Durante a faculdade de publicidade me ensinaram: mostra o anúncio que você criou para sua mãe. Se ela entender, é porque ele funciona. Se ela não entender você precisa trabalhar mais. No jornalismo, aprendemos a existência de uma personagem, a “Dona Maria”, ou seja, a leitora comum do jornal, alguém que não é instruído, que não entende como as coisas “do mundo” funcionam, que não está ligada às tendências, que não entende de arte e não está por dentro do mundo pop. Alguém a quem as notícias devem ser deglutidas para que possa se interessar e entendê-las. A proposta do livro A Arte – Conversas Imaginárias com Minha Mãe, de Juanjo Sáez é parecida com a da publicidade e do jornalismo: fazer com que as “pessoas comuns” entendam a arte.
É muito comum eu me deparar com pessoas que não entendem a “arte contemporânea”. Eu, por outro lado, sempre gostei. Mas a minha maneira de apreciar a arte contemporânea é diferente: dificilmente eu leio os significados das obras nas legendas. Eu as aprecio. Se elas me fazem sorrir, eu continuo apreciando. Se não gosto, passo para a próxima. Pra mim, é a sensação que elas passam que importa. Assim como a lula gigante pintada de preto estendida no chão do Santander Cultural, ou a máquina de espuma que forma cilindros na Usina do Gasômetro, ou as caixas encaixadas em caixas, formado uma quase ilusão de ótica no MARGS. Isso para ficar só nas obras de que mais gostei na Bienal do Mercosul.
A graphic novel de Sáez utiliza da estética que ele chama de “arte naïf”, muito utilizada nos quadrinhos contemporâneos, principalmente os biográficos, como Persépolis ou Adeus, Tristeza. Segundo ele: “Nelas podia-se apreciar o talento inato que o homem tem para a arte. Agora essas qualidades estão mais escondidas por preconceitos e coisas erradas aprendidas ao longo da nossa vida. Muitas vezes tenho a sensação de que para chegar a um bom trabalho artístico mais do que aprender é preciso desaprender e libertar essa parte inata e selvagem do homem. A natureza, a pureza e o selvagem nos dão medo. Por causa de sua natureza imprevisível achamos que vão contra a civilização”. Por isso, quando as pessoas olham para o desenho de Marjane ou de Yang, têm a impressão de que elas poderiam ter feito aquilo, ou ainda, que qualquer criança de seis anos poderia ter feito aquilo da mesma maneira ou melhor, por causa da naïveté de seus desenhos. O mesmo acontece quando elas se deparam com obras de “arte contemporânea”. A simplicidade também assusta as pessoas porque é genial ter pensado naquilo antes delas, como a reação de Juanjo ao Clipe de Legos do White Stripes, Fell in Love With a Girl, dirigido por Michel Gondry.
Para aumentar a sensação de naïveté, em seu livro, Juanjo não desenha rostos para seus personagens. O corpo de texto é sua caligrafia e há erros de escrita, rabiscos, como a carta que o gêmeos de Reparação, de Ian McEwan, escrevem. Esse é um dos propósitos da arte: causar estranheza. Imagine um livro cujo propósito é esclarecer alguém, mas está lotado de erros.
A graphic novel, por outro lado, tem essa linguagem jornalística, de estar explicando “A Arte” para a Dona Maria, que no caso vem a ser a própria mãe. É algo próximo do documental, na medida em que apresenta fatias do mundo da arte e tenta explicá-las ao “leitor comum”, com os extras dos depoimentos da mãe. Uma das partes mais emocionantes é quando Juanjo compara a receita do arroz de leite com a criação de uma obra de arte: um propósito para o arroz que os outros nunca pensaram antes. Assim como a sua mãe quer se sentir querida pelos pratos que faz na cozinha e quer se sentir elogiada pelos filhos quando faz quitutes deliciosos, Juanjo compara ao trabalho do artista, que quer ser visto e reconhecido.
Outras comparações são da Escola de Arte com a Escola Xavier para Jovens Superdotados e dos “happenings” comparados com a mística envolvendo o Coelho da Páscoa e o Papai Noel, ou os Reis Magos, na Espanha: é como um tratado, um compromisso estabelecido entre as pessoas para que aquele evento aconteça. Para manter a magia da infância, os adultos assinam um acordo entre eles de que é preciso mentir para as crianças. Isso é um “happening”.
Então, para Juanjo, para que serve a Arte? “Essa história de que a arte é isenta de função é mentira. Toda obra de arte tem que colocar um problema (seja que tipo for) e tem que, pelo menos tentar dar alguma resposta, tem que revelar alguma coisa, a qualidade da obra de arte depende tanto da qualidade que se questiona como da qualidade das respostas que nos dá” (SIC, com erros de pontuação). IMHO isso vale para todas as artes, não só as instalações, as telas, mas para o teatro, o cinema, os quadrinhos, a dança e os “happenings”. Não é só tirar a roupa, tem que mostrar algo. Até a publicidade já assumiu esse status de arte, então o que temos a perder se a dignidade já está perdida? Damos a cara à tapa.

A Arte: Conversas Imaginárias com Minha Mãe, de Juanjo Sáez (2013, WMF Martis Fontes, 266 pgs, R$ 48,00)
Por que fazer arte, então, Juanjo? “As vezes me pergunto por que me dedico a desenhar e por que tenho interesse em difundir meu trabalho… o porquê de fazer livros, o anseio de que todos o possam ler, ir além do meu entorno, ser conhecido e respeitado. Suponho que seja como a torta de maçã, da minha mãe, em grande escala. Às vezes acho que é um ato para ser querido em profusão pela humanidade! Acho que herdei esse comportamento da minha mãe…”. O jornalismo, a literatura, a publicidade, a arte e, ah, a psicanálise, subestimam o poder das mães e das Donas Marias.
Para quem não viu: Eu também posso fazer uma coisa assim, Entonces, coño, ¿por qué no lo haces?
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Gosto muito desse quadrinho! Inclusive fiz um trabalho para a faculdade de Publicidade e Propaganda da disciplina História da Arte comparando com o livro cânone a História da Arte, de Gombrich. Vale notar que ele passa uma gama de conhecimentos através de uma traço simples, cartunesco. Incrível, mesmo! Ah, o seu site é excelente e fonte de inspiração (procuro fazer analogias das disciplinas da faculdade com o universo da cultura pop). Abraços!
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Valeu, Carlos! Li o livro do Gombrich quase todo e é realmente um cânone e um tratado! Obrigado pelos elogios e bom saber que o blog tem ajudado! Não deixe de comentar sempre que der vontade! Abraços! =)
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