage serem amantes? UUH, SEXY!

Wolverine beijar hércules numa realidade alternativa? NÃO PODE! Nocaute e Escândalo Savage serem amantes? UUH, SEXY!

Então o texto de Manoel descamba. O Wolverine de uma realidade alternativa não pode ser mostrado beijando Hércules, por que senão, o que vão pensar os espectadores do filme do x-man? Que Logan virou frutinha? Hércules, bem sabemos, já teve suas aventuras com o mesmo sexo. E NÃO TEM vergonha disso. “Senão”, completa o editor, “logo, logo vão dizer que o Conan também é gay e que as 6.500 mulheres que ele currou (sic) serviram só para chamar a atenção para sua homossexualidade…”. Em realidades alternativas, como já diria o título das séries Elseworlds e What if?, tudo pode acontecer. Se existe uma realidade onde Superman e Batman são mulheres e isso não confunde a cabeça do leitor nem do de longa data nem do iniciante, porque um mundo onde um personagem é gay confundiria? A conclusão de Manoel segue a mesma lógica distorcida da pergunta de Jota. Ninguém destruiu um personagem tornando-o gay. Apenas o enriqueceu. Basta, como eu disse, relativizar. Isso pra nem entrar em discussões de crossplayer e de rule 66.

Ontem me deparo com a seguinte postagem no twitter: “Sempre que você estiver na dúvida se o que está fazendo é afeminado ou não pense ‘o que Wolverine faria?’”, seguida de uma foto lânguida e luxuriosa do Logan, num bar, sem camisa, bebendo cerveja, com uma baita bulge (protuberância). Pois é, vamos lá, pensem muito no Wolverine, no Conan, no Juiz Dredd, no Lobo, no Justiceiro, para cometerem seus atos de macheza pelo mundo. Mas não pensem muito, viu? Isso pode virar doença gay e vocês vão ter que chamar o Marco Feliciano para curá-los. E do Batman, então, nem precisa falar. A postagem que veio em seguida foi uma boa resposta: o Wolverine abocanhando uma linguiça numa foto oficial de um card de verão da Marvel. Por isso resolvi escrever este texto, pra mostrar que, enquanto sociedade, ainda temos muito que evoluir nas aceitação das minorias, sejam elas quais forem. A indústria do entretenimento, apesar de ser baseada em marketing, não é nada mais que um reflexo das demandas do público. Espelhar as diferentes caras da população mundial sempre foi saudável, brasileiros, que vibram sempre que a Marvel coloca um personagem daqui em suas revistas.

Esse Wolverine é o macho que eu queria ter... ops, ser!

Esse Wolverine é o macho que eu queria ter… ops, ser!

Como assim, o Wolverine, ali parado curtindo o casamento do Estrela Polar? Ele é macho, ele NÂO PODE! Como assim capa rosa na revista do Homem-Aranha? Essa eu NÃO COMPRO! Calma, mona! Você não vai virar gay se ler a revista. A não ser que esteja tão inseguro assim com a sua sexualidade que pense que sim.

Ou seja, se você admira um super-herói pelos seus atos de coragem, sua vontade de mudar o mundo e não pelo tamanho de seus bulges e dos seus músculos, admire também um super-herói gay, porque além das qualidades que citei acima, ele teve que mostrar ao planeta seu maior ato de coragem: sair do armário e mostrar quem ele é para uma sociedade que “o teme e o odeia”(sic), inclusive àqueles que leem e se envolvem com as suas histórias. Como perguntou Maurício Muniz em sua coluna para o Guia dos Quadrinhos: Será que os quadrinhos de Super-Heróis não nos ensinaram nada?

Será? Fiquem com a música de Joe Jackson, que também tem uma bela interpretação na voz de Tori Amos:

Não é Mara? Maravilha!

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