Citações, quadrinhos
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As mulheres de Guido Crepax, por Marco Giovannini

“As histórias de Crepax, na verdade, têm vários níveis de leitura. Um crítico bissexto de quadrinhos, o diretor de cinema Alain Resnais, afirmou: “Seguidamente, é necessário tomar uma página de Crepax e ler várias vezes para captar certos detalhes”.

E tem razão.

As história de Crepax têm vários níveis de leitura.

As histórias de Crepax têm vários níveis de leitura.

O primeiro nível de leitura, o mas simples, é aquele tradicional da leitura dos quadrinhos. A  vinheta, o diálogo, o balão, o rumor. E assim por diante. Até completar a história. É o mais simples e, é quese diga, o menos interessante em Crepax: ele, de fato, como narrador puro e simples, como criador de histórias de aventuras, não é o melhor autor de quadrinhos italiano e nem está entre os melhores. Existe um abismo entre os desenhos, sempre impecáveis, perfeitos, minuciosos, e os nexos, as relações, os movimentos da história que, “aventurosamente” falando, são simples demais ou, até mesmo, inexiostentes. E isso criou muitas discussões envolvendo leitores de Linus e também alguns críticos famosos como o espanhol Román Gubern (autor de um ensaio findamental “Il linguaggio dei comics”, Milano Libri). Falou-se muito do “caráter descritivo” (isto é, de análise espacial) em detrimento de uma linha narrativa, a propósito de muitas páginas de Crepax. Mas este, exatamente, um primeiro nível de leitura.

O segundo nível de leitura em Crepax, seguindo o conselho de Resnais, revela sutilezas saborosas e chega a ser uma “história dentro da história”: o penteado Vergotini, as botas que há dez anos eram de Courrégese hoje são de Satini e Dominici, as poltronas de Thonet, a escrivaninha de Van de Velde, a lombada de livros existentes nas estantes que trazem impressos Marx, Trotski, Freud, Poe.

"Valentina sou eu!"

“Valentina sou eu!”

Não por acaso que Maurizio Fagiolo dell’Arco, um crítico de arte dos mais preparados, juntando outras citações cultas (Ronchamp, Mendelsohn, Klein, Ernst, Mondrian, Magritte), deixou escapar um elogia a Crepax que, considerando o meio e a erudição que sempre cercaram dell’Arco, não deixa de ser surpreendente: “Crepax faz umpreciso discurso analítico sobre seu meio (os quadrinhos): um discurso sobre a linguagem da comunicação, conduzindo com os mesmos ‘instrumentos do comunicar’ (McLuhan ensina). Aí está por que o comparam com alguns jovens artistas como Giulio Paolini ou outros como De Chirico que fazem a mesma operação autoanalítica. O que entendo por análise dos quadrinhos? Crepax começa por redesenhar (além de tudo, é formado em arquitetura) a planta d página dupla que aparece ao nossos olhos, faz transposições com linguagem fotográfica, cita com nonchalance os ‘clássicos’ do gênero (Krazy Kat, Dick Tracy…) inclui imagens da pintura e arquitetura, altera as estruturas do quadrinho (a imagem que se torna quadrinho numa outra, um blow-up sobre a sucessão temporal, o positivo-negativo…) até decretar a síntese na página que se torna acumulação (coito) de strips”.

E aqui, também por via da linguagem, estamos em pleno terceiro nível de leitura, e talvez além. Porque atrás da esquina estão operando Freud, Sade, Sacher-Masoch e Krafft-Ebing.

Crepax já disse mais de uma vez: “Sou um erotômano, digamos, puro. Não me sinto de todo adulto do ponto de vista sexual. Ou pelo menos: nunca tive simpatia pelo puro ato sexual destinado simplesmente à priocriação. A minha fantasia corre sempre em direções diversas, mais complexas”. Contrariamente ao que poderia parecer a partir de um exame do seu trabalho, ele jamais foi um psicanalista. A ideia o assusta, e ele a coloca ao lado de outros medos clássicos que o atormentam: as viagens, as doenças, a morte, as mulheres… A sua psicanálise é o trabalaho, são as histórias que desenha. Como Gustave Flaubert com Madame Bovary, não hesita em declarar: “Valentina sou eu””.

Marco Giovannini é jornalista e crítico italiano. Este texto foi publicado como apresentação de “A História de ‘O’, de Guido Crepax (L&PM, 2013).

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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