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Somente a verdade vos libertará: Antes de Watchmen – Minutemen, de Darwyn Cooke

Antes de Watchmen: Minutemen, de Darwyn Cooke (Panini, 2014, 156 páginas, RS 21,90). Tradução de Jotapê Martins e Bernardo Santana

Antes de Watchmen: Minutemen, de Darwyn Cooke (Panini, 2014, 156 páginas, RS 21,90). Tradução de Jotapê Martins e Bernardo Santana

Uma das coisas mais importantes em Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons foram as sugestões. Muitos personagens não tiveram seu destino revelado explicitamente, mas podíamos saber muito sobre isso se lêssemos com um pouco mais de atenção. É o caso dos personagens dos Minutemen, como o Justiça Encapuzada, Silhouette e o Traça. Em Antes de Watchmen: Minutemen, Darwyn Cooke revela estes destinos de uma maneira mais reveladora, mas sem deixar de lado a sugestão. Escolher um artista como Cooke foi um acerto, pois ele trabalha bem a parte artística e também o texto. E com três itens vou dizer por que Darwyn Cooke foi a escolha ideal para esta minissérie/especial:

  1. O “SPIRIT” DA COISA

Assim como fez com o vigilante mascarado de Will Eisner, Cooke sabe como poucos prestar homenagens. Sejam elas da forma visual, sugerindo coisas através de um detalhe, um close, objetos ou até mesmo na tonalidade monocromática de um quadro. Seja por meio de textos, como a citação do livro Jardim de Versos, de Robert Louis Stevenson. Ou quando combina as duas quando apresenta os oito Minutemen através de objetos que também se utilizam do visual e textual: fotos autografadas, capas de revistas, jornais, anúncios publicitários, ficha policial… Ele também recria passagens de quadrinhos de super-heróis da Era de Ouro. É o mesmo cuidado que Moore teve ao compor Watchmen, todavia, claro, com um esmero um pouco menor.

O círculo: o início e o fim.

O círculo: o início e o fim.

  1. A NOVA VELHA FRONTEIRA

Ah, Narrativa, como seu fantasma ainda paira… O legado de Moore – para além das histórias infames, violentas e gratuitas que os anos 90 produziram –, foi, como ele diz, casar os dois hemisférios cerebrais. Um responsável pelo raciocínio, que lê o texto, e o outro, responsável pela imaginação, que desvenda as imagens. Quando se faz uma combinação desses dois lados, algo interessante acontece: temos uma nova interpretação. Isso é o que Cooke repete em Minutemen. Ele trabalha a narrativa. Ele trabalha a verdade, que nada mais é do que os fatos interpretados pelo nosso cérebro: nossa interpretação. A célebre máxima da obra Mooriana: “Tudo o que o personagem sabia sobre si mesmo é uma mentira”, também serve para o leitor: “Tudo o que o leitor sabia sobre o personagem é uma mentira”. Em suas histórias, Moore nos leva a cometer o autoengano e, ao perceber que fomos enganados pelo artífice ou por nós mesmos durante nossa leitura e interpretação errônea dos fatos, nos leva a retrabalhar nossas concepções da história, do mundo da história e, por que não, algumas vezes sobre o mundo ao nosso redor. Tudo isso está presente nesta homenagem à obra máxima de Moore e Gibbons. Mas pera lá…

A verdade? A verdade é que ela está lá fora... na chuva!

A verdade? A verdade é que ela está lá fora… nua e crua!

  1. EU CAÇADOR DE MIM

Como em Parker: The Hunter, série de romances adaptados para os quadrinhos em que Cooke tem trabalhado nos últimos anos, os símbolos têm poder. E o que dizer dos símbolos nos quadrinhos de um cara que é chamado de o mago de Northampton? Em Antes de Watchmen: Minutemen existe um símbolo muito importante: o círculo. Ele também é muito importante em Watchmen. Ora, ele é o relógio do fim do mundo, ele é o broche de smiley do Comediante, é o símbolo de Hidrogênio na testa do Dr. Manhattan, e por aí vai. Mas, como eu falei antes, Minutemen elucida o passado dos primeiros combatentes do crime no universo de Watchmen e, talvez por isso, Cooke resolveu inserir o círculo ao menos no início de todas as edições da minissérie. Mas como eu falei antes, é uma questão de verdade, não é mesmo? Porque com a verdade, o círculo se fecha e a gente refaz todo o caminho percorrido para chegar ao final. A verdade está presente em todas narrativas, mas ela fica mais evidente naquelas em que a história é contada através de trechos, usando elipses e flashes. Por isso a importância dos trechos do livro Sobre o Capuz, de Hollis Mason, o Coruja: eles tanto revelam quanto encobrem a verdade. O projeto Antes de Watchmen também é o fechamento de um círculo, um círculo tracejado que tanto revela quanto encobre a verdade. A história da minissérie Watchmen também cumpre essa função. Se formos mais além, e é para isso que eu aqui estou, a própria História – com H maisúculo, ou seja, o que aconteceu no nosso mundo com Moore, Gibbons e a DC Comics – também tem essa luta com a verdade, ou seja, o que a empresa disse e o que o autor disse.

O casamento dos hemisférios.

O casamento dos hemisférios.

Como diz o Comediante lá pelo finzinho da história, sem spoilear: “’A verdade’? Sabe, Mason, tu é mesmo uma piada. ‘A verdade’? Não existe verdade. Existem apenas verdades. Tá me acompanhando? Como esse teu livrinho… Ele é a verdade do jeito que você enxerga. É a verdade até onde tu sabe”.

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Este post foi publicado em: Análises, quadrinhos, Resenhas

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Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. É mestrando em Memória Social e Bens Culturais, onde pesquisa quadrinhos. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Em 2016 lançou a HQ coletiva Lady Horror Show e a HQ "muda" Esperando o Mundo Mudar. Mantém o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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