Matt Fraction: Less is More, Moore is Lessie, and why try to be a Grant Morrison wannabe?

Ah, Matt Fraction, eu não sei o que faço com você. Se te amo ou te odeio, ou se continuo a ficar no meio. Termo. O fato é que o trabalho de Matt Fraction é inconstante. Lendo as páginas do especial que a Panini lançou de Os Defensores, percebi o quão bom narrador ele é. Não que eu já não tenha percebido isso em outras publicações, mas porque todo esse esforço exagerado para parecer cool e criar um estilo “próprio” em Casanova? Ou eu sou muito muito burro, ou não entendi a que veio a série. Era pra ser divertida? Talvez. Mas ela usa as referências de uma maneira que afasta e não envolve o leitor.

Matt Fraction e a esposa Kelly Sue DeConnick: “Hipsters de cabeça feita ardendo pela ancestral conexão celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite” – Allen Ginsberg, Uivo. Antes de chamar alguém de hipster é melhor pesquisar a origem do termo, combinado?
Matt Fraction e a esposa Kelly Sue DeConnick: “Hipsters de cabeça feita ardendo pela ancestral conexão celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite” – Allen Ginsberg, Uivo. Antes de chamar alguém de hipster é melhor pesquisar a origem do termo, combinado?

Fraction começou como escritor independente, nas publicações The Five Fists of Science e Casanova, esta última em parceria com os ótimos artistas brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon. Logo depois, apadrinhado por Ed Brubaker, iniciou uma parceria com o mesmo no elogiadíssimo O Imortal Punho de Ferro, da Marvel, que reimaginava a mitologia de Danny Rand, o lutador de kung fu que concentra o chi em seus punhos.

Mas ok, você já está se cansando e quer itens, né? Então vamos a eles?

Aí vêm os milhares de X-Men de Matt Fraction e Greg Land! Eles vêm atacar seu cérebro e te deixar que nem o Legião! E cuidado, muito cuidado com o braço mutante do Wolverine!
Aí vêm os milhares de X-Men de Matt Fraction e Greg Land! Eles vêm atacar seu cérebro e te deixar que nem o Legião! E cuidado, muito cuidado com o braço mutante do Wolverine!

MORE IS LESS (Mais é Menos)

Não sei se você reparou a mesma coisa que eu, mas parece que Fraction se dá melhor quando enfoca um personagem do que muitos deles. O crossover A Essência do Medo e a fase do escritor em Uncanny X-Men estão aí para provar. O crossover da Marvel tem uma estrutura simplória, própria, é claro, deste tipo de evento, mas que poderia ser melhor desenvolvida. Por exemplo: uma disputa para provar quem é digno de ser o detentor de um martelo, como apontavam os teasers da série, já a tonaria mais interessante. Em vez disso resolveu-se fazer um embate dos Dignos x Os Poderosos. Compreendo que estes crossovers de verão envolvem muita interferência editorial e que as ideias e o, digamos, estilo do autor é tolhido em função da série se espraiar para o maior número de revistas possível.

Por falar em maior número, foi aí que Fraction meteu os pés pelas mãos em Uncanny X-Men. Sim, as legendas para os inúmeros personagens eram interessantes, claro. Mas por que tantos personagens? E personagens que não importavam para a história e personagens que o autor não conhecia a história pregressa. Pra quê? Quando Gillen assumiu as rédeas da série, ele diminuiu a equipe para um punhado de X-Men e a série melhorou consideravelmente.

LESS IS MORE (Menos é Mais)

Detalhe da história "muda" de Matt Fraction e Jamie McKelvie para o Invencível Homem de Ferro.
Detalhe da história “muda” de Matt Fraction e Jamie McKelvie para o Invencível Homem de Ferro.

Já nas histórias que trazem um personagem como protagonista, Matt Fraction se dá melhor. Até mesmo na série de Os Defensores, que eu considero uma revista do Doutor Estranho disfarçada.

Pra começar, o Invencível Homem de Ferro, na qual a parceria com o desenhista Salvador Larroca produziu trabalhos dignos de nota 10 como os arcos Tony Stark: o Mais Procurado do Mundo e Stark Resiliente. O primeiro mostra as andanças de Tony Stark pelo mundo tentando escapar do MARTELO de Norman Osborn e aprofunda seu relacionamento com as mulheres. O segundo, um belo arco de espionagem, digno de James Bond, traz a tentativa de Stark, depois de idas e vindas no ramo industrial, de construir uma empresa sustentável.

Tecnologia é um dos temas preferidos de Fraction e ele o faz muito bem numa história “muda” em parceria com Jamie McKelivie para The Invincible Iron Man #35, que conta como as traquitanas eletrônicas auxiliam e atrapalham a vida de Tony.

Mas eis que Fraction é chamado para as histórias de Thor e não é que ele vai e abusa da tecnologia? E o pior é que dá certo? A Asgard caída, com a ajuda dos cientistas da Stark Resiliente, se chama agora Asgárdia e ela não é mais governada nem por Thor, Odin, Loki ou Balder, mas pela tríade de mulheres de Odin. Isso sim é ser avant-garde (para usar um termo cool) numa história de vikings (com todo o perdão, Brian Wood). O uso das tecnologias nestas histórias do escritor não as tornam inacessíveis ou algo do gênero, pois elas lidam com temas atuais. E por lidarem com assuntos como sustentabilidade, tecnologia móvel, startups, teorias do cosmos e a partícula de Deus, tão caros às discussões de hoje, é que o buzz ao redor das histórias de Fraction as torna tão Kool e Deeskoladas. Não que isso seja ruim. Mais tarde vou chegar na parte ruim disso.

MOORE IS LASSIE (Tá isso, eu não preciso traduzir, né? Mas se quiser, eu faço um desenho)

Pizza Dog!
Pizza Dog!

Muitos tentam ser Alan Moore, mas o fato é que da safra do barbudão de Northampton só existe uma uva. Casanova me lembra muito e eu não sei te explicar por quê, A Balada de Halo Jones. É aquela reminiscência, aquele clima, aquela atmosfera que os quadrinhos de ficção científica pós-modernos têm. Dito isso, parece que Matt Fraction é uma dessas “crias de Moore”. Algumas se deram bem, como Grant Morrison e Neil Gaiman, porque acabaram desenvolvendo não só uma temática, mas uma linguagem própria – é perigoso usar a palavra estilo. Mas, assim como Moore e tantos outros estes dois geraram muitos imitadores. E lá vou eu falar de novo do mote de Moore “tudo que o personagem sabia sobre si mesmo era uma mentira”, que os fãs, eu inclusive, adoram. É o que Fraction e Brubaker fazem em O Imortal Punho de Ferro e além de criarem um novo “Capitão Bretanha”, um novo “Miracleman”, um novo “V”, eles também criam a sua Tropa: As Armas Imortais. E criam também um passado escondido de gerações e gerações de Punhos de Ferro, que vieram antes de Danny Rand. Aí está a Moorização das histórias de Fraction.

Mas não vamos esquecer que Matt Fraction pertence a uma geração de quadrinistas que vieram do mercado independente e tiveram um bocado de tempo de “laboratório”, testando as mais diversas experimentações narrativas. Reside aí o poder da linguagem própria que ele desenvolve, por exemplo, em parceria com David Aja, na série sucesso de público e crítica do arqueiro mais canalha da Marvel, o Gavião Arqueiro. Aí entra a Lessie. Ou melhor, o Pizza Dog, o cachorro que se expressa através da associação de símbolos. Isso é inovador, sensacional, avant-garde, kool e deeskolado. E é quando Fraction encontra seu próprio caminho, sem tentar imitar alguém ou encher a história de referências que nem todos vão entender, que suas histórias funcionam perfeitamente.

WHY TRY TO BE A GRANT MORRISON WANNABE? (Por que tentar ser um cara que quer ser Grant Morrison?)

Olhem pra mim, eu sou Casanova Quinn! Mas na verdade eu sou – rufem os tambores – o King Mob disfarçado! :-o
Olhem pra mim, eu sou Casanova Quinn! Mas na verdade eu sou – rufem os tambores – o King Mob disfarçado! 😮

Lendo Casanova percebi uma tentativa desesperada de tentar ser Grant Morrison. Está tudo lá: a temática, as viagens no espaço-tempo, os fractais, os cat times. Mas Casanova é um Os Invisíveis que deu errado. Ele tenta tenta tenta muito ser kool e deeskolado e é nisso que ele peca. Olhem pra mim, eu sou Casanova Quinn! Mas na verdade eu sou – rufem os tambores – o King Mob disfarçado! 😮 Uma história de espionagem, conspiração, interdimensional, interespaço-tempo, que vai do nada a lugar nenhum. Uma boa história de mistério não basta resolver o mistério, mas deixar algo para o leitor descobrir por si mesmo. Há coisas legais em Casanova: os depoimentos dos personagens, as variações de personagens, a arte de Gabriel Bá, buscando inspiração nas tiras do Laerte e em seu Deus. Mas a história é muito acelerada, e o leitor se perde no meio de tantos acontecimentos, tantas reviravoltas, tantas dimensões, tantas referências que deixam o leitor, pelo menos este que vos escreve, tonto. Ou talvez eu não seja kool e deeskolado – bem, nunca fui – para entender a história, já que ela é tão elogiada. Acho que se o ritmo da história fosse mais lento, houvesse mais contemplações, menos autoironia incestuosa, a história seria mais permeável para o “leitor comum”.

I LIKE TO BE/A WANNABE (Eu gosto de ser/Um quero-ser – Cante no ritmo de Octopus’ Garden)

Detalhe de Os Defensores, uma história do Doutor Estranho disfarçada de revista de grupo. “As coisas foram sensacionais até deixarem de ser e ficar claro que até mesmo adultos podem sofrer. O fato de sermos adultos não nos protege da dor, apenas nos apresenta novas maneiras de infligi-las” – Stephen Strange, o Doutor Estranho, em Os Defensores #01, nos EUA, Defenders #04.
Detalhe de Os Defensores, uma história do Doutor Estranho disfarçada de revista de grupo. “As coisas foram sensacionais até deixarem de ser e ficar claro que até mesmo adultos podem sofrer. O fato de sermos adultos não nos protege da dor, apenas nos apresenta novas maneiras de infligi-las” – Stephen Strange, o Doutor Estranho, em Os Defensores #01, nos EUA, Defenders #04.

Referências são ótimas. Ídolos são ótimos. Exemplos são ótimos. Cópias Xerox são feitas por máquinas, não por pessoas. Moore, Morrison, Gaiman influenciaram uma geração de quadrinistas e irão influenciar muitos mais. Matt Fraction com certeza não é uma cópia Xerox. Ele tem voz própria, mas ao contrário de muitos outros roteiristas, parece se dar melhor nos quadrinhos mainstream que imitam o quadrinho indie, do que nos quadrinhos indie que buscam referência no mainstream. Uma prova disso é minha leitura mais recente vinda das mãos dele: Os Defensores. Uma HQ sensacional, que discute as implicações das coincidências, o sentido da vida, do universo e tudo mais, sem ser pedante e ou impermeável. Uma HQ mística, como Moore ou Morrison escrevendo o Doutor Estranho (isso seria incrível, não acham?), mas não é nenhum deles, é o Fraction. E olha, que baita aventura, que baita discussão da vida vista pelos diferentes integrantes da equipe, com humor, ironia, sarcasmo, que baita narrativa! Uma pena a série ter sido cancelada nos Estados Unidos. Casanova: desrecomendo. Os Defensores: recomendo. I wanna really, really, really, I wanna zig zig ah!

PS: As Spice Girls são dedicadas aos haters.

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