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Séries de TV x Séries de Quadrinhos

O que as séries de TV e de quadrinhos têm em comum? E o que as torna diferentes? Por que uma série de TV é capaz de fidelizar mais a audiência? É o que pretendo tratar aqui. Não pretendo discutir aspectos estrutura e de criação.

O primeiro deles é a quantidade de roteiristas envolvidos em uma série de quadrinhos e em uma série de TV. As de quadrinhos geralmente contam com um roteirista, que é coordenado por um editor. As de TV são escritas por um time de roteiristas escalados conforme a necessidade e coordenados por um roteirista-chefe. Sendo assim, as passagens de um episódio para outro, nas séries de TV é atenuada com essa mistura de artífices.

Enquanto os quadrinhos são divididos em “runs” ou em “arcos de histórias”, as séries de TV são divididas em temporadas. E é através do artifício das temporadas que as séries de TV angariam mais público para suas exibições e geram “buzz” para fidelizar seus espectadores.

O Cliffhanger nos quadrinhos: deixa um gostinho pra próxima edição.

O Cliffhanger nos quadrinhos: deixa um gostinho pra próxima edição.

Tanto os quadrinhos quanto as séries de TV dependem dos ganchos, ou dos “cliffhangers” para manter seu público interessado. A maior utilização dos ganchos nas séries de TV se dá no final das temporadas, deixando o público afoito pela continuação. Como é um trabalho de uma equipe de roteiristas, essa passagem de uma temporada para outra não se dá bruscamente e as diferenças entre estilos de escrita são atenuadas. Já nos quadrinhos os estilos são mais marcados, um lado bom para o artista, mas ruim para a continuidade, pois não há um gancho entre as “temporadas” dos quadrinhos, ou seja, os arcos de histórias de um autor e outro.

O bom de runs longas nos quadrinhos é que os escritores podem deixar várias pontas soltas entre as edições para trabalharem futuramente. Possibilidade que autores que ficam para desenvolver arcos de seis edições ou menos nem sempre têm. Na permanência de 17 anos de Chris Claremont nos X-Men ou a de 4 anos de Grant Morrison em New X-Men, os escritores tiveram domínio (quase) total da série e dos personagens. Claremont, por exemplo, orquestrava as histórias dos mutantes no estilo de uma novelinha, com várias pistas, o que acontecia numa edição repercutia 30 edições depois. As novelas brasileiras, inclusive, utilizam muito isso de cliffhangers. Quem não lembra do final de Avenida Brasil, com a imagem congelando, os flares, a musiquinha “oioioi” e a vontade de assistir o próximo capítulo?

Tás ouvindo um "oi, oi, oi" aí?

Tás ouvindo um “oi, oi, oi” aí?

A continuidade nos quadrinhos nunca havia sido tão valorizada até o advento da Marvel Comics. Stan Lee havia desenvolvido um universo coeso em que as ações de uma revista reverberavam em outras. Mérito de uma boa coordenação editorial, já que o próprio Stan era o editor-chefe. Não demorou muito para que outras editoras copiassem esse recurso. Era comum, no início da Marvel, que os autores que deixavam determinadas revista deixassem uma “batata quente” para o próximo resolver. Isso se desfez ali pelo ano 2000, com a popularização dos Trade Paperbacks (TPBs) ou encadernados, que compilavam arcos de seis edições ou menos. Os escritores eram instruídos a fazer uma história com começo, meio e fim e que não reverberasse no resto do Universo Marvel, para não atrapalhar o entendimento dos novos leitores. Isso está mudando.

Os quadrinhos estão começando a mirar no exemplo das séries, principalmente na Image Comics, onde Thief of Thieves é escrito por um grupo de roteiristas e coordenado por Robert Kirkman. Ou Morning Glories, de Nick Spencer, que é dividida por temporadas. As HQs escritas por Brian K. Vaughan também são belos exemplos do uso de cliffhangers, como na recente Saga.

Hoje, o que estraga muito da diversão de ler quadrinhos (e assistir séries, em grande parte) é a cultura dos “spoilers” na internet. Não tem graça ficar sabendo do que acontece na história. Às vezes, o desenvolvimento pode ser melhor que o final, esse spoiler aí. Os spoilers acabaram com a graça. Talvez por isso na época do formatinho era tudo mais divertido, porque instigava as pessoas a penar pra saber o que ia acontecer. Tinha que recorrer a revistas importadas ou a revista Wizard para ter um vislumbre do que poderia acontecer no futuro com nossos personagens favoritos. Hoje não tem mais isso. Toda esse “sense of wonder”, de “oooh e agora, como eles vão sair dessa?” se perdeu com a internet.

Séries acabam. Quadrinhos - teoricamente - não.

Séries acabam. Quadrinhos – teoricamente – não.

Algo que poderia ser trabalhado nas séries de quadrinhos e copiado das de TV é o final de temporada. Através de uma coordenação editorial, seria possível que o autor anterior deixasse “a bola quicando” para o atual, com um baita cliffhanger a ser explorado nos próximos capítulos/edições, talvez funcionando como um epílogo para a história do anterior, formando assim uma cultura dos ganchos entre runs, que geraria buzz e fidelizaria o público.

Levando em conta que séries de TV acabam e que quadrinhos não têm previsão para acabarem, também seria interessante usar esse tempo dos quadrinhos como se os heróis envelhecessem de verdade, como atores de uma série de TV (que não podem durar para sempre). As coisas na série de TV, inexoravelmente, rumam para um final, a grand finale, onde todas a pontas soltas se amarram e os cliffhangers se resolvem. Talvez, o que os quadrinhos precisassem fosse de um final, nem que não fosse definitivo, mas que encerrassem uma série, um volume, nem que fosse para os personagens morrerem e retornarem no mês que vêm, como é comum.

 

Obrigado aos amigos do Mutação Reloaded, Rodrigo Gomes, Diego Mendonça e Carlos Portilho, por levantarem a discussão que originou este post.

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