Mês: setembro 2013

Vou contar tudo para sua mãe: A Arte – Conversas Imaginárias com Minha Mãe, de Juanjo Sáez.

Durante a faculdade de publicidade me ensinaram: mostra o anúncio que você criou para sua mãe. Se ela entender, é porque ele funciona. Se ela não entender você precisa trabalhar mais. No jornalismo, aprendemos a existência de uma personagem, a “Dona Maria”, ou seja, a leitora comum do jornal, alguém que não é instruído, que não entende como as coisas “do mundo” funcionam, que não está ligada às tendências, que não entende de arte e não está por dentro do mundo pop. Alguém a quem as notícias devem ser deglutidas para que possa se interessar e entendê-las. A proposta do livro A Arte – Conversas Imaginárias com Minha Mãe, de Juanjo Sáez é parecida com a da publicidade e do jornalismo: fazer com que as “pessoas comuns” entendam a arte. É muito comum eu me deparar com pessoas que não entendem a “arte contemporânea”. Eu, por outro lado, sempre gostei. Mas a minha maneira de apreciar a arte contemporânea é diferente: dificilmente eu leio os significados das obras nas legendas. Eu as aprecio. Se elas …

Sua arma mortal é a simplicidade: Invencível, de Robert Kirkman

Robert Kirkman foi responsável por uma revitalização da indústria de quadrinhos assim que sua série The Waking Dead começou a sair nos EUA. Quando os quadrinhos se transformaram  em série para a televisão, as vendas foram estratosféricas, atingindo patamares não vistos desde a década de 90. Mas não vou falar de Walking Dead aqui, embora ela “peque” pelo mesmos “deslizes” que a série em questão, que veio um pouco antes dos mortos-vivos. Estou falando de Invencível. Assim como Kurt Busiek fala na introdução do primeiro volume, eu custei a ler a série do super-herói de Kirkman, mas, quando engatei, não quis parar. Kirkman tem esse dom de envolver o leitor nas suas tramas, e ele não faz isso usando subterfúgios como o sensacionalismo ou a violência gratuita. Sua arma mortal é a simplicidade. Isso pode ser explicado se formos buscar as referências de Kirkman. Muitas vezes se fala que o autor é ardoroso fã de quadrinhos, assim como Busiek, porém representante nato de outra geração.  Uma geração que nos trouxe Brian Michael Bendis e seu …

A eternidade está catatônica: representações recorrentes na obra de Jim Starlin

Mais conhecido como o criador do personagem Thanos, Jim Starlin também é renomado por suas space operas no universo de quadrinhos de super-heróis, redefinindo o conceito de sagas cósmicas. Além de desenvolver grandes arcos de histórias e de ter trabalhado com praticamente todos os super-heróis da Marvel e da DC, Starlin também é dono de características próprias, que definem suas obras. Uma de suas maiores criações independentes, Dreadstar, é um de seus melhores trabalhos. Através de Dreadstar, – que foi publicado primeiro pela Epic (Marvel), depois pela First e compilado pela Dynamite – podemos visualizar toda sua temática e narrativa visual. Então vamos falar de alguns desses elementos mais utilizados por Starlin. Em itens!!! 1. ASPECTOS EM UMA PÁGINA Assim como Neil Gaiman, Starlin trabalha muito com conceitos, mas, diferente do inglês, Starlin lida, vamos dizer, “de frente”, com eles. Há uma encarnação da morte e há uma encarnação da eternidade. Temas religiosos, como suicídio, morte e ressurreição (Starlin teve educação católica) se mesclam com temas “cósmicos”, como o caos, a ordem, a eternidade e …

A Internet é a Zona Fantasma, por Grant Morrison

“Em um e-mail recente para Mark Waid, eu estava reclamando e resmungando a respeito do conceito de “padronização”e comentei que isso era uma coisa que, particularmente, me incomodava bastante naquele dia. Nós dois tínhamos lido o mesmo, e um tanto quanto desanimador, artigo na revista New Scientist, onde se explicava que, a partir do momento que um dado grupo de pessoas passa a categorizar você de acordo com um ou outro modelo apropriado, torna-se praticamente impossível se livrar do rótulo, mesmo trabalhando de um jeito diferente. Para mim, isso simplesmente confirmava a terrível suspeita de que, por mais que eu tentasse criar enredos à prova de falhas, ou por mais bem estruturadas que as minhas narrativas ficassem, ou por mais que eu organizasse convencionalmente as minhas ideias, eu sempre seria considerado nos círculos dos fãs de quadrinhos como um frenético fornecedor de sandices imprevisíveis. Eu vi futuras gerações coçando as suas cabeças ,por causa do palavreado na minha lápide coberta de vegetação, considerando “incompreensível” o singelo nome da singela alma sob o solo. (…) Aquelas …

As mulheres de Guido Crepax, por Marco Giovannini

“As histórias de Crepax, na verdade, têm vários níveis de leitura. Um crítico bissexto de quadrinhos, o diretor de cinema Alain Resnais, afirmou: “Seguidamente, é necessário tomar uma página de Crepax e ler várias vezes para captar certos detalhes”. E tem razão. O primeiro nível de leitura, o mas simples, é aquele tradicional da leitura dos quadrinhos. A  vinheta, o diálogo, o balão, o rumor. E assim por diante. Até completar a história. É o mais simples e, é quese diga, o menos interessante em Crepax: ele, de fato, como narrador puro e simples, como criador de histórias de aventuras, não é o melhor autor de quadrinhos italiano e nem está entre os melhores. Existe um abismo entre os desenhos, sempre impecáveis, perfeitos, minuciosos, e os nexos, as relações, os movimentos da história que, “aventurosamente” falando, são simples demais ou, até mesmo, inexiostentes. E isso criou muitas discussões envolvendo leitores de Linus e também alguns críticos famosos como o espanhol Román Gubern (autor de um ensaio findamental “Il linguaggio dei comics”, Milano Libri). Falou-se muito …

Biografia Irreal: Dora, de Ignacio Minaverry

Não muito diferente das biografias e autobiografias em quadrinhos, em Dora, de Ignacio Minaverry, temos a impressão de nos deparar com um personagem que realmente existiu, embora sua história seja inteiramente ficcionalizada. Dora é a personagem principal da história em quadrinhos argentina homônima. O álbum faz parte da Coleção Fierro, lançada pela Zarabatana Books, trazendo as séries completas publicadas na revista Fierro original da terra dos portenhos. Dora é uma espiã e sua história viaja por países como a Argentina, a Argélia, a França e a Alemanha, participando de importantes movimentos sociais da história destas nações. Como uma história de espionagem, ela bebe em fontes pré e pós 007, com direito a traquitanas de escuta, gravação e transmissão de informações. Em certa parte da HQ Dora declara que a espionagem é algo “como caçar fantasmas com uma rede para borboletas”. Essas imagens textuais não ficam apenas nas combinações de figuras e diálogo. Há força quando temos apenas texto aparentemente fora da história – em placas, sinais, pichações, publicidade, documentos, todos desenvolvidos com apuro histórico –, …