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My Friend Dahmer, de Derf Backderf (I)

Detalhe da capa de My Friend Dahmer, de Derf Backderf.

Detalhe da capa de My Friend Dahmer, de Derf Backderf.

My Friend Dahmer é uma graphic novel assustadora, impressionante, bombástica, real e atraente. Mas não é atraente da forma comum, mas sim, da forma que provoca os brios, da forma que nos arrepia e faz querer mais, como um passeio de montanha-russa ou no túnel do terror da vida real. Como assistir à um episódio de Law & Order: SVU ou a algum desses filmes de serial killers que pipocam por aí.

Jeff Dahmer é um serial killer. Com mais de quinze vítimas em seu currículo, meticuloso e metódico, o criminoso só foi pego em Ohio quando um homem saiu correndo de seu apartamento, algemado e nu. Dahmer matava suas vítimas e mantinha relações sexuais com seus cadáveres. A graphic novel é contada do ponto de vista do autor, Backderf, que foi colega de Dahmer no ensino médio, onde o serial killer era mais um daqueles que não se encaixavam no cruel princípio de winners e losers do sistema educacional estadunidense. A diferença é que ele não estava nem aí para isso.

Autobiografia x Biografia x Semiautobiografia

O quadrinho original, a história curta que originou a graphic novel.

O quadrinho original, a história curta que originou a graphic novel.

Como já falei aqui, um gênero de HQs que tem se proliferado e conquistado o público adulto é a Biografia. Desde que Maus, de Art Spiegelman ganhou o Pulitzer tem sido assim, ou ainda muito antes, com as HQs undergrounds dos anos 60. Hoje, temos várias HQs premiadas que usam desse estratagema, como a autobiografia Retalhos, de Craig Thompson, ou Persépolis, de Marjane Satrapi. Mas há também o gênero Biografia, muito explorado por artistas como o alemão Reinhard Kleist que já biografou em quadrinhos Castro, Elvis e Cash. Por último, temos o gênero Semiautobiografia, que, como O Chinês Americano, de Gene Luen Yang, utilizam-se de experiências reais que os autores tiveram e aplicam em suas obras. Mas não seria toda obra uma semiautobigrafia? Todo autor não utiliza sua percepção de mundo, da sua vida e da vida dos outros pra compor uma história? Bem, essa é uma questão para outra hora. Vamos é (como todos gostam) falar da vida dos outros.

Existe um tipo de HQ Biográfica que se encaixa na autobiografia, mas é um disfarce. Não se trata de falar de si, de se olhar no espelho ou enfiar o dedo no umbigo. Trata-se de contar suas experiências enfocando outra pessoa. Eu chamaria de Autobiografia de Ponto de Vista. A Carol Bensimon questionou até onde isso era ético em sua coluna no Blog da Companhia das Letras, quando comentou Are You My Mother?, de Alison Bechdel. O mesmo ocorre com Epiléptico, no qual o autor David B. utiliza seu ponto de vista para expor a doença do irmão. E em Dahmer também temos esse abuso da moral. Fica evidente na HQ que o autor tornou-se popular graças à Dahmer. Ora. ele até tinha um Fã-Clube de Jeff Dahmer, apenas para zoar com garoto. Depois, suas HQs mais renomadas e cultuadas trataram do serial killer. Não apenas ele se utilizou da história do garoto problemático e antissocial, como o pai de Dahmer, que ele mal via, escreveu um livro que se tornou filme.

Um dos momentos mais destacados desta graphic novel é a pergunta de Backderf: “Onde estavam os adultos?”, perguntando como deixaram aquilo acontecer. E eu pergunto: “Onde estavam os adolescentes?”. Estavam rindo à custa de Dahmer, fazendo bullying.

Analisando psicologicamente, a maioria das obras ficcionais é uma forma de reparar a vida com histórias, seja a do autor ou a dos leitores, como bem nos apresenta Ian McEwan. Maus, Epiléptico, My Friend Dahmer e as obras de Bechdel são uma maneira de consertar as coisas. Voltar ao passado e fazer aquilo que deveriam ter feito, alertar os leitores caso algo semelhante ocorra com eles. Mesmo que o autor seja um espectador passivo da história, como na maioria delas ele o é. Se é ético utilizar a vida de outra pessoa em uma história sem a sua permissão eu não saberia dizer. Mas com certeza isso lhe confere uma grande moral.

CONTINUA… FALANDO SOBRE A JORNADA DO VILÃO…

3 comentários

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