Mês: agosto 2013

Mundo: um aparelho que funciona – Antes de Watchmen: Dr. Manhattan, de J. Michael Sctraczynski e Adam Hughes

O especial de retcon do Dr. Manhattan é um dos mais interessantes lançados até agora. Como toda aventura espaço-temporal, ele nos faz repensar Watchmen – só que não. A história toda é um grande “What If?”, começa com uma discussão a respeito do que tem dentro de uma caixa e as possibilidades do espectador de vê-la aberta e o conteúdo dela. Muito mais do que a caixa do gato de Schrödinger – história que qualquer um que assistiu The Big Bang Theory conhece – Jonathan Osterman, o Dr. Manhattan, está lidando com uma caixa um pouco mais conhecida: a de Pandora, que não deixa de ser, claro, a caixa do gato de Schrödinger. Assumir que existem múltiplas possibilidades e que cada escolha nossa gera um novo mundo é confinar a caixa de Pandora e a caixa de Schrödinger a um único invólucro: o corpo humano. Essa é a grande caixa da história: o corpo do Dr. Manhattan, capaz de dobrar tempo e espaço. A história começa quando Jon visita uma realidade em que acabou não …

Sobre Ben Affleck como Batman, por Mark Evanier e Sergio Aragonés

“(…) O primeiro Super-Homem que você viesse a conhecer seria o seu Super-Homem. É assim que você sempre irá ver o personagem. Você pode até gostar das outras versões. Você pode até achá-las melhor desenhadas ou mais interessante. Mas o primeiro Super-Homem você nunca esquece. (…) Acho que isso se aplica ao Batman também. Batman foi criado em 1939 por um homem chamado Bob Kane, que veio a falecer há alguns anos atrás. Um amigo dele, chamado Bill Finger, escreveu sua primeira história, bem como algumas das mais importantes dentre todas elas. E o Sr. Kane disse em sua autobiografia que ele sentia pelo Sr. Finger não ter recebido mais crédito pelo Batman. Kane desenhou por um tempo, mas um monte de outros artistas ajudaram-no no começo de tudo, e continuaram a desenhar quando Kane parou. Por alguma razão, todas as histórias eram assinadas por “Bob Kane” durante anos, como se fosse ele quem desenhasse todas elas. Mas na verdade, outras pessoas o faziam. Por um longo tempo. E alguns dos melhores que o desenharam …

O Desenvolvimento do Universo: Oceano, de Warren Ellis, Chris Sprouse e Karl Story

Dessa vez vou falar de pesquisa. Fazer pesquisa é um instrumento valioso para construção de universos, sejam eles baseados no fantástico ou no ultrarreal. Existe a pesquisa histórica, mas como fazer a busca por algo que ainda não aconteceu? Como pesquisar o futuro? Bem é isso que os cientistas fazem todos os dias, então, a resposta está aí: usando a ciência. Não por acaso existe o termo ficção científica, ou como as locadoras costumam generalizar, apenas “ficção”, sem se dar contar que todos aqueles filmes que eles têm em seu acervo também são ficção, exceto, talvez, pelos documentários, e olhe lá, porque até esses podem tem um pouco de irrealidade e criação. Mas bem, a ficção científica. Uma coisa difícil de realizar. Geralmente as histórias de ficção científica acabam sendo um disfarce para outras histórias: romance, horror, comédia. É fácil fazer uma ficção científica se você pensar um pouco. Substitua a mocinha por um robô, ou o amigo estranho por um monstro espacial. Mas se você pensar bem é muito difícil fazer uma ficção científica, …

O Som do Silêncio: o Justiceiro de Greg Rucka e Marco Chechetto

Através de momentos silenciosos é possível sentir mais de um personagem do que com diálogos. Esse é o mérito de uma boa direção. Mas no caso de uma HQ, a direção não depende apenas de um bom roteiro e de uma boa decupagem mas, sim de desenhos que transmitam todo o poder da cena que se desenvolve ao olhos do leitor. Esse é o caso do Justiceiro de Greg Rucka e Marco Chechetto. Um tempo atrás eu assisti Drive, dirigido e roteirizado por Nicolas Winding Refn. Antes, claro, tive o cuidado de ler o livro, visto os elogios rasgados que o filme teve, tanto pela crítica, quanto pelos meus amigos. O problema é que o livro, escrito por James Sallis, é confuso. Entremeia flashbacks com tempo presente, tornando os flashbacks mais interessantes que a história corrente. Já no filme, a história é linear. Não há recordatórios, narração em off, nada disso, apenas a história é colocada “em ordem”, com adição e subtração de alguns detalhes, com o a mudança no personagem de Brian Cranston. O …

My Friend Dahmer, de Derf Backderf (III)

Perspectiva Plana Agora chegou a vez de, depois de analisar o conteúdo, de My Friend Dahmer, de Derf Backderf, analisar a forma da Autobiografia de Ponto de Vista sobre a vida do serial killer que matou mais de quinze pessoas. É interessante notar os artifícios que o autor usou, intencionalmente ou não, para criar o clima visual da sua história sobre Dahmer. Vamos usar um pouco de Semiótica? Perspectiva Plana É engraçado que muitas das splash pages que Backderf usa na sua graphic novel utilizem esse recurso de mostrar algo em perspectiva como se formasse uma imagem só. Imaginem fotos, como na exposição Duschamp-Me, colocadas cada uma a uma distância, mas que se olharmos de longe e sob um ângulo determinados, elas formam uma imagem inteira. Imaginem também aquele desenhista de rua, que faz seus desenhos ultrarrealistas com giz na calçada, fazendo com que as fotos tornem-se tridimensionais se tiradas de longe e de um ângulo determinado. Assim também é a história de Dahmer, se vista de fora: algo plano, mais um seria killer entre …

My Friend Dahmer, de Derf Backderf (II)

A Jornada do Vilão Assim como Tiros em Columbine, My Friend Dahmer, de Derf Backderf, nos faz refletir a chamada “Jornada do Vilão”. Esse background do criminoso é uma coisa tão comum nos noticiários quando observamos os casos de assassinos em massa como o do atirador do cinema em Aurora, do matador de criancinhas na escola Sandy Hook, do massacre de Realengo, da chacina da Candelária, do médico que metralhou uma plateia no cinema de São Paulo. Se pararmos para traçar pontos em comum, vamos encontrar muitos além daqueles que rotulam os criminosos como “doentes mentais”, apelação da maioria dos assassinos em série ou em massa. Doença mental tem tratamento e, mesmo nos casos em que não há cura, existem paliativos. Mas existe um grande estigma sobre esse tipo de “avaria cerebral”, que levam as pessoas achar que estão se comportando normalmente e não procurar ajuda. Foi o caso de Dahmer. Além de viver uma adolescência nos anos 70, quando as drogas eram mais, digamos, permitidas. Dahmer vivia numa cidade pequena do interior e, durante …

My Friend Dahmer, de Derf Backderf (I)

My Friend Dahmer é uma graphic novel assustadora, impressionante, bombástica, real e atraente. Mas não é atraente da forma comum, mas sim, da forma que provoca os brios, da forma que nos arrepia e faz querer mais, como um passeio de montanha-russa ou no túnel do terror da vida real. Como assistir à um episódio de Law & Order: SVU ou a algum desses filmes de serial killers que pipocam por aí. Jeff Dahmer é um serial killer. Com mais de quinze vítimas em seu currículo, meticuloso e metódico, o criminoso só foi pego em Ohio quando um homem saiu correndo de seu apartamento, algemado e nu. Dahmer matava suas vítimas e mantinha relações sexuais com seus cadáveres. A graphic novel é contada do ponto de vista do autor, Backderf, que foi colega de Dahmer no ensino médio, onde o serial killer era mais um daqueles que não se encaixavam no cruel princípio de winners e losers do sistema educacional estadunidense. A diferença é que ele não estava nem aí para isso. Autobiografia x Biografia …

Quando lá tinha o muro…, de FLIX

Um dos tipos de história que mais gosto trata sobre o embate entre expectativa e frustração, imaginação e realidade. Quando lá tinha o muro…, de FLIX conta, através de histórias curtas, relatos de uma geração que viveu numa Alemanha dividida (entre os lados Oriental e Ocidental) durante a Guerra Fria e sobreviveu para contar. Contar como era a vida do lado em que moravam e como imaginavam ser a vida do outro lado do Muro de Berlim. Ou ainda, como eram as coisas enquanto existia uma nítida divisão de fronteiras e como é hoje, quando isso não ocorre mais. Tudo começou com a publicação, em novembro de 2006, de uma história curta e autobiográfica, de FLIX, no jornal berlinense Tagesspiegel. A HQ contava como ele se sentia a respeito da queda do muro de Berlim e, bem, tratava de tanques de guerra de brinquedo, coisa que, aliás, o autor nunca teve. A história teve tanto sucesso que o autor foi atrás de seus amigos, que viviam tanto do lado Capitalista ou Socialista da Alemanha, no …

Imagine a Marvel (opa, Stan Lee) criando a DC Comics

Uma análise das revistas Imagine DC Comics de Stan Lee que saíram aqui no Brasil no início da década passada. No início dos anos 2000, com o desligamento total de Stan Lee da Marvel Entertainment Group, logo depois da empresa pedir falência e quase deixar de existir, “O CARA” criou seu próprio universo de super-heróis para a web, a Stan Lee Media e, depois, a POW! Entertainment. Então, em 2001, a DC o convidou para reimaginar seu universo através da visão da Marvel (opa, de Stan Lee) na série Just Imagine Stan Lee Creating…, No Brasil, as revistas saíram no ano seguinte, apenas chamadas Imagine… de Stan Lee.  O resultado foi bem, hã, interessante na maioria dos casos. Mas há certos ícones que, por mais que se mexa, não se pode mudar sua essência. A não ser que se invente uma história totalmente nova.  Antes de analisar brevemente caso a caso, com alguns gráficos, gostaria de explicar os critérios. Roteiro e arte, todo mundo sabe o que é. Marvelismo é como os personagens ficaram semelhantes a …