quadrinhos, Resenhas
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Entrevista com Mário César Oliveira, autor de EntreQuadros

Mário César, autor de Entrequadros.

Mário César, autor de Entrequadros.

“Para quem não conhece o meu trabalho, eu já fui colaborador e um dos editores da Front, uma antologia que revelou grandes nomes do quadrinho brasileiro e sou um dos desenhistas e coeditor de Pequenos Heróis, um projeto criado pelo Estevão Ribeiro que homenageia diversos super-heróis e que já foi publicado nos EUA. Eu também sou o criador de EntreQuadros, uma série de quadrinhos em que eu busco retratar, com a devida licença poética, essa coisa complicada chamada vida”. – Mário César se apresentando no site de apoio do Ciranda da Solidão no Catarse.me.

Depois de ter resenhado os quatro álbuns que Mário lançou sob o título Entrequadros (aqui), agora é a vez de conversar um pouco com o autor para conhecermos mais o que ele pensa sobre seus trabalhos, suas influência e refênrecnias e também seu relacionamento com o mundo LGBT, tem de sua última HQ.

Splash Pages: Lendo um volume do EntreQuadros atrás do outro podemos perceber uma evolução. Tanto no texto, quanto nos desenhos, na experimentação e na forma narrativa. Por que você decidiu fazer o EntreQuadros e como ele evoluiu, sob a sua ótica, desde então?

Mário César: A EntreQuadros nasceu da necessidade de eu ter uma série própria, de eu ter um espaço pra publicar meu trabalho autoral. Precisava disso quanto larguei meu trabalho como editor para me aventurar como autor. Antes dela só tinha publicado em antologias como a Front ou em meu site. A primeira edição foi uma compilação de material de gaveta, coisas que tinha feito, mas não haviam sido publicadas ainda. Acabou saindo sem muita unidade, mas foi um bom pontapé inicial pra mim. Na segunda edição resolvi focar nas histórias mais intimistas e achei meu caminho. A terceira foi meu primeiro trabalho mais extenso, uma graphic novel propriamente dita. Nessa edição agora eu senti que adquiri a maturidade e segurança pra poder tocar nessa temática da homossexualidade. Isso viria uma hora ou outra pra mim. É tudo parte de uma evolução natural. Desenho, texto, narrativa, tudo vai melhorando com a prática. Nenhum autor nasce pronto, todo mundo tem que aprimorar suas habilidades com a prática. E mesmo aqueles que já ‘chegam chegando’em sua estreia estudaram muito antes de serem publicados e tem que se desafiar constatemente pra não perder o viço e a honestidade do trabalho.

SP: Você cita X-Men e Love & Rockets como HQs favoritas. Quais são suas influências nos quadrinhos, sejam eles personagens, histórias ou artistas/roteiristas?

MC: Além dos X-men e do Love & Rockets, outras influências de quadrinhos são de nomes como o Will Eisner, Neil Gaiman, Craig Thompson, Chris Ware, David Mazzucheli, Laerte, Alison Bechdel, Paco Roca, Daniel Clowes, Brian Wood, Jeff Smith, Terry Moore, Paul Pope, Adrien Tomine, Alex Robinson, Art Spiegelman, Marjorie Satrapi, Brian Michael Bendis, Fábio Moon e Gabriel Bá. De cada um eu assimilo alguma coisa. Mais recentemente, duas HQs que me ampliaram ainda mais a visão sobre as possibilidades que a linguagem dos quadrinhos oferece foram o Building Stories e o Asterios Polyp. São duas obras que elevam os quadrinhos a um novo e excitante patamar. Quiçá um dia eu chego nesse patamar também. Mas eu não gosto de limitar minhas influências aos quadrinhos, procuro me abastecer de cinema, literatura, teatro, música e o que mais vier pela frente.

Página de Entrequadros - Ciranda da Solidão

Página de Entrequadros – Ciranda da Solidão

SP: O segundo volume de EntreQuadros, A Walk on The Wild Side e Wake Up é um trabalho de adaptação de contos de outros autores. Como você realizou o processo de adaptação dos contos? Chegou a consultar os autores ou resolveu dar uma visão totalmente sua?

MC: A Walk on the wild side, foi um processo misto de adaptação com criação. Gosto muito do conto original do Pedro Cirne, mas na hora de adaptar surgiram novas ideias e tudo foi se transformando em uma outra história. O Pedro viu o resultado final e gostou bastante. Já o primeiro conto, Wake Up, foi uma adaptação mais direta do conto do Nick Farewell. Eu pedi permissão pra ele e o Nick confiou em mim. Não mudei nada da história original, só fiz a quadrinização toda sozinho. Ele também só viu o resultado final e aprovou. Estamos fazendo um outro trabalho juntos agora. Nesse a colaboração dele é maior, ele dá ideia de imagens, enquadramentos etc. Às vezes os egos se inflam e a gente discute, mas é sempre visando a qualidade final e acabamos nos entendendo. Este é um trabalho mais extenso, vai demorar um pouco ainda pra sair.

SP: Você tem uma familiaridade com a cultura alternativa de São Paulo. Isso podemos perceber em suas referências no EntreQuadros – Círculo Completo. A música parece ser uma constante em seus trabalhos. Como ela interfere em seu processo criativo?

MC: A música é minha parceira no processo solitário de criação. Às vezes funciona como musa inspiradora na criação. Outras vezes me ajuda a entrar no clima e achar o tom ideal para uma cena. Às vezes imagino as coisas como fossem cenas de cinema e fico pensando qual seria a trilha sonora. Na Círculo Completo tem muito disso. Tem muita cena com ‘trilha sonora’ de fundo onde as letras das músicas potencilizam a imagem. Quando tenho que criar algum personagem também posso me basear em algum artista. As duas protagonistas femininas de Círculo Completo, por exemplo, são inspiradas nas cantoras Céu e Thalma de Freitas. Queria as personagens tivessem as qualidades que essas artistas tem. Ver cantores perfomarem ao vivo também pode me dar ideias e aumenta meu repertório de poses, figurinos e expressões. Tudo é matéria-prima pro meu trabalho.

SP: Nos seus trabalhos, enxergo dois grandes temas: o envelhecimento e os relacionamentos, duas coisas inevitáveis para os seres humanos, mas há também morte e sexo, que são o ápice dessas relações. Como trabalhar esses temas sem cair no apelativo?

MC: É só ser manter a honestidade no trabalho. Parece simples, mas não é. Eu só gosto de incluir cenas de beijo, sexo ou morte se realmente fizer sentido. Não gosto que entrem se forem uma solução preguiçosa de roteiro ou pura e simplesmente pra chamar a atenção. É muito fácil cair nessa tentação, pois sexo vende, romance barato vende, dramalhão vende, controvérsia vende e visões simplistas são as melhores para se vender. Basta conferir as listas de mais vendidos ou campeõs de bilheteria, a maioria se enquadra nestes quesitos. Nos quadrinhos de super-herói mesmo quantas mortes desnecessárias já aconteceram só para os personagens voltarem algum tempo depois? Sempre chama a atenção, provoca rebuliço na mídia e entre os fãs e isso aumenta as vendas, mas pra mim essa estratégia já deu no saco. Felizmente sempre há materiais que fogem disso, mas são sempre em menor número. A vida é multifacetada e, por isso mesmo, fascinante. Busco transpor essa complexidade pro meu trabalho. Pode vender menos, mas é muito mais instigante. É o que me interessa tanto como autor como leitor.

Página de Entrequadros - Ciranda da Solidão

Página de Entrequadros – Ciranda da Solidão

SP: O que o Freud ou o Freuderico diriam se lessem suas obras?

MC: Freud provavelmente diria que eu sofro de algum disturbio mental. Já o Freuderico ia querer cobrar os direitos autorais pela biografia não autorizada e eu ia rir da cara dele por achar que eu tenha ficado rico com isso.

SP: Você cita bastante a Lady Gaga… Quais são suas referências da cultura GLS e como você as utilizou nos quadrinhos? Há algum quadrinho gay que você curte, fora Love & Rockets?

Cito, mas não gosto muito da Lady Gaga. Daqui a pouco me aparece algum Little Monster enfurecido pelo que o personagem fala dela. rs

Tive contato um pouco tardio com universo GLS, não tive amigos gays quando era adolescente. Só quando me mudei para São Paulo é que desbravei mais por este universo de boates, bate-cabelo, travestis, ativas, passivas, pajubá, salas de chat, sites de relacionamento e etc. Tudo que eu vivencio acaba refletindo em minha obra. E percebo que para os gays, disputa de divas pop é o equivalente ao futebol para os héteros. Eu sou #teamMadonna e #teamAguilera antes que alguém pergunte.

Quanto aos quadrinhos gays, não sei se dá pra categorizar o Love & Rockets como quadrinho gay. O Gilbert Hernandez inclui a homossexualidade em suas histórias com uma naturalidade incrível, mas não chega a ser a temática central. Ele simplesmente fala de qualquer assunto, por mais espinhoso que seja, como se estivesse escovando os dentes. É uma característica admirável no trabalho do Gilbert. Além dele, eu gosto muito da sensibilidade da Alison Bechdel e do humor rasgado e ácido do Ralf König. Sandman tem uma trama magnífica com personagens gays em ‘Um jogo de você’. As tirinhas do Laerte são essenciais. Lost Girls do Alan Moore e da Melinda Gebbie também aborda diversos aspectos da sexualidade. Há algumas HQs de super-heróis boas com personagens gays como a Batwoman do J.H.Williams III, Gotham City Contra o Crime. A graphic novel brasileira Sabor Brasilis aborda os bastidores de novelas e também inclui personagens gays de uma forma respeitosa. Não lembro de muitos outros bons exemplos infelizmente.

SP: Como você enxerga a representação dos gays dentro e fora dos quadrinhos?

MC: Dentro dos quadrinhos ainda é bem escassa. É um meio machista de forma geral. A maioria dos autores e leitores são homens, heterossexuais e tem a cabeça fechada sobre o assunto. Mas isso tem mudado aos poucos. Cada vez mais meninas leem e produzem quadrinhos. Cada vez aparecem mais personagens gays nos quadrinhos de maior público como os super-heróis e mangás. Isso ajuda a educar o público. Creio que quanto mais as pessoas se informarem sobre homossexualidade menor será o desprezo sobre o assunto. Espero que um dia isso nem seja mais uma questão tão problemática. Outras formas de arte como a literatura, cinema e teatro tem uma quantidade muito maior de representações.

Entrequadros - Ciranda Da Solidão

Entrequadros – Ciranda Da Solidão

SP: No Ciranda da Solidão, você usa bastante da narrativa sem palavras, da narrativa composta e nos apresenta um soco no estômago ao finalizar a história “Esperando a Cera Secar”, uma qualidade das boas histórias curtas. Você tem vontade de trabalhar em uma narrativa longa?

MC: Pretendo realizar obras mais extensas sim, a Círculo Completo mesmo já foi uma narrativa um pouco mais longa. Estou com umas ideias pra próxima EntreQuadros, mas ainda é muito cedo pra falar sobre isso. No momento estou focado na minha parceria com o Nick Farewell que é composto por 13 histórias curtas, mas todas interligadas. No total vai ser um trabalho com quase 200 páginas de quadrinhos. A extensão da obra é sempre fruto da história que quero contar.

SP: Para finalizar, o que há entre os quadros de um quadrinho?

MC: Esse espaço entre os quadros tem um nome técnico: calha. Dá pra usar esse espaço pra ditar o tempo de leitura, sugerir efeitos de slow motion, aceleração ou o que mais a mente criar. Entre os quadros é que a história acontece na mente do leitor, sem ele só há imagens isoladas sem muito sentido narrativo. É lá que está o que realmente importa.

Valeu, Mário, pela gentileza em conceder a entrevista e responder com paciência todas estas perguntas. Sucesso par o Ciranda!

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