Shazam! – O Capitão Marvel dos Novos 52

Liga da Justiça #0 (DC/Panini Comics - Jun/2013)
Liga da Justiça #0 (DC/Panini Comics – Jun/2013)

Geoff Johns e Gary Frank, da mesma maneira que fizeram com Batman e Superman, dão uma nova roupa e roupagem para o campeão da Pedra da Eternidade, este mês, em Liga da Justiça#0.

ATENÇÃO: Isto não é uma resenha, é uma análise. Então já vou logo avisando que haverá spoilers. Leia com cuidado e não me jogue numa jaula como o Sr. Malhado.

Na coluna Saudades, há um tempo atrás, havia falado da revista The Power of Shazam! e de como o Capitão Marvel era popular no Brasil. Porém, suas histórias e sua revista foram canceladas. Um dos motivos levantados para o cancelamento da revista era o de que o Capitão pertencia a uma geração de heróis naïve, que preservavam certa inocência em suas histórias: mais infantis, com mais doses de humor. Diferente dos outros heróis que tiveram sua origem recontadas e recontadas ao longo dos anos, não foi o caso de Billy Batson, o outrora Capitão Marvel. A tentativa feita por Jerry Ordway nos anos 90 foi uma grande façanha, porém menos que uma reconstrução, era uma homenagem a C.C. Beck, Otto Binder e tantos outros que passaram pela família Marvel.

No final da década de 80 e início da década de 90, a desconstrução era a onda. Os personagens eram esmiuçados e o leitor podia entrar em seus pensamentos confusos e nebulosos, mesmo sem ser um telepata classe ômega ou um terapeuta com PhD. Nem sempre o personagem que chegava ao final do arco de histórias era o mesmo que carregava aqueles valores de heroísmo e bravura que conhecemos como marca registrada dos super-heróis. Uma hora eu falo mais de reconstrução e desconstrução. O que eu quero falar aqui é do trabalho feito por Johns e Frank, que fica em algum ponto intermediário entre o que Jerry Ordway fez com Billy e seus amigos na década de 90 e a reconstrução da Invasão Britânica.

Uma das coisas que Robert McKee fala em seu livro Story – Substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiros é que uma história, seja ela qual for, (no caso ele tratava de roteiros cinematográficos), deve carregar valores. No final de um roteiro, o escritor deve saber do que se tratava a história – fé, sanidade, imprudência, destino, desilusão, caos – para depois reescrevê-la com base naquela orientação. Deve também saber se a história passará uma carga negativa ou positiva para leitor e balancear estas duas de modo que o efeito no leitor/espectador seja intensificado.

Super-heróis são feitos de valores. O que são arquétipos, tão falados aqui, senão um conjunto de valores?  Superman é luz. Batman, a escuridão. Homem-Aranha é a resposabilidade. Hulk, a dualidade. E o Shazam! (ex-Capitão Marvel), é norteado por qual valor? Pelo que a história desta edição nos conta e nos diz claramente, o valor que orienta as histórias de Billy Batson é a família. Mas, como Johns e Frank se encontram na área cinza entre a desconstrução e a homenagem, a família referenciada aqui nesta história, em pleno século, XXI, não poderia ser uma família nuclear, comum. Billy Batson vai para uma família composta só de crianças adotivas, com representantes de cada raça.

A nova Família Marvel.
A nova Família Marvel.

Se no mundo de Ponto de Ignição, seis crianças multiculturais formavam o Capitão Trovão, numa espécie de homenagem ao Capitão Planeta, desta vez é só Billy quem ganha os poderes do Mago. Mas todas as crianças estão lá. Todas as seis. Todas as letras. Todos os heróis da mitologia e suas capacidades. O que nos leva a pensar o que a dupla de criadores guarda para o futuro.

Voltando para o motivo do “insucesso” da série dos anos 90: a caracterização de Billy e dos demais personagens como pessoas inocentes, de coração bom e gentil, era um aspecto demais contrastante com os heróis violentos da época. Na versão Novos 52, Billy é uma criança detestável, segundo a sua tutora, mas também se mostra voluntarioso e corajoso. Numa passagem importante da história, Billy abre os olhos do mago dizendo que no mundo atual não existem mais pessoas puras e de bom coração. “As pessoas boas são devoradas. Elas desaparecem”. O mago então analisa o que é bom e o que mau em Billy e encontra fagulhas de boas intenções. Opa, será que o Billy leu o livro do McKee? Não, mas o Johns com certeza.

Há ainda o trabalho nas caracterizações dos outros “irmãos” de Billy, cada um com personalidade e motivações próprias. Como o novo Freddy Freeman, um batedor de carteiras e trambiqueiro, que se compara com o Morgan Freeman de Um Sonho de Liberdade. Há o novo Dr. Si(l)vana, o novo Sr. Malhado, o novo Mago (um aborígene), o novo Adão Negro, o novo Coelho Joca (aqui chamado de Saltador) e alguns personagens novos.

No século XXI, onde a noção de tradição, família e propriedade é cada vez mais questionada, um herói que sempre pôs a família em primeiro lugar, não importando de onde viessem; se eram sua família biológica ou “escolhida”, tem seu legado resumido muito bem com a frase do mago: “Família é o que é… Não o que deveria ser. Este é o seu feitiço secreto… seu poder definitivo…”.

As novas versões dos personagens da mitologia de Shazam!
As novas versões dos personagens da mitologia de Shazam! por Ivan Reis, Joe Prado e Rod Reis 

BÔNUS TRACK: Já que estamos falando das edições 0 da DC Panini, aqui vão outras recomendações de histórias excepcionais:  as narrativas curtas de Sholly Fisch, que vem convencendo mais que Grant Morrison em Action Comics, sempre repletas de sensibilidade e bom-humor, em Superman#0. As duas histórias escritas por Gregg Hurwitz, em Batman#0. A primeira, de Detective Comics, contando sobre o treinamento ninja de Bruce Wayne e a segunda, de The Dark Knight, contando sobre o destino do carrasco dos pais de Bruce. Por último, a gênese de Damian, em Batman e Robin, e a origem da Batwoman, contada de forma mais literária impossível – de modo que a força da história reside no texto e as ilustrações servem apenas de complemento, como num livro ilustrado – ambas em A Sombra do Batman #0. Universo DC#0 e Lanterna Verde#0 mantém a qualidade das edições anteriores. Enquanto que na revista do Flash, o que se salva é apenas o corredor escarlate.

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