Aproximações entre os quadrinhos e o movimento LGBT

Um gibi sobre um romance entre pessoas do mesmo sexo foi parar no cinema: Azul é a cor mais quente. Esteve em cartaz nas telas grandes durante o final do ano passado, início deste ano. O filme conta o descobrimento da sexualidade por uma garota francesa. Uma história de amor. Pouca gente sabe que, originalmente, a história foi contada em forma de graphic novel, ou os romances gráficos, ou gibi em forma de livro como tento explicar para os leigos. Deixando de lado as pessoas que se ofendem com o filme e saem durante uma cena de sexo, as pessoas não discutem mais se um filme desses deveria ou não ser exibido. Elas discutem a história, o uso das cores como uma inversão de Almodóvar, o sentimento entre as duas pessoas e dizem que é filmão. Preciso dizer que tanto a HQ como o filme foi sucesso de público e crítica, e já ostentam a tarja de Cult.

ISSO É AGORA: "Crioulos não deveriam ser permidos votar". "Puta merda! Sua avó é super racista!" "Desculpe! Ela nasceu no sul dos anos 1950 e é praticamente uma preconceituosa fossilizada".
ISSO É AGORA: “Crioulos não deveriam ser permidos votar”. “Puta merda! Sua avó é super racista!” “Desculpe! Ela nasceu no sul dos anos 1950 e é praticamente uma preconceituosa fossilizada”.

Quem diria, lá no final dos anos oitenta, meados dos anos noventa, que isso aconteceria? Essa época foi quando tanto o movimento gay quanto os quadrinhos estavam ganhando força. Os quadrinhos, como hoje, também estavam transacionando entre mídias, como a TV e o cinema, e muitos deles viravam objeto de investigação acadêmica. Obras eram consagradas, como Watchmen e O Cavaleiro das Trevas. Em outro front, a marginalização dos homossexuais devido ao “câncer gay” – a AIDS, e às tentativas políticas do governo de Margaret Thatcher de reprimir e erradicar a comunidade queer inglesa, fez com que esse gueto levantasse ainda mais a bandeira do arco-íris e saísse pelas ruas reunindo milhares de pessoas naquela que ficaram conhecidas como as Paradas do Orgulho Gay.

O que foi que mudou? Simples: o entretenimento e as pessoas que fazem o entretenimento. Assim como até os anos 70 era um tabu pessoas de raças diferentes serem vistas se beijando na televisão, depois passamos por uma época de Blackxpoitation até os filmes de Eddie Murphy e Martin Lawrence – muito bem traduzidos nos cartazes de Tracy Jordan em 30 Rock. Hoje, vemos inúmeros personagens gays pipocando em novelas, seriados, filmes. Eles deixaram de ser o alívio cômico para viver seus dramas existencialistas e até se imiscuírem entre os personagens e se tornarem “gente como a gente”.

DAQUI A 50 ANOS SERÁ ASSIM: "Não deveriam permitir aos gays se casarem". "Puta merda! Seu avô é super homofóbico!". "Me desculpe! Ele cresceu num estado interiorano nos anos 2010, ele é basicamente um intolerante fossilizado".
DAQUI A 50 ANOS SERÁ ASSIM: “Não deveriam permitir aos gays se casarem”. “Puta merda! Seu avô é super homofóbico!”. “Me desculpe! Ele cresceu num estado interiorano nos anos 2010, ele é basicamente um intolerante fossilizado”.

O mesmo ocorreu com os quadrinhos. Eles deixaram de ser uma cultura de nicho e se tornaram cultura pop, só que dessa vez para um público diferente. Hoje, o público dos quadrinhos não são mais crianças – ou não apenas elas – são adultos com poder aquisitivo. Desde o momento em que ficaram independentes de seus pais, os fãs de quadrinhos passaram a dedicar mais do seu dinheiro aos seus gostos da infância – agora remodelados para o seu perfil. Quem joga videogame sabe do que eu estou falando.

Mas se é pra por a culpa em alguém, bem, Blame The Internet. A rede mundial de computadores permitiu, através das redes sociais, a pessoas com gostos em comum – para o bem e para o mal – se encontrar, se organizar, se revelar e se apoiar. Dessa maneira, elas perceberam que não estavam tão sozinhas assim com suas aflições ou com seus gostos considerados estranhos para a maioria dos falso-moralistas. Tanto a comunidade gay quanto os nerds tomaram de assalto a cultura popular e, aos poucos, foram se projetando nos produtos culturais. Hoje, por exemplo, temos o Dia do Orgulho Nerd, comemorado em 25 de maio, o Dia do Orgulho Gay, em 28 de junho, o Dia Mundial de Combate a AIDS, em 1 de dezembro e o Dia do Quadrinho Nacional, em 30 de janeiro.

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