Um Bangue-Bangue de Palavras: Descaracterizando Bendis

Brian Michael Bendis!!! GRAURRRRR!
Brian Michael Bendis!!! GRAURRRRR!

Esta semana acabei de ler a fase de Brian Michael Bendis em Os Vingadores. Foram quase dez anos à frente dos Maiores Heróis da Terra, uma run que começou polêmica – a Queda dos Vingadores – e morte de alguns dos seus mais queridos personagens, como o Visão e o Gavião Arqueiro. A fase terminou com a megassaga Vingadores versus X-Men. A última equipe é a nova casa de Bendis na Marvel.

À despeito de suas grandes maquinações para revolucionar a Casa das Ideias, suas sequências bombásticas, suas experimentações narrativas e seus diálogos velozes, Bendis, um dos grandes representantes dos roteiristas de super-heróis do início do século XXI não sabe escrever uma revista de grupo.

Mas cooomooo? Você diz, afirmando que ele revolucionou os Vingadores e que eles só são um sucesso no cinema por causa do que o Sr. Careca de Cleveland fez com eles. Sim, realmente ele tem esse mérito de transformar os Vingadores numa Liga da Justiça da Marvel, unindo os seus heróis mais populares numa equipe onde deveriam estar os mais poderosos. Wolverine e Homem-Aranha foram ideia dele. Sim, funcionaram muito bem ao lado de heróis low profile como Luke Cage, a Mulher-Aranha e o Punho de Ferro. O problema é que se você colocar a mão sobre os personagens e só ler o balões você não vai saber qual deles está falando. Será o Gavião? Será o Luke Cage? Ou é Jessica? Qual delas?

Um diálogo do quadrinho autoral de Bendis e suas idas e voltas em Hollywood.
Um diálogo do quadrinho autoral de Bendis e suas idas e voltas em Hollywood.

QUADRINHOS SÃO FEITOS DE CENAS

Uma das características das histórias de Bendis são os diálogos curtos e demorados, se é que se pode dizer assim, como uma entrevista pingue-pongue. São os Beats de Robert McKee, é o diálogo tornado mais natural de David Mamet. Porém, Bendis leva esses dois mestres ao extremo, principalmente quando ele lida com histórias de vários personagens. Há momentos em que qualquer um deles poderia ter dito aquela frase. Isso funciona muito bem em histórias individuais, porque o ponto de vista se dá em primeira pessoa. Ou seja, se a história é do Demolidor ou da Jessica Jones, esse recurso vai funcionar porque ele é apoiado com a voice over, ou melhor, os recordatórios dos personagens. Porém quando o ponto de vista é múltiplo, é necessária uma coisa chamada de caracterização dos diálogos.

Esse recurso, talvez seja um tanto desencorajado nos dias de hoje porque se popularizaram com as novelas e as comédias. Cada personagem tem um modo de falar específico e existem coisas que um personagem não faria ou não diria. Claro, muita coisa aqui em terras tupiquiniquins se perde na tradução, pois não há como verter para o português o modo de falar sulista da Vampira ou o cajun do Gambit.

Levando em conta que os quadrinhos e o cinema são um meio que usam muito da imagem, grande parte dessa caracterização externa caberá ao ator ou ao desenhista. Porém os diálogos também são parte importante disso, talvez parte essencial, quando se trata de texto nas histórias em quadrinhos. Diferente dos livros em que temos momentos que podem ser narrados na forma de sumários, de diálogos indiretos e de outros recursos, as histórias em quadrinhos são, sem escapatória, feitas de CENAS. Não há outro recurso de exposição e caracterização do personagem que não seja o diálogo. E é aqui que mora a dificuldade de se escrever para quadrinhos. Como criar um contexto através da fala, da cena puramente?

Bendis é muito bom para criar clima e desenvolver o lado psicológico de seus personagens quando os trabalha individualmente. Se você parar para pensar, quais foram as melhores histórias de BMB para os Vingadores? Não são aquelas que focavam um personagem só? Ou aquelas histórias curtas?

Agora pegue um padrão comum nas histórias do Bendis. São aquelas páginas duplas em que aparecem as reações de inúúúmeros personagens a um acontecimento. Experimente riscar o rosto dos personagens para ver se você consegue desvendar qual deles falou. Se não conseguir, é porque a caracterização por meio dos diálogos falhou.

Tampe os personagens e tente adivinhar quem falou o quê!
Tampe os personagens e tente adivinhar quem falou o quê!

SUPER-HERÓIS PRECISAM SE MANTER PLANOS

Caracterização também é igual à identificação. Mas não aquela identificação projetiva na qual você consegue se colocar no lugar do personagem. Estou falando de saber diferenciar um personagem de outro e saber qual deles falou aquela coisa. Um personagem esférico funciona bem um livro, onde o protagonista é transformado por suas ações e vai crescendo e se transformando até o final da narrativa. Nos quadrinhos, como a história nunca acaba, o personagem precisa se manter fixo a determinadas regras.

Não concorda? Bem, então dê uma olhada em quantas vezes foram feitas alterações muito radicais em determinados personagens e eles precisaram fazer um back to basics para não perderem sua base de fãs. Crise nas Infinitas Terras. Os Novos 52. Um Novo Dia do Homem-Aranha. Heróis Renascem. Heróis Retornam. Heróis Regurgitam.

Por isso, é mais fácil pasteurizar os super-heróis da maneira que Bendis faz numa história de equipe. A história anda, mas se substituíssemos a Mulher-Aranha pela Viúva Negra, não é que tudo  continuaria na mesma? Nem o passado dos heróis é levado em consideração – continuidade, uma coisa que os fãs adoram – em seu primeiro encontro com a Mulher-Aranha na revista dos Novos Vingadores, nenhum dos dois comenta sobre seu passado juntos. Ok, mas isso acontece a série inteira. Não. Há. Nenhuma. Menção. (after Bendis).  O passado nas histórias de super-heróis, desde que a Marvel é Marvel, também é uma forma de caracterização.

Super-heróis precisam manter suas características, precisam ser planos. Também não precisam ser estereótipos ou serem completamente pasteurizados, mas saber equilibrar entre essas duas formas de apresentação.

Jason Aaron, Brian K. Vaughan e Jonathan Hickman dão conta de histórias de equipe. Enquanto Bendis e Matt Fraction parecem ter o forte em histórias com apenas um ponto de vista. Nem de longe eu estou falando que Bendis é um mau roteirista ou que seus diálogos são ruins. Mas quando acontecem numa história de equipe, mais parece um bangue-bangue de palavras, feito por pessoas com pobreza de discurso, ou meninas brincando de adoleta. Sim, os personagens falam como pessoas reais, as conversas são fluidas, mas será que cada personagem têm a própria voz? Ou estão ali apenas para fazer a história avançar/retroceder com piadinhas que poderiam ser feitas por qualquer um?

QUADRINHOS DO BENDIS!!! ELE: Foi apenas um lance! ELA: Um lance? ELE (PENSANDO): Foi apenas o que houve. ELA: Foi... Foi apenas um lance? ELE: Podecrê! ELA: Certo. ELE: Você não acredita? ELA: Não. Não foi só um lance. Beleza. ELE: Foi só um lance.
QUADRINHOS DO BENDIS!!! ELE: Foi só um lance! ELA: Um lance? ELE (PENSANDO): Foi só o que houve. ELA: Foi… Foi só um lance? ELE: Podecrê! ELA: Certo. ELE: Você não acredita? ELA: Não. Não. Foi só um lance. Beleza. ELE: Foi só um lance.
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