O homem os faz feliz porque o homem faz brinquedos para eles

Não é brincadeira, não! Isso é pra ser uma espécie de crônica. Não é pra ser aquela coisa feminista raivosa, mas apenas uma constatação. Também não vou falar da importância das personagens mulheres nos quadrinhos ao longo da história, nem vou falar de autoras femininas, mas vou me focar numa pessoa em especial. Num personagem que acredito ser a síntese do que deve ser feminino e que tem, sim, uma legião de fãs. Ela é mulher, ela é negra, ela é separada, ela já foi punk, já foi batedora de carteiras, já foi deusa, passou fome, ela é mutante e corre à boca pequena que ela também é bissexual. Ela é Ororo Monroe, a Tempestade.

Esboço de Black Cat, um dos personagens que deu  origem  à tempestade, por Dave Cockrum.
Esboço de Black Cat, um dos personagens que deu origem à tempestade, por Dave Cockrum.

Tempestade foi criada em 1975, por Dave Cockrum, sete anos, portanto, depois do primeiro beijo interracial da TV, entre Kirk e Uhura, do seriado Star Trek – Jornada nas Estrelas. Ela era uma fusão de dois personagens que o artista havia criado para a Legião dos Super-Heróis, a Back Cat e Typhoon. Mas foi com Chris Claremont que ela ganhou força e conquistou o cargo de líder dos X-Men e o coração dos fãs.

Dito isso, quero contar uma história. A história de uma action figure que era rejeitada pelos compradores. Havia a coleção de bonecos de super-heróis dos X-Men. Na coleção, a única mulher era a Tempestade. Ela encalhava nas lojas e ninguém queria comprar ela. Ela ia para o saldão de dez reais e mesmo assim, ninguém a comprava. E isso acontecia nas pequenas lojas de brinquedos, nas grandes lojas de brinquedos e nos supermecados. No interior e nas metrópoles.

Mas eu e meu irmão tínhamos três delas. Um, porque gostávamos da personagem. Ela era uma líder, afinal. Mas também tinha um problema: quando sentava, sentava de pernas abertas, o que fazia com que seu, vamos dizer, períneo, se abrisse com facilidade, fazendo as pernas caírem fora do corpo. E lá íamos eu e meu irmão para o fogão, esquentar uma faca e cauterizar o “ferimento”. Muitos bonecos de R$ 1,99 sofreram com nossas chaves de fenda e nossas facas quentes. Alguns deles sofreram mutação para outros seres distintos dos seus propósitos originais e viraram personagens inventados por nós mesmo. Uma das Tempestades se chamava Tormenta, que era o nome dela em espanhol, quando a Fox Kids acabava passando o comercial do desenho dos X-Men em espanhol. Hola, Lobezno!

Eu, Ororo Monroe, mulher, negra, de cabelos brancos, ladra e bissexual.
Eu, Ororo Monroe, mulher, negra, de cabelos brancos, ladra e bissexual.

Resgatamos duas Tempestades do saldão. Vimos apodrecerem penduradas no cabide da loja de brinquedos. Ninguém queria comprá-la: mulher, negra, velha (ela tinha os cabelos brancos) e destinada para meninos que curtem super-heróis. Esse é um mundo difícil, esse dos meninos que curtem super-heróis. Tanto para eles que são zoados por serem “entendidos”, quanto para as pessoas que querem entrar nele. Os newbies geeks são zoados, as mulheres nerds são idolatradas ou deixadas de lado porque esse tipo de entretenimento não foi feito para elas. Ou levam a fama de que só mulher feia e gorda é que gosta deste tipo de coisa. Mas o fato é que entretenimento, seja ele qual for, assim como o Sol, é feito para todos. Não importa o nicho, uma história sempre tem o poder de tocar as pessoas, e quanto mais diferentes forem as histórias que lemos, mais nossa visão de mundo é ampliada.

Quase duas décadas depois, a revista dos X-Men só com personagens femininas, de Brian Wood e Olivier Coipel, é uma das mais vendidas e mais bem recebidas pela crítica. Tempestade está nos cinemas, encarnada por uma chata, porém a primeira atriz negra vencedora do Oscar de Melhor Atriz. As garotas cada vez leem mais quadrinhos, cada vez se interessam mais a apresentar esse mundo para outras pessoas. Mais que os nerds “entendidos”, elas, sim, atraem novos públicos para as HQs. Elas já não pedem mais para seus namorados se desfazerem de suas coleções de quadrinhos por ciúmes – bem, algumas sim. Elas compartilham suas novas descobertas no mundo das HQs,  leem  e comentam as histórias com seus amados.

Sim, são outros tempos. Mas porque quando eu vou nas Lojas Americanas eu fico olhando com dó para aquele action figure da Supergirl, que eu vejo lá há anos, a única da sua coleção, de um desenho que já acabou fazem mais de cinco anos?

Este é um mundo de super-homens. Este é um mundo de homens. Esse é o mundo do homem. Mas não seria nada, nada mesmo, sem uma mulher ou uma garota. Sábias palavras, James Brown.

E a pergunta vinha: Eu sou neguinha?

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