Mês: fevereiro 2014

O descaso com a América Latina nas revistas de Super-Heróis

Há uma máxima no mercado de quadrinhos que diz que para se dar bem nas HQs americanas como roteirista é preciso conhecer a cultura e as localidades dos Estados Unidos. Bem, é seguro dizer que estamos imersos na cultura dos Estados Unidos aqui no Brasil. Não que isso seja ruim, mas não seria melhor se todos os países fossem bem representados nas revistas dos nossos tão queridos heróis? Pensem bem, que representações temos dos brasileiros nas revistas da Marvel e DC? Temos Fogo, Beatriz DACOSTA, uma ex-espiã da ANS, que é a representação da periguete em todo Universo DC. Na Marvel, temos o Mancha Solar, Roberto DACOSTA (assim mesmo, tudo junto), um ex-jogador de futebol, um latin lover. Ambos são do Rio de Janeiro. Ambos são DACOSTA. Ambos são safados. Ambos tem poderes a ver com temperatura elevada. Legal essa nossa imagem, né? Temos também a travesti Lorde Fanny, de Os Invisíveis, uma xamã brasileira que foi criada no México. Bom, então tá, fora essa fama de Brasileirinhas, já repararam que muito raramente, quando acontecem …

O teste Bechdel

Alison Bechdel, já conhecida dos leitores deste blog por suas graphic novels autobiográficas Fun Home e Você é Minha Mãe?, e também por suas tirinhas sobre o mundo lésbico Dykes To Watch Out For. Foi nessa tirinha, em 1985, que surgiu o teste Bechdel, um teste para estabelecer se uma obra de ficção (geralmente filmes) fazia um retrato igualitário de gênero. Segundo Bechdel e sua instrutora de karatê, que deu a ideia do teste, a obra precisa concordar com estas 3 perguntas: Se pararmos para pensar, muitas obras, sejam quadrinhos ou filmes, não atendem a estas solicitações. Um exemplo gritante é Sex and The City, em que as mulheres só falam sobre relacionamentos, como se suas vidas fossem reduzidas a pensar sobre homens. Por outro lado, muitos filmes de ação apresentam apenas personagens masculinos. Isso bate com uma declaração de uma estudante da UCLA que disse que seus professores afirmavam que a audiência pedia por protagonistas homens e heteros e não, como um profissional da indústria cinematográfica falou “um monte de mulheres falando sobre sabe-se …

Omnia Mutantur – Tudo Muda: Brian Michael Bendis nos X-Men.

Preciso fazer um mea culpa, ou seja, me retratar. Quando escrevi o artigo sobre a run de Brian Michael Bendis nos Vingadores disse que ele não sabia escrever histórias de grupo. Então, tendo lido sete histórias dos seus All-New X-Men, tenho que dar o braço a torcer e dizer que o Careca de Cleveland está fazendo um bom trabalho. Vou explicar como Bendis inseriu vida nova em um grupo que estava prestes a cair em desgraça devido à derrota no crossover Vingadores versus X-Men. O mote foi trazer do passado os X-Men Originais (Ciclope, Garota Marvel, Fera, Anjo e Homem de Gelo). Inserindo um novo grupo, ou melhor, um velho, de um ponto de onde não é necessário muito conhecimento prévio de cronologia. Bendis uma vez declarou que os X-Men eram muito difíceis de se trabalhar devido a sua extensa cronologia, milhares de personagens e equipes e futuros alternativos. Ele já trabalhou com a equipe no universo Ultimate, onde trouxe as versões de Cristal – desta vez como uma roqueira punk – e do Anjo. …

Graphic Novel é um gibi vitaminado. E é BomBril.

O termo graphic novel já virou lugar comum. A prova disso é a utilização da expressão na Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel da Salvat. Nenhuma da obras ali publicadas é, em essência, uma graphic novel. Muito menos foram escritas/produzidas para serem vendidas como tal. Porém, de um tempo para cá, qualquer quadrinho encadernado se torna uma graphic novel. Não importa se é uma coletânea de histórias publicadas anteriormente, se são coloridas ou em tinta preta, qual o acabamento do papel, se são capa dura ou brochura. Mas eu já falei sobre como funciona essa diferenciação na minha maneira de ver as coisas. Sabe qual a diferença entre gibi e quadrinhos? Tem aqueles que ficam na mentalidade gibi, que o mundo é maniqueísta, preto e branco, que nadam no volume morto dos super-heróis. Já os quadrinhos é toda essa vastidão oceânica que permite diversas comparações com um mundo aberto e sem barreiras, em que existem matizes e as coisas não são certas, em que deve se defender seus valores, podendo custar sua vida, mas lutando …

O poder do underdog: Wáluk, de Ana Miralles e Emilio Ruiz

Antropomorfizar animais é uma coisa comum desde a época dos egípcios. Na cultura popular vemos os quadrinhos e animações de bichos que reagem como gente. Wáluk é um desses casos. Conta a história do personagem-título, um filhote de urso polar que, durante o crescente degelo do ártico, se perde da mãe e precisa achar comida. Logo ele encontra o velho urso Esquimó que vai ensiná-lo a caçar e a viver nos tempos difíceis. Além de uma grande história de consciência ecológica, Wáluk também põe em prática o poder do underdog – e com essa palavra eu quero dizer o zebra, a carta fora do baralho, o elemento surpresa, aquele a quem os outros não davam nada, a vítima, o looser, o perdedor. Esse looser tem tomado cada vez mais os holofotes, graças, em parte ao seriado Glee, que foca nesse tipo de personagem. Mas vamos dizer que não é de hoje que é muito mais fácil se identificar por personagens vitimizados pelos outros. Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida, todas elas sofreram o pão que …

Quadrinhos Neuróticos: O Nada e Mais Alguma Coisa, de Woody Allen

Eu nem sabia que Woody Allen havia feito quadrinhos. Mas não só fez como protagonizava tiras diárias que foram produzidas entre 1976 e 1984 e circularam pelos jornais de todo o mundo, inclusive no Brasil. Não por acaso, o mesmo artista das tirinhas “Inside Woody Allen”, Stuart Hemple, também emprestou suas arte para sequencias, do talvez mais famoso filme do diretor, o oscarizado Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall). Encontrei o livro O Nada e Mais Alguma Coisa abandonado num saldão de cinco reais em um sebo aqui de Porto Alegre, mas a realidade é que o livro valia muito mais que aquilo. Esta compilação de tinhas, originalmente chamada Nothing and Somethingness, foi publicada aqui no Brasil em 1978, pela editora L&PM, talvez um dos primeiros lançamentos da casa publicadora. A tradução das tiras é feitas por Ruy Castro, enquanto que os balões e a programação gráfica são feitos pelo mestre disneyniano, Renato Canini. A edição me fez dar boas gargalhadas, sempre no tom autodepreciativo de Allen. Para além das críticas feitas ao diretor em …

Ele não “polpa” ninguém: O Aranha – O Terror da Rainha Zumbi, de David Liss e Colton Worley

A ficção de polpa, ou pulp fiction, tem esse nome porque as revistas que distribuíam esse tipo de aventura eram impressas em papel barato, feitos com a polpa das árvores. Com grande popularidade no início do século XX, as revistas pulp foram o divertimento das massas antes das revistas em quadrinhos e da televisão. Essa geração, que cresceu lendo histórias de detetives e aventureiros, foi responsável pela criação dos super-heróis. Foi assim com Siegel e Shuster, que incorporaram muitos dos elementos aventureiros de Doc Savage no seu Superman. E foi assim com Batman, no qual Bob Kane e Bill Finger usaram o lado detetivesco e misterioso d’O Sombra, personagem que surgiu primeiro nas rádios. Nada mais natural que, em tempos mais modernos, esses personagens fossem concretizados em folhas de papel tão baratas quanto as dos pulps: as dos gibis. Doc Savage teve várias séries em quadrinhos. Enquanto O Sombra passou por mãos como as de Howard Chaykin e Denny O’Neil. A última encarnação desses heróis foi através da editora Dynamite Entertenment. Garth Ennis (Preacher, Justiceiro) se …

Quadrinhos LGBT para todo o tipo de público (Brasil)

Aqui no Brasil, os quadrinhos gays não tiveram tanto approach até há um bom tempo. Não que tentativas não foram feitas. Na década de 80, o personagem Capitão Gay de Jô Soares era muito popular na televisão, no programa Viva o Gordo. Então uma revista escrita e desenhada por Watson Portela trazia as aventuras do personagem: era a Super Gay, publicada pela Grafipar. Também no mesmo ano, a mesma editora lançava PlayGay, outra revista voltada para o público homossexual, porém com contos eróticos em quadrinhos, o “amor guei”. Um exemplo bem-humorado de quadrinhos gays são os caubóis Rocky e Hudson do cartunista gaúcho Adão Iturrusgaray. Os dois fizeram tanto sucesso que em 1991 viraram (ui!) longa-metragem dirigido por Otto Guerra. Muito antes de Brokeback Mountain, diga-se de passagem. Mas foi nos anos 2000 que os quadrinhos gays começaram a sair do armário, e só podia ser na área dos independentes, é claro. Uma das grandes incentivadoras desse movimento foi a editora Marca de Fantasia, de João Pessoa. A primeira HQ sobre universo gay publicada pela …

Porque as Revistas dos Super-Heróis Premium eram legais.

Já se falou muito de porque as Premium da Abril não funcionaram. No momento econômico atual não se acharia absurdo uma revista em quadrinhos de 170 páginas a preço de 10 reais, mas nos idos de 2000, a coisa foi um fracasso, fazendo a Abril perder a licença da Marvel e retornar ao formatinho para as revistas da DC. A economia mudou, o público mudou e o comportamento do consumidor de quadrinhos acompanhou essas mudanças. Mas, muita gente não acompanhou as revistas Premium e, em seu conteúdo, elas traziam histórias bastante interesssantes. Como algumas que vou citar agora. TERRA DOIS, DE GRANT MORRISON E FRANK QUITELY (EM SUPERMAN PREMIUM) A revista do Super trazia essa minissérie muito elogiada lá fora e aqui dentro, repetindo essa pareceria de artistas que sempre deu certo. A história era o primeiro encontro pós-crise da Liga da Justiça com o Sindicato do Crime, as versões maléficas dos heróis, com direito ao único super-herói bonzinho da Terra, Lex Luthor. TITÃS, DE DEVIN K. GRAYSON E MARK BUCKINGHAM (EM SUPERMAN PREMIUM) Devin …

Avaliação Geral: Antes de Watchmen

Antes de Watchmen foi um projeto polêmico. Como a maioria das coisas no mundo dos quadrinhos, já veio malhada antes de nascer, seja pelos fãs da série ou pelo criador ranzinza, Alan Moore. De qualquer forma foi um sucesso de vendas e a polêmica que gerou em torno de si serviu apenas para divulgar ainda mais as minisséries. Aqui no Brasil, foram publicadas oito encadernados, entre junho de 2013 e janeiro de 2014. Aqui vai uma breve avaliação de cada um deles: Coruja é uma minissérie que traz um caso do passado do vigilante. Um dos últimos trabalhos de Joe Kubert ao lado do filho Andy. O roteiro de Straczynski é de mediano para fraco, bem longe de seu potencial. Não se encontra muito das marcas de estilo de Moore, por outro lado é pouco arraigada à história da minissérie original e inova como se o personagem tivesse série própria. O encadernado da Espectral foram um dos melhores da iniciativa. Falei mais sobre ele aqui. Rorschach é uma das piores minisséries. Um dos personagens que …

Quadrinhos LGBT para todo o tipo de público (Lá Fora)

Azul é a cor mais quente foi apenas um dos quadrinhos que podem ser considerados “LGBT”, a ganharem notoriedade. Exemplos temos vários. Um dos pioneiros dos quadrinhos undergrounds gays, Howard Cruse conseguiu emplacar com a Paradox Press, um selo da DC Comics, sua graphic novel Stuck Rubber Baby em 1995. A história um pouco inspirada na experiência de Cruse, conta a luta de Toland Polk ao lidar com sua sexualidade e também com o racismo em sua comunidade. Já nos quadrinhos europeus, um dos pioneiros é o alemão Ralf König, de quem eu já falei aqui. Seu quadrinho de maior sucesso é O Homem Ideal (Maybe… Maybe not/ Der bewegte Mann). Aqui no Brasil já saíram outros dois álbuns seus: Como Coelhos e E agora os noivos podem se beijar… . Todas as suas obras têm um tom carregado de humor sempre explorando as diferenças e semelhanças entre homo e heterossexuais. König já tem quatro adaptações de suas obras para o cinema, entre elas O Homem Ideal (Der bewegte Mann, 1994) e Como Coelhos (Wie …