Quando lá tinha o muro…, de FLIX

Quando lá tinha o muro..., de FLIX (Tinta Negra, 2012)
Quando lá tinha o muro…, de FLIX (Tinta Negra, 2012)

Um dos tipos de história que mais gosto trata sobre o embate entre expectativa e frustração, imaginação e realidade. Quando lá tinha o muro…, de FLIX conta, através de histórias curtas, relatos de uma geração que viveu numa Alemanha dividida (entre os lados Oriental e Ocidental) durante a Guerra Fria e sobreviveu para contar. Contar como era a vida do lado em que moravam e como imaginavam ser a vida do outro lado do Muro de Berlim. Ou ainda, como eram as coisas enquanto existia uma nítida divisão de fronteiras e como é hoje, quando isso não ocorre mais.

Tudo começou com a publicação, em novembro de 2006, de uma história curta e autobiográfica, de FLIX, no jornal berlinense Tagesspiegel. A HQ contava como ele se sentia a respeito da queda do muro de Berlim e, bem, tratava de tanques de guerra de brinquedo, coisa que, aliás, o autor nunca teve.

A história teve tanto sucesso que o autor foi atrás de seus amigos, que viviam tanto do lado Capitalista ou Socialista da Alemanha, no interior ou na própria Berlim (lembrando que a capital da RFA era Bönn), para contarem as suas histórias. Seguem-se, assim, mais 29 histórias, cada uma baseada num tom de paleta “monocromática”, que torna o livro ironicamente colorido. Irônicos também são os relatos, um humor triste, mas não um humor negro, que mostra como o ser humano acaba imaginando mais coisas sobre o desconhecido do que ele realmente pode abrigar.

Uma das histórias fala de um garoto que ia para a RDA apenas para visitar a Bisa no asilo. Lá, ele sempre encontrava velhinhos, as poucas crianças que havia eram visitantes. Então, ele concluiu que na RDA viviam apenas velhinhos. Quando o muro caiu, ele pensou que haveria uma invasão de velhinhos à RFA, mas acabou constatando, mais tarde, que na verdade o que houve foi uma invasão de garotas bonitas.

Em outra história, uma menina escuta na rádio que ela pode pedir a música que ela quiser. Liga para lá e pede “Me and Bobby McGee”, da Janis Joplin, ao que a atendente sugere a ela que peça uma música do SnaP!, que era “parecida”. Ela insiste na Janis e a atendente diz que só podem ser músicas do catálogo. A menina reclama que eles diziam que ela poderia escolher qualquer música, desliga o telefone e chega à conclusão de que aquela foi a experiência mais próxima do como achava que os orientais deviam sentir-se.

FLIX conta que uma de sua maiores inspirações foi Ralf König, que produz HQs sobre os contrastes e nuances entre o mundo hétero e homo. Não que a história de FLIX tenha alguma temática GLS, ainda que haja um personagem gay nos relatos (um dos mais melancólicos, inclusive). Mas podemos ver a influência de König tanto no estilo do desenho, quanto na ironia das histórias,

Mais que revelar um mundo de contrastes – seja no embate entre capitalismo e socialismo, mundo real e mundo imaginado, Ocidente e Oriente, novo e velho, monocromático e colorido – Quando lá tinha o muro… mostra a inconstância da vida e das opiniões. A obra de FLIX traz à tona a natureza incoerente do ser humano.

O relato de Moritz
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