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Os super-heróis na ficção popular, por Neil Gaiman

Superfolks, de Robert Mayer

Superfolks, de Robert Mayer

“Na minha opinião há duas maneiras principais de utilizar os super-heróis na ficção popular. Na primeira, o significado deles é pura e simplesmente o que se vê na superfície. Na segunda eles são o que significam na superfície: verdade. E não só isso. Por um lado, significam a cultura pop e por outro, esperanças e sonhos. Ou melhor, a interação das esperanças e sonhos, uma perda da inocência.

A linhagem dos super-heróis é bem antiga. Começa, obviamente, na década de 1930. Então, volta aos primórdios das tiras de jornais e também à literatura, assimilando Sherlock Holmes, Beowulf e vários deuses e heróis pelo caminho.

Superfolks, o livro de Robert Mayer, usa os super-heróis como uma metáfora para tudo aquilo que os Estados Unidos se tornaram nos anos 70: a perda do sonho americano significava a perda dos sonhos americanos, e vice-versa.

The Kryptonite Kid, de Joseph Torchia

The Kryptonite Kid, de Joseph Torchia

Joseph Torchia pegou a iconografia do Superman e escreveu The Kryptonite Kid, um poderoso e belo romance epistolar sobre um garoto que acredita, literalmente no herói e que, num livro construído como uma série de cartas ao Homem de Aço, está de acordo com sua vida e suas motivações.

Na década de 1980, pela primeira vez, os escritores começaram a fazer quadrinhos em que os personagens eram tanto super-heróis, quanto análises sobre super-heróis: Alan Moore foi o pioneiro, junto com Frank Miller.

Um dos elementos que foi fundido novamente aos quadrinhos naquela época foi o tratamento de alguns temas em forma de prosa: Superfolks, The Kyptonite Kid, histórias curtas como o influente (literalmente) Homem de Aço, Mulher de Kleenex, de Larry Niven.

Wild Cards, de George R. R. Martin

Wild Cards, de George R. R. Martin

A ressurreição que atingiu os quadrinhos nessa época também acontyeceu na prosa – os primeiros volumes das antologias Wild Cards, editados por George R. R. Martin, fizerma um ótimo trabalho ao evocar a alegria dos super-heróis num contexto em prosa.

O problema com este revival dos super-heróis interessantes da metade dos anos 80 era que os elementos errados eram os mais fáceis de roubar. Watchmen e O Cavaleiro da Trevas  deram cria a um excesso de quadrinhos ruins: sem humor, cinzentos, violentos e chatos. Quando as antologias Wild Cards viraram quadrinhos, tudo aquilo que as tornava interessantes como comentários sobre super-heróis, também se evaporou.

Então após a primeira leva de super-heróis (ele não foram reconstruídos, apenas respeitados… por pouco tempo), liderada por Moore, Miller e Martin, as coisas voltarem, mais ou menos ao seu status quo. Assim, o balanço do pêndulo nos trouxe, no início dos anos 90, incontáveis quadrinhos mal escritos e literais ao extremo. Houve até uma editora americana que anunciou quatro edições de bons escritores como o maior truque de marketing – tão bons quanto capas em relevo prateado.

Existe espaço para ir além do literal. As coisas podem significar mais do que significam. É por isso que Catch-22 não é paenas um filme sobre pilotos na Segunda Guerra Mundial. É por isso que I have no mouth, and I must scream (Eu não tenho boca e preciso gritar) é muito mais do que um grupo de pessoas presas dentro de um supercomputador. É por isso que Moby Dick fala sobre muitas coisas além da caça às baleias, acreditem ou não mais de 50 mil desesperados professores de colegial.

E não estou falando sobre alegorias, metáforas e até mensagem. Eu me refiro ao que fala a história, depois estou fando do que ela ‘fala’.

As coisa podem significar mais do que significam. Essa é a linha divisória entre a arte e rudo que não é arte. Ou uma das linhas”.

Neil Gaiman, em Astro City – Inquisição, de Kurt Busiek e Vários Artistas. São Paulo, Devir, 2005. Tradução de Sergio Codespoti.

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