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Superman e a Santíssima Trindade – O Filho, por Frank Miller

O Superman de Frank Miller (contracapa de Action Comics #400, de 1984)

O Superman de Frank Miller (contracapa de Action Comics #400, de 1984)

O Filho Pródigo não Torna à Casa. O Filho, por Frank Miller.

Publicada em Action Comics #400 (1984) e publicada por último no Brasil em Coleção Superman 70 Anos – As Grandes Aventuras do Superman (setembro de 2008).

Como já falei, Superman é um personagem difícil de ser trabalhado. Imaginem um homem que tem tudo, que pode tudo, que, virtualmente, pode saber de tudo. Talvez,  por essa razão, os roteiristas “pagãos” tenham uma facilidade maior em lidar com esse tipo de poder universal. Como Grant Morrison fez no seu memorável Grandes Astros: Superman. O fato é que Frank Miller é um católico fervoroso, e talvez essa seja sua kriptonita – ou se preferir, sua última tentação – no caso de ser incumbido de escrever uma história do Homem de Aço. A proximidade estraga qualquer análise, dizem os psicólogos. Muitos e muitos elementos católicos podem ser encontrados nas histórias de Frank Miller, principalmente nas do Demolidor. E o que dizer do nome da sua maior criação: SIN City? Até mesmo Ronin tem um tom messiânico. Mas é o mesmo que pedir para um evangélico: “Então vão lá, Silas Malafaia, Marco Feliciano, escrevam uma história sobre Deus!”.

É muito mais fácil contar histórias sobre o demônio do que histórias sobre Deus. Os evangelistas fizeram isso muito bem através da forma das parábolas de Jesus Cristo, metáforas, aforismos, analogias. Frank Miller também resolveu recorrer ao “protagonista ausente” na única e escassa história que escreveu para o Superman. Uma história sem título, de quatro páginas que se passa (quem diria?) num futuro distante. A história é co-roteirizada por Elliot S! Maggin, um dos mais memoráveis escritores do Superman, mas já se utiliza do estilo “televisores” que seria empregado dois anos depois em O Cavaleiro das Trevas, obra seminal de Miller. Em Eisner/Miller, um livro organizado por Charles Brownstein e editado pela Dark Horse Comics, Miller confessa que entrou no ramo dos quadrinhos por duas razões: “Uma delas é que todos os criadores de super-heróis que ele conhecia eram judeus; a segunda é que as histórias eram abarrotadas com o imaginário do Velho Testamento. Quero dizer, por favor, o bebê colocado em um foguete e enviado através do espaço…!”. E, Sr. Miller, mesmo assim, o senhor não conseguiu escrever sua própria história do Superman.

Em seu livro Nossos Deuses são Super-heróis, Christopher Knowles traça o seguinte panorama sobre a divindade do Superman: “Les Daniels comenta que Siegel ‘também deve ter percebido as analogias com Jesus’, lembrando que o Super-Homem era ‘um homem envido do céu por seu pai para usar seus poderes especiais pelo bem da humanidade’. Outros autores também perceberam essas caraterísticas crísticas e brincaram com elas ao desenvolverem personagem semelhantes. Kurt Busiek chamou sua versão do Super-Homem ‘o Samaritano’ em sua série Astro City. A revista de sátiras National Lampoon tinha  uma tira chamada Son O’God (Filho de Deus) que parodiava Jesus como herói semelhante ao Super-Homem, com capa vermelha e desenhos do astro da DC Comics Neal Adams”.

Kevin Costner, como Jonathan Kent, em O Homem de Aço, de Zack Snyder (2013), uma das melhores atuações do filme.

Kevin Costner, como Jonathan Kent, em O Homem de Aço, de Zack Snyder (2013), uma das melhores atuações do filme.

O filme do Homem de Aço de 2013 lida, e muito, com o aspecto filho do Superman. A influência dos pais para formar seu caráter, seja o pai terrestre ou o alienígena. O sacrifício de ambos para o bem da humanidade e a transformação do onipotente em alguém focado na humanidade. Essa é a mesma transformação que percebemos no Deus do Antigo Testamento e do Deus do Novo Testamento. Enquanto um é um ser acima dos outros, que castiga, é severo, talvez alguém que pensasse como o General Zod, seu segundo aspecto, benevolente, se faz carne para enfrentar o mundo como um de nós, misturando-se ao povo, espalhando que devemos cuidar do próximo como a nós mesmos. Quando o Deus se torna o filho, ele perde divindade e ganha humanidade, ganha mortalidade. E o mesmo acontece no filme. Apesar de não haver kriptonita, a fraqueza do Superman é exatamente fazer-se de humano, ser benevolente e importar-se com a humanidade.

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