Mês: janeiro 2014

Sentimentos Concretos: Azul é a Cor Mais Quente, de Julie Maroh

Depois de ser muito comentada por causa de sua adaptação em filme, Azul é a Cor Mais Quente saiu na sua forma original no Brasil: em graphic novel pela Martins Fontes. A graphic conta a história de Clémentine, uma jovem francesa descobrindo sua sexualidade através do amor que sente por Emma. No percurso ela também descobre o significado do amor. Nesse quesito, Azul é a Cor Mais Quente, é uma das obras em quadrinhos mais bem-sucedidas. Ela não descreve os sentimentos dos personagens somente em palavras, mas como se fosse um filme bem dirigido, as expressões dos personagens não estão somente nos seus diálogos ou em sua narrativa em off. Os personagens transbordam sentimentos, seja nos olhares, nos gestos, em um sorriso. Além disso, a autora Julie Maroh, se utiliza de intervenções visuais para concretizar sentimentos, quando imagens valem mais que mil palavras. Por exemplo, quando Clémentine se sente excitada por um uma mulher pela primeira vez. Ou o abismo em que ela cai quando percebe pela primeira vez que pode ser lésbica. É como …

Aproximações entre os quadrinhos e o movimento LGBT

Um gibi sobre um romance entre pessoas do mesmo sexo foi parar no cinema: Azul é a cor mais quente. Esteve em cartaz nas telas grandes durante o final do ano passado, início deste ano. O filme conta o descobrimento da sexualidade por uma garota francesa. Uma história de amor. Pouca gente sabe que, originalmente, a história foi contada em forma de graphic novel, ou os romances gráficos, ou gibi em forma de livro como tento explicar para os leigos. Deixando de lado as pessoas que se ofendem com o filme e saem durante uma cena de sexo, as pessoas não discutem mais se um filme desses deveria ou não ser exibido. Elas discutem a história, o uso das cores como uma inversão de Almodóvar, o sentimento entre as duas pessoas e dizem que é filmão. Preciso dizer que tanto a HQ como o filme foi sucesso de público e crítica, e já ostentam a tarja de Cult. Quem diria, lá no final dos anos oitenta, meados dos anos noventa, que isso aconteceria? Essa época …

As Melhores Graphic Novels Americanas que li em 2013

BONE – THE COMPLETE CARTOON EPIC IN ONE VOLUME, JEFF SMITH Se alguém me parasse na rua e me suplicasse: “Guilherme, eu PRECISO de um quadrinho bom, os que eu tenho lido são uma mesmice disparatada. O que você me recomenda para salvar minha vida?” Eu diria que recomendo Bone. Essa HQ é épica e ao mesmo tempo é simples. É uma aventura disparatada e também tem uns personagens fofinhos. Parece Senhor dos Anéis e Game of Thrones, mas também tem um quê de Calvin, Peanuts e a gente entende de onde o Frank Cho tirou inspiração para o Liberty Meadows. O cenário é medieval, tem feitiço, tem sonhos premonitórios, mas também é lotado de humor e reflexões irônicas. Eu acho que não tem como não gostar de Bone. É preciso ser uma pessoa bem chata para isso. Ele tem elementos do Carl Barks, tem coisas de Cerebus, tem um pouquinho de coisas Gaimanianas. O traço de Jeff Smith é suave, lembrando muito a linha clara, mas dá pra ver que a inspiração dele vem …

Conversas em Balões: Fabiano “Oggh” Denardin

Estreando uma nova seção no blog. A “Conversas em Balões”, para saber um pouco mais sobre o pessoal que trabalha com quadrinhos aqui no Brasil. Pra começar, uma saraivada de questões para o Fabiano “Oggh” Denardin, editor-sênior da Vertigo/Panini e um dos criadores do site de webcomics OutrosQuadrinhos. Aí vão elas: O mundo das HQs Gibi, HQ, revistinha, comics, graphic novel: como você se refere à nona arte? Depende do dia. Dos citados só não uso revistinha (a não ser pra ferir alguém em uma discussão) e não tenho o hábito de usar graphic novel. Qual a melhor coisa dos quadrinhos? O tempo. A primeira história em quadrinhos que lembra ter lido: Muito provavelmente Donald, tinha várias HQs Disney. Mas também pode ter sido Mônica. Não consigo lembrar da primeira que li. Sua HQ preferida de todos os tempos da infância: A HQ do povo da cabeça quadrada, de Carl Barks. Sua HQ preferida de todos os tempos da última semana: Estou relendo Calvin and Hobbes e lendo Peanuts ❤ 3 Roteiristas de Quadrinhos: Só …

X-Men Made In Brazil

A primeira editora a publicar os X-Men no Brasil foi a GEP – Gráfica e Editora Penteado. Através da revista Edições GEP que durou de 1968 a 1972, os X-Men dividiam a regularidade de sua aparição com Surfista Prateado e Capitão Marvel. Porém o mais incrível nessa revista eram as história produzidas inteiramente aqui no Brasil. As únicas da Marvel a terem essa nacionalidade. As histórias serviam para preencher as páginas da revista para que ela tivesse o número necessário para impressão. Um dos responsáveis pela criação das histórias era Gedeone Malagola, criador do super-herói nacional Raio Negro e de muitos outros. Apesar de nem sempre creditados, outros autores também colaboraram com as histórias tupiniquins das equipes mutantes, como Walter S. Gomes. Bem diferentes das histórias de Stan Lee – que também eram publicadas na revista – as histórias brasileiras não tinham aquele cacoete de explicar tudo que acontecia. Eram ingênuas em certa medida, mas também exploravam os personagens e seus poderes de maneira inédita. Em certa medida, elas lembram a série X-Men: First Class, …

Somente a verdade vos libertará: Antes de Watchmen – Minutemen, de Darwyn Cooke

Uma das coisas mais importantes em Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons foram as sugestões. Muitos personagens não tiveram seu destino revelado explicitamente, mas podíamos saber muito sobre isso se lêssemos com um pouco mais de atenção. É o caso dos personagens dos Minutemen, como o Justiça Encapuzada, Silhouette e o Traça. Em Antes de Watchmen: Minutemen, Darwyn Cooke revela estes destinos de uma maneira mais reveladora, mas sem deixar de lado a sugestão. Escolher um artista como Cooke foi um acerto, pois ele trabalha bem a parte artística e também o texto. E com três itens vou dizer por que Darwyn Cooke foi a escolha ideal para esta minissérie/especial: O “SPIRIT” DA COISA Assim como fez com o vigilante mascarado de Will Eisner, Cooke sabe como poucos prestar homenagens. Sejam elas da forma visual, sugerindo coisas através de um detalhe, um close, objetos ou até mesmo na tonalidade monocromática de um quadro. Seja por meio de textos, como a citação do livro Jardim de Versos, de Robert Louis Stevenson. Ou quando combina as …

Os Melhores Romances que Li em 2013

1Q84 – Livro 1, Haruki Murakami Ler esse novo sucesso do autor japonês mais cultuado no mundo de hoje, me fez embarcar na vida dos personagens. Fez com que eu fizesse parte de um Japão moderno, nada tradicional. Fui buscar por mais leituras de obras orientais – estou falando dos mangás – que comportassem aquele clima que o livro me passou. Mas ainda fico na dúvida do que se trata o livro e a que ele veio: um mistério que só vou conseguir entender quando ler os Livros 2 e 3. Ele trata de amor, em primeiro lugar, claro, os dois personagens principais possuem uma relação que só será elucidada no fim da trilogia (espero). O livro é uma homenagem a 1984, de George Orwell – o ano em que nasci – e se passa também no mesmo ano. Entretanto, se você está esperando o Grande Irmão, ministérios, duplipensar, censura, vai demorar um pouco para entender como esses elementos estão presentes. Talvez a maior qualidade de Murakami seja a sutileza, mas não se trata de …

Os Melhores Mangás que li em 2013

Então, primeiro quero pedir desculpas pelo meu total desconhecimento sobre o universo dos Mangás. Se eu falar alguma besteira, me corrijam. Nunca fui muito desse tipo de leitura, mas não por não curtir o estilo, e sim, porque os títulos errados caíram em minhas mãos. Tentando corrigir esse lapso na minha formação quadrinhística, tentei ler alguns. Os melhores foram estes:  ADOLF, OSAMU TESUKA O Deus do Mangá não poderia ficar de fora da lista de iniciação aos quadrinhos japoneses. Além de Adolf, li A princesa e o cavaleiro, um dos grandes clássicos do mestre. A diferença de teor entre os dois é enorme, seja no traço ou no conteúdo narrativo.  Dizem que Adolf foi o primeiro quadrinho adulto de Tesuka e a história tem coisas para maiores de 18 anos como sexo e muita violência, mas, claro, à maneira Tesuka. Notei nos dois mangás uma influência de Shakespeare, seja nas tragédias, nos encontros e desencontros ou nas trocas de papéis, como já bem diz o título que comporta três Adolfs diferentes. Além disso, há a …

As Melhores HQs Estrangeiras que li em 2013

* Por Estrangeiras quero dizer não Brasileiras e não Americanas. Já que ambas têm categorias próprias. A ARTE DE VOAR, ANTONIO ALTARRIBA E KIM ESPANHA Como eu falei em algum lugar, eu havia ouvido falar dessa HQ lendo no site espanhol Zona Negativa. Tenho um fraco (ou um forte?) para essas histórias que abordam relações familiares. Achei muito atraente a proposta, principalmente porque começa com o pai do autor – cuja história, e que história, será contada ao longo da graphic novel – se suicidando. Antonio Pai torna-se anarquista (pô, já tava na moda naquela época? ¬¬’), luta contra o franquismo, é obrigado a lutar na Segunda Guerra Mundial e em meio a tudo isso conhece lugares e participa de situações que nunca um humilde camponês sonharia em realizar. Torna-se um homem de “negócios”, constitui família e acaba depressivo, num abrigo para idosos. Para mim, a melhor parte é essa mesma: o final. Nem todas as grandiloquentes aventuras de Antonio Altarriba nas guerras ou seus negócios mafiosos são tão orquestrados quanto o final da sua …

Os Melhores Quadrinhos da Vertigo que li em 2013

FLEX MENTALLO, GRANT MORRISON E FRANK QUITELY Quiçá Flex Mentallo seja a obra-prima do careca escocês. Quiçá seja a obra que melhor resuma seu trabalho e estilo. Quiçá seja a história de Morrison mais difícil de dizer: ela trata disso e não daquilo. Mas deixando os Quiçás de lado o fato é que Flex Mentallo permite várias leituras, sejam elas sobre super-heróis e maturidade; sejam sobre a origem e o destino das ideias; seja sobre sexualidade ou até mesmo sobre seus próprios leitores. Só aqui no blog ela já rendeu todas essas interpretações. Foi um grande acerto da Panini Comics ao lançar a edição aqui no Brasil com extrema rapidez, visto que sua reprodução estava proibida nos EUA e fora de lá. OCEANO, WARREN ELLIS, CHRIS SPROUSE E KARL STORY Oceano é uma ficção científica. Oceano é um drama. Oceano é uma história de super-heróis. Oceano é um thriller de espionagem. Oceano é da Wildstorm e não é da Verigo, mas tem um gostinho do selo também.  Já falei bastante da história e algumas análises …