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My Friend Dahmer, de Derf Backderf (II)

A Jornada do Vilão

Assim como Tiros em Columbine, My Friend Dahmer, de Derf Backderf, nos faz refletir a chamada “Jornada do Vilão”. Esse background do criminoso é uma coisa tão comum nos noticiários quando observamos os casos de assassinos em massa como o do atirador do cinema em Aurora, do matador de criancinhas na escola Sandy Hook, do massacre de Realengo, da chacina da Candelária, do médico que metralhou uma plateia no cinema de São Paulo. Se pararmos para traçar pontos em comum, vamos encontrar muitos além daqueles que rotulam os criminosos como “doentes mentais”, apelação da maioria dos assassinos em série ou em massa. Doença mental tem tratamento e, mesmo nos casos em que não há cura, existem paliativos. Mas existe um grande estigma sobre esse tipo de “avaria cerebral”, que levam as pessoas achar que estão se comportando normalmente e não procurar ajuda. Foi o caso de Dahmer.

O álcool era a muleta de Dahmer.

O álcool era a muleta de Dahmer.

Além de viver uma adolescência nos anos 70, quando as drogas eram mais, digamos, permitidas. Dahmer vivia numa cidade pequena do interior e, durante a puberdade, descobrira que tinha desejos pelo mesmo sexo. Mas como lidar com isso num contexto como aquele? Só lhe restava imaginar um corpo estendido sobre sua cama, imóvel, sobre o qual ele pudesse ter dominação total e que não pudesse contar o que fizeram juntos para mais ninguém. Isso mesmo: um cadáver.

Solidão

Solidão

Isso se tornou uma obsessão, Dahmer queria saber como eram as pessoas por dentro. E começou a dissecar pequenos animais. Começou com um feto de porco que encontrou no laboratório de biologia. Depois, passou a guardar animais mortos em potes de formol, depois, a destrinchar animais com faca, depois, com as mãos, depois, bem, depois foi a vez das pessoas. Dahmer finalmente poderia “expressar” sua sexualidade reprimida.

É grotesco, é aviltante, mas é compreensível se você observar a história de Dahmer. Se nas novelas e nos filmes de terror as pessoas conseguem esboçar certa simpatia pelo vilão da história, deve ser, porque, de alguma forma, elas se veem neles. Eles são uma espécie de catarse dos nossos instintos mais vis, assim como funciona o grotesco, como já falei numa série de posts anterior.

Dahmer cresceu isolado de tudo e de todos. Ele era um wallflower no colégio, a família e os professores não davam a menor bola para ele. Até que, de repente, ele estava em todos os jornais. Como uma Jornada do Herói totalmente distorcida, mas com direito a todos os estágios, conforme nos contam os capítulos e notas de fontes de Backderf. Se isso não é uma grande virada numa história pessoal, o que será?

CONTINUA… A FORMA DO CONTEÚDO…

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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