A Internet é a Zona Fantasma, por Grant Morrison

"E, tecnicamente, isto é um projetor da zona fantasma!" - "Aaaaaa!" - "Amaldiçoado seja, Superman!"
“E, tecnicamente, isto é um projetor da zona fantasma!” – “Aaaaaahh!” – “Amaldiçoado seja, Superman!”

“Em um e-mail recente para Mark Waid, eu estava reclamando e resmungando a respeito do conceito de “padronização”e comentei que isso era uma coisa que, particularmente, me incomodava bastante naquele dia. Nós dois tínhamos lido o mesmo, e um tanto quanto desanimador, artigo na revista New Scientist, onde se explicava que, a partir do momento que um dado grupo de pessoas passa a categorizar você de acordo com um ou outro modelo apropriado, torna-se praticamente impossível se livrar do rótulo, mesmo trabalhando de um jeito diferente.

Para mim, isso simplesmente confirmava a terrível suspeita de que, por mais que eu tentasse criar enredos à prova de falhas, ou por mais bem estruturadas que as minhas narrativas ficassem, ou por mais que eu organizasse convencionalmente as minhas ideias, eu sempre seria considerado nos círculos dos fãs de quadrinhos como um frenético fornecedor de sandices imprevisíveis. Eu vi futuras gerações coçando as suas cabeças ,por causa do palavreado na minha lápide coberta de vegetação, considerando “incompreensível” o singelo nome da singela alma sob o solo.

(…)

Aquelas conversas em torno da New Scientist nasceram de uma discussão sobre os efeitos corrosivos das críticas impiedosas na Inetrnet em relação à autoestima do ser humano. Waid soltou uma piada que dizia que a Internet era como o “Projetor da Zona Fantasma” e pareceu-me uma comparação assustadoramente adequada. O Artefato kryptoniano era a janela do Superman para a Zona Fantasma, uma dimensão nebulosa cheia a de homicidas, assassinos em massa, criminosos de guerra e homens loucos incorpóreos, onde os maiores fascínoras do planeta Krypton viviam em exílio permanente num infernos insubstancial. O projetor da Zona Fantasma era a linha direta do Superman com uma sarcástica multidão de fantasmas que não tinham nada melhor para fazer além de insultar, provocar e ameaçar o Homem de Aço por toda a eternidade.

Em Imperdoável, Mark [Waid] imagina um super-homem que passou horas demais em frente da tela do projetor da Zona Fantasma. O Plutoniano é um personagem cujo coração foi envenenado, cuja crença na bondade essencial da natureza humana se desfez em fiapos graças às doses homeopáticas de insinuação, desprezo e crítica. O que pode acontecer a um super-herói que não consegue deixar de ouvir o quão ele é odiado e ridicularizado pelas pessoas ao seu redor? E qual seria o resultado se tantas inimizades, invejas e mentiras finalmente destruíssem sua alma?”.

Grant Morrison, Glasgow, Escócia, março de 2009, no Posfácio de Imperdoável, de Mark Waid e Peter Krause (Devir, 2013). Tradução de Marquito Maia.

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