O Som do Silêncio: o Justiceiro de Greg Rucka e Marco Chechetto

Através de momentos silenciosos é possível sentir mais de um personagem do que com diálogos. Esse é o mérito de uma boa direção. Mas no caso de uma HQ, a direção não depende apenas de um bom roteiro e de uma boa decupagem mas, sim de desenhos que transmitam todo o poder da cena que se desenvolve ao olhos do leitor. Esse é o caso do Justiceiro de Greg Rucka e Marco Chechetto.

Cena do filme Drive, de Nicolas Winding Refn, com Ryan Gosling, baseado no livro de James Sallis
Cena do filme Drive, de Nicolas Winding Refn, com Ryan Gosling, baseado no livro de James Sallis

Um tempo atrás eu assisti Drive, dirigido e roteirizado por Nicolas Winding Refn. Antes, claro, tive o cuidado de ler o livro, visto os elogios rasgados que o filme teve, tanto pela crítica, quanto pelos meus amigos. O problema é que o livro, escrito por James Sallis, é confuso. Entremeia flashbacks com tempo presente, tornando os flashbacks mais interessantes que a história corrente. Já no filme, a história é linear. Não há recordatórios, narração em off, nada disso, apenas a história é colocada “em ordem”, com adição e subtração de alguns detalhes, com o a mudança no personagem de Brian Cranston. O que faz o filme mexer com o espectador são os momento silenciosos. Não são lindas paisagens fotográficas como poderia fazer Terrence Malick, mas a tensão entre os personagens, calados, olhando um para o outro, expressando pesar, amor, desejo, ódio.

Mas e numa HQ, em que a narrativa é fragmentada e que talvez os momentos de silêncio não sejam fruídos pelo leitor da mesma maneira que um espectador em um cinema, como esse recurso pode ser transportado da sétima para a nona arte? Rucka e Chechetto têm a resposta.

Uma das primeiras páginas de Punisher #1, de Greg Rucka e Marco Checheto: Silêncio.
Uma das primeiras páginas de Punisher #1, de Greg Rucka e Marco Checheto: Silêncio.

Na primeira edição de Justiceiro eles usam esse recurso. Na maior parte deste primeiro arco de histórias, publicado mês passado pela Panini, os momentos de violência, o uso de armas, são mostrados na transição aspecto para aspecto, ainda que em ordem cronológica. Não há onomatopeias nem recordatórios para contar um massacre durante um casamento e também não o há quando o Justiceiro aplica sua “lei”. Em seguida, temos uma história de dois policiais conversando, mas que lembra muito mais um storyboard do que uma HQ. Os diálogos são colocados no espaço entre os quadros, a sarjeta, e, enquanto isso, uma história paralela é contada. Dois bons exemplos de uso inteligente dos recursos de uma história em quadrinhos.

Justiceiro #1 (julho/2013, Panini Comics). 148 Páginas, R$ 18,90
Justiceiro #1 (julho/2013, Panini Comics). 148 Páginas, R$ 18,90

Nas histórias que seguem, pouco vemos do Justiceiro, tornando o herói anda mais monossilábico do que de costume, grunhindo apenas poucas palavras, o que enriquece a história são os coadjuvantes que Rucka e Chechetto inserem na trama, como a repórter do Clarim Diário, Norah Winters, do universo de personagens do Homem-Aranha. Cabe aqui dizer que neste encadernado também são apresentadas uma história curta do Justiceiro, com participação da Viúva Negra e do Demolidor, e também sua primeira aparição, que se deu na revista Amazing Spider-Man #129, por Gerry Conway e Ross Andru.

Como disse antes, o Justiceiro é um dos personagens da Marvel que menos gosto, mas ele pode render boas histórias, devido ao seu conflito interno. Em tempos que produziriam uma edição revisada e ampliada de Vigiar e Punir, de Michel Foucault, eu fico imaginando como o Justiceiro reagiria em meio aos movimentos sociais. De que lado ele ficaria? A quem ele puniria? Será que seu conflito interno não seria muito maior? Pois o conflito interno do Justiceiro está aí, exteriorizado nas ruas. E, em sua visão turva, quem seriam os culpados e os inocentes? A quem ele teria que levar a sua “justiça”? Em que bases éticas e morais se basearia o Justiceiro num mundo cada vez mais cheio de 50 tons de cinza? A resposta fica no som do silêncio.

"Um sistema penal deve ser concebido como um instrumento para gerir diferencialmente as ilegalidades, não para suprimi-las a todas" - Michael Foucault
“Um sistema penal deve ser concebido como um instrumento para gerir diferencialmente as ilegalidades, não para suprimi-las a todas” – Michael Foucault
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