A Grade Hierárquica, por Ivan Brunetti

“Podemos comparar o ato de desenhar uma história em quadrinhos ao de criar uma realidade em miniatura numa página, ou, como disse Chris Ware, ‘sonhar no papel’. O sonho, por exemplo, é autobiografia ou ficção? Por um lado, os sonhos são saltos da imaginação, sinais da plasticidade das informações armazenadas no cérebro, as quais se recombinam de formas às vezes fantásticas, às vezes assustadoras, formas eu jamais poderiam ser imaginadas no estado de vigília – formas de ficção, portanto. Ao mesmo tempo, essa ficção específica só pode ter sido produzida por determinado cérebro, pelos estímulos que ele processou e armazenou. Num sonho seu, todas as personagens são essencialmente… você. Ou uma extensão devocê, seu autor inconsciente. No fim, autobiografia e ficção não constituem uma dicotomia, mas uma polaridade, um perpétuo cabo de guerra que não pode jamais ser definido e medido com precisão.

A página de quadrinhos reflete o modo pelo qual o autor se lembra da sua própria existência da realidade, do fluxo de tempo, da importância das pessoas, lugares e coisas. Nas HQs, o número de quadrinhos e seus diversos tamanhos, a escala e a densidade da informação dentro dos quadrinhos, quaisquer mudanças de ponto de vista e até as próprias palavras são ferramentas ao mesmo tempo visuais e literárias. Reflita profundamente sobre os conceitos de ‘tamanho relativo’, ‘mudança de escala’ e ‘ponto de vista’, pois nas HQs, eles são tanto literais (no desenho) quanto figurativos (na escrita), constituindo, portanto elementos inextrincáveis da narrativa, cortando inadvertidamente a sua identificação ou empatia com a(s) personagens ou a história.

A arquitetura da página em quadrinhos pode ser austera e ao mesmo tempo brincalhona; pode nos atrair ou nos manter afastados. Quando começamos a leitura, os quadrinhos deliberadamente nos fazem percorrer a estrutura em determinado ritmo. Além disso, como acontece com os momentos de tempo, cada quadrinho existe em estado latente  em todos os outros quadrinhos – um todo mutuamente inclusivo”.

BRUNETTI, Ivan. A arte de quadrinizar – filosofia e prática. São Paulo, Editora WMF Martins Fontes, 2013. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla.

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