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O Império dos Sentidos

Demolidor #1, da Panini Comics, de Junho de 2013.

Demolidor #1, da Panini Comics, de Junho de 2013. (clique para ampliar e ver o belo trabalho de Rivera)

Onde imperam as sensações também imperam os sentimentos. O Demolidor de Mark Waid, Paolo Rivera e Marcos Martin é uma aplicação precisa da técnica do Total Recall, ou memória eidéitca. Waid abusa dos sentidos na história do super-herói, cego desde criança, com os outros sentidos ampliados e dotado de uma percepção de radar. Tentando evitar seu destino de virar lutador como o pai, Matt Murdock tornou-se um brilhante advogado. Porém, acabou tornando-se também o combatente do crime conhecido como Demolidor.

Total Recall, além de ser o nome original do filme O Vingador do Futuro, também é uma técnica de escrita e de análise, que consiste em trazer para o texto ou para o momento atual sentimentos do passado através dos sentidos. De olhos fechados, ouvindo uma melodia calma, somos levados a relembrar gostos, aromas, sensações, cores. Na história do Demolidor, Matt ajuda um garoto cego a lembrar-se de um diálogo perdido em sua memória através dessa técnica, rearranjando objetos, servindo um chá aromático, vestindo a roupa certa, etc.. A partir dessa cena temos um pequeno vislumbre de como a mente investigativa e defensiva de Matt Murdock funciona: como um Supertotal Recall.

A própria capa da edição já dá um palpite de que a história irá explorar os sentidos de Matt. Ela é composta apenas de onomatopeias para demarcar o lugar das coisas, uma sacada muito inteligente de Paolo Rivera, que dá o recado também nas outras capas que compõem este encadernado, lançado este mês pela Panini. Na capa da compilação ainda temos o Demolidor tampando seus olhos com o bastão.

O Mancha, vilão do Aranha, visto através do radar do Demolidor.

O Mancha, vilão do Aranha, visto através do radar do Demolidor.

Durante as histórias que seguem, o Demolidor enfrenta vilões que se utilizam do tato, como o Mancha. O sentido de radar de Matt, trabalhado brilhantemente por Paolo Rivera e Marcos Martin, revela do que é feito o vilão. Depois, o sentido usado é a audição, quando nosso herói se depara com o Garra Sônica. Ele também enfrenta o Capitão América, leões do zoológico e o mercenário dos mercenários, Brutamontes. Os layouts e as onomatopeias são usadas e abusadas para ampliar nossas sensações durante a história. O que Mark Waid e sua trupe fazem, através do roteiro, layout, desenhos e onomatopeias é enriquecer nossa experiência sensória, como os bons livros fazem. O que Guido Crepax fez em suas HQs, como Valentina, Emmanuelle, a História de “O”, aumentando a carga de sensualidade através da construção do layout, Rivera e Martin constroem tensão e suspense através da transformação dos sentidos em elementos gráficos.

O trabalho no layout para construir tensão.

O trabalho no layout para construir tensão.

Não falta aventura, porrada e elementos de humor. Não por acaso, a série Daredevil (Demolidor) ganhou os prêmios Eisner de melhor série e melhor roteirista.

O Demolidor é um personagem rico com uma mitologia recheada de recursos e personagens coadjuvantes, que já foram trabalhados virtuosamente por Frank Miller, Ann Nocenti, Kevin Smith, Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, entre tantos. Nenhum deles, todavia, focou com tanta intensidade e poder de narrativa um fator essencial do super-herói, que são seus sentidos ampliados. Isso torna essa fase de Waid na revista única. Em vez de construir um arco de histórias rocambolesco, pretensioso e pseudo-épico, como seu predecessor Andy Diggle fez com Terra das Sombras, Waid optou pelo foco e simplicidade.

'Cause nice and easy does it every time

‘Cause nice and easy does it every time

Um bom exemplo disso é a história que foi publicada na primeira edição americana da série e que a Panini optou sabiamente para encerrar esse primeiro encadernado: um passeio pela cidade de Nova York, ao lado de seu fiel amigo e confessor, Foggy Nelson. Durante o passeio, Matt chama a atenção do amigo para as coisas simples que uma metrópole barulhenta e malcheirosa como a Grande Maçã tem para oferecer. E seus sentidos ampliados só conseguem captar coisas positivas: “Sei que ando agindo de um modo meio… diferente… desde que voltei, Foggy. Mas quero que você pense numa coisa, tá? Os últimos anos foram miseráveis. Toda a vez que eu chegava ao fundo do poço, Deus me arranjava uma pá maior. E toda essa dor, toda essa perda, e tudo mais… não dá pra carregar esse fardo todo e continuar são. Eu sei disso. Então, decidi mudar meu jeito. Você pode dizer que eu estou em negação. Pode achar que eu estou fugindo, ou que sou um idiota… você que sabe. Não me leva a mal, mas eu não dou a mínima. Foi assim que decidi viver. É aceitável pra você?” E pra você, leitor, é aceitável abandonar o Demolidor grim’n’gritty e acolher o novo Matt Murdock nice’n’easy? Se você ler essa HQ, garanto que vai curtir.

E agora, um pouco de jazz pra ouvir enquanto lê essa crítica ou a HQ:

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3 comentários

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