Parábola, por Jean “Moebius” Giraud

O Surfista, de Moebius
O Surfista, de Moebius

“Era a primeira vez na vida que eu trabalhava usando o ‘Método Marvel’, Stan me deu um enredo razoavelmente detalhado – em torno de seis páginas – , mas sem esboços ou diálogos. Isso era novidade para mim. Quando eu faço o Blueberry com Jean-Michel  Chartier, ele me dá o script completo, mesmo que eu não o siga fielmente. Jodorowsky trabalha comigo de uma forma única, mas, também, quando eu começo a desenhar, já tenho todos os elementos visuais no lugar. Esse não era o caso aqui.

Colocar a história no caderno de esboços era a parte preferida do meu serviço. Era como desenhar storyboards. Eu via a história se desenrolar na minha frente, no papel. Quando terminei, havia feito 46 páginas, o que  mostra quanto Stan era bom. Eu não precisei aumentar nem cortar nada de história. Stan não pareceu particularmente surpreso com meus esboços, o que indica que os mesmos devem ter sido o resultado lógico do desenvolvimento de todas as informações que ele me  deu.

A história é maravilhosa. Está cheia de considerações pessoais e filosóficas, o que achei muito interessante. É, obviamente, algo muito chegado a Stan. Não é tudo bonito, charmoso e frívolo como a maioria das histórias de super-heróis. Na verdade, ela é um tanto triste e sombria, enfocada sob uma luz diferente. (…)

Tenho certeza que algumas pessoas prefeririam ver mais ação, mas eu, particularmente, acho mais interessante ver a revista em quadrinhos sob um ponto de vista filosófico. Em vários aspectos, a história de Stan é moderna, muito política e bastante próxima ao que  os jovens artistas de hoje estão tentando fazer. (…)

Tenho certeza que as pessoas aqui (EUA) dirão que meu trabalho parece europeu, e os franceses dirão que ele parece americano. Isto se deve ao fato de eu não ter usado a linguagem gráfica que se encontra nos quadrinhos americanos típicos.

Há certas maneiras de se desenhar expressões, o céu, as árvores, os edifícios, as roupas. Há milhões de maneiras. Os artistas codificam a realidade e ela evolui para um sistema lógico, coerente, que os leitores aprendem a reconhecer imediatamente, sem estarem cientes disso.

Eu poderia ter seguido as regras dentro de meu próprio estilo, mas isso iria exigir mais tempo e energia que eu queria gastar.

Meu ideal é alcançar uma liberdade e um poder inventivo maiores, em vez de me acomodar dentro do sistema existente. Mas isso também tem suas vantagens. É possível querer estar dentro de tal sistema e sentir prazer. Eu encaro o meu trabalho com seriedade e tento fazer o melhor dentro do sistema. Tudo é possível para um artista, desde que ele faça isso com prazer, como uma descoberta”.

Jean “Moebius” Giraud (1938-2012), em seu posfácio de Surfista Prateado – Parábola, desenvolvido em parceria com o criador do personagem, Stan Lee. Publicado aqui em Graphic Novel #11 (Abril, 1988 e 1991), o(a) tradutor(a) não foi creditado.

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