Antes de Watchmen: Espectral, de Darwyn Cooke e Amanda Conner

Antes de Watchmen: Espectral nem parece uma história de Watchmen e isso é o que faz dela uma boa história. Não, eu não estpu criando polêmica dizendo que a HQ cultuada de Alan Moore e Dave Gibbons é uma história ruim. Pelo contrário, é um cânone mais do que legitimado (por mais redundante que isso pareça). Mas Espectral é uma HQ simples, não confundir com simplória, que funciona independente da pessoa ter lido a narrativa em que se inspirou. Por outro lado, se utiliza de elementos estilísticos que fizeram de Watchmen o que é. Por que essa HQ funciona? Bem, vou listar os itens pra você não se cansar e não se perder:

1. SIMPLICIDADE

Simplicidade
Simplicidade

Certa vez eu li uma entrevista com Scott Lobdell – ok, talvez não seja o melhor exemplo, mas é um roteirista de sucesso – ele disse que quando você quer começar nas histórias em quadrinhos, não deve tentar fazer coisas muito rocambolescas: epopeia espacial, épicos históricos, com monstros gigantescos e heróis consagrados. Não. Deve buscar as coisas mais simples, histórias curtas e personagens praticamente desconhecidos. Ele mesmo disse que começou com uma história de Luke Cage e Punho de Ferro (que na época não eram tão populares como hoje). Espectral é a história de uma garota. Isso aí, a única garota de Watchmen, talvez a personagem  que as pessoas dariam menos bola. A história é uma jornada de formação. Lembra um pouco Mate Seu Namorado, de Grant Morrison, sem as pirações exageradas. Tem piração, claro, mas isso eu falo depois.

2. ELEMENTOS GRÁFICOS DE WATCHMEN

O grid de 9 quadros por página.
O grid de 9 quadros por página.

Cooke e Conner aproveitam a estrutura do grid de nove quadros por página para compor a história de Laurie Júpiter, estrutura utilizada por Moore e Gibbons em Watchmen. Claro, que por muitas vezes eles quebram essa estrutura para provocar outros efeitos no leitor. Não vou dizer quais para não me forçarem a tomar LSD por spoilear. Outra coisa interessante são as citações no final de cada capítulo. Enquanto em Watchmen tínhamos a citação e um relógio marcando as horas até o juízo final, em Espectral temos uma flor cheia de pétalas que vai perdendo-as ao longo da história. Um belo símbolo para o amadurecimento e para a perda das ilusões de Laurie.

3. RETRATOS DE UMA ÉPOCA

Retratos de uma Época.
Retratos de uma Época.

A história se passa entre os anos 60 e 70, e mostra a geração dos baby-boomers, os nascidos pós-guerra, aqueles que viram os primeiros passos do rock’n’roll até ele se transformar no Flower Power. Darwyn Cooke, que fez um trabalho extraordinário ao retratar os 50-60 em DC: A Nova Fronteira, alia-se à Conner para recriar todo um universo de época, desde roupas a decoração e objetos da época, passando pelas música, drogas, economia e política. Ainda dão um alfinetada no sistema em que eles mesmos estão inseridos propondo uma origem para a “cultura de consumo” dos adolescentes/jovens adultos.

4. FEMININO SEM SER FEMINISTA

Feminino sem ser Feminsta
Feminino sem ser Feminsta

Com a ajuda de Conner nos roteiros, os dois conseguem contar uma história que agradaria tanto homens, quanto mulheres, ou aqueles que se encontram no limiar das duas coisas. A história começa com uma Laurie sonhadora, imaginativa, com aspirações de menina, mas sem tornar isso pejorativo. Pelo contrário, confere humor à narrativa. Laurie não é uma feminista, mas, como fala na própria história, ela tem uma espécie de complexo de Édipo com sua mãe. Ela deve primeiro matar a influência materna, para, então, construir uma nova Espectral e seguir este legado. Como falei, trata-se de uma história de amadurecimento, mas mais do que isso, é uma história de amadurecimento feminino. De independência. Não apenas de uma personagem, mas de toda uma geração.

Antes de Watchmen: Espectral, de Darwyn Cooke e Amanda Conner
Antes de Watchmen: Espectral, de Darwyn Cooke e Amanda Conner (Jun/2013, Panini Comics, R$ 12,90).

Claro, teriam mais coisas a serem destacadas como a psicodelia, os flashbacks, o trabalho de cores, o desenho expressivo, mas estes quatro itens são o que mais chamaram a minha atenção. Watchmen não vai ser reduzido na sua mente por ter acompanhado este encadernado. Nem Cooke, nem Conner deturparam a obra de Alan Moore, mas prestaram uma homenagem. O próprio Moore já prestou homenagem a vários trabalhos de outros autores, deturpando-os e reinterpretando-os, como em A Liga Extraordinária e Lost Girls. Esse fator causou mais interesse nos fãs pelas histórias originais. Os protestos de Moore, portanto, são um tanto descabidos. Compreendo a questão dos direitos autorais, o que é uma grande sacanagem corporativa – como as que outras que Big Two andam praticando desde suas origens até os dias atuais – mas dizer que Antes de Watchmen deturpa sua obra é um pouco de exagero. Se ele tivesse lido Espectral, teria sorrido pelo menos na parte que critica a cultura de consumo. Mas, para uma pessoa inserida nela, criticá-la não é um posicionamento muito favorável a si mesmo. Afinal, quantas máscaras de V de Vingança estão sendo vendidas por aí?

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