Ele não “polpa” ninguém: O Aranha – O Terror da Rainha Zumbi, de David Liss e Colton Worley

O Aranha: O Terror da Rainha Zumbi, de David Liss e Colton Worley
O Aranha: O Terror da Rainha Zumbi, de David Liss e Colton Worley (2014, Mythos Editora,  tradução Fernando Bertacchini)

A ficção de polpa, ou pulp fiction, tem esse nome porque as revistas que distribuíam esse tipo de aventura eram impressas em papel barato, feitos com a polpa das árvores. Com grande popularidade no início do século XX, as revistas pulp foram o divertimento das massas antes das revistas em quadrinhos e da televisão. Essa geração, que cresceu lendo histórias de detetives e aventureiros, foi responsável pela criação dos super-heróis. Foi assim com Siegel e Shuster, que incorporaram muitos dos elementos aventureiros de Doc Savage no seu Superman. E foi assim com Batman, no qual Bob Kane e Bill Finger usaram o lado detetivesco e misterioso d’O Sombra, personagem que surgiu primeiro nas rádios.

Nada mais natural que, em tempos mais modernos, esses personagens fossem concretizados em folhas de papel tão baratas quanto as dos pulps: as dos gibis. Doc Savage teve várias séries em quadrinhos. Enquanto O Sombra passou por mãos como as de Howard Chaykin e Denny O’Neil. A última encarnação desses heróis foi através da editora Dynamite Entertenment. Garth Ennis (Preacher, Justiceiro) se encarregou de dar uma nova “cara moderna” para O Sombra, enquanto outros ficaram responsáveis por diferentes heróis dos pulp ou proto-super-heróis, como no caso do Fantasma e do Besouro Verde, por Kevin Smith. A Mythos Editora, através de seu selo Mythos Books, vem colocando essa iniciativa da Dynamite nas prateleiras das livrarias brasileiras. Porém, os dois primeiros volumes lançados (O Sombra – O Fogo da Criação Vol. 1 e O Aranha – O Terror da Rainha Zumbi) não parecem fazer jus à lenda dos heróis pulp.

Ô mulher deixa de manha, a minha cobra quer comer sua aranha!
Ô mulher deixa de manha, a minha cobra quer comer sua aranha!

Deixarei o Sombra de lado, que me decepcionou tanto como obra de Ennis quanto o seu outro trabalho pela Dynamite, Jennifer Blood, e me atentarei a última leitura da “coleção”, O Aranha. Tenho de confessar que antes de ler essa HQ não fazia ideia de quem era O Aranha, mas sabia de sua importância para os pulps e para a indústria dos quadrinhos. E é aí que mora o problema com essa nova roupagem. Logo de cara somos apresentados a um herói sem melindres, escrupuloso, e de coração ferido. Mas parece que faltou uma coisa: a motivação. Aquilo que está ali bem embaixo da barra direita desse blog, ali no contador de visitas, o McGuffin. Nas primeiras páginas ele conta a sua motivação: Por que eu fiz isso? Porque EU PODIA, ele nos diz. Ora! Me “polpe”. O Batman teve os pais assassinados, Rorschach viu a notícia da morte de Kitty Genovese, isso é motivação. Poder por poder, eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas resolvi acabar de ler esse encadernado e dizer o que eu acho dele.

Então com tantos personagens dos pulps para O Aranha enfrentar, David Liss coloca nosso herói contra quem? Contra zumbis! Ahá, que original! Ótimo para apresentar o herói para uma nova geração, não acham? Ótimo para confrontar suar motivações. Ops, ele não tem nenhuma… E ainda, como gancho na primeira história, ele explode a cabeça de uma criança-zumbi! Gore, Grimm & Gritty. Sério, se não fosse pela arte e pelo acabamento da edição, eu acharia que tinha voltado aos anos 90, quando minhas revistas da assinatura vinham todas num pacote só e de uma vez.

Duas aranha, duas aranha...
Duas aranha, duas aranha…

Tenho que falar também da arte. A pintura de Colton Worley é muito realista, muito mesmo. E é isso. Enquanto quadrinista, ele seria um ótimo retratista. Dá pra ver que a fórmula de Worley se repete incessantemente. Ok, sabemos que o cara é O Aranha, mas não precisa trabalhar todas as páginas como um splash duplo que lembre a figura de aranha ou de teias. Já pensou se toda história do Homem-Aranha fosse assim? Usar truques de layout de página é válido, como os círculos no Minutemen, de Darwyn Cooke, mas não que se repita dessa maneira. No começo, eu pensei: Wow, que legal! Ele é O Aranha e tem uma aranha! Mas depois se tornou repetitivo a ponto de no momento em que tem um gás sendo dissipado pela cidade, a página assumir o formato aracnídeo. Brincadeiras com o layout são legais, mas é preciso saber onde termina a brincadeira e começa a palhaçada. Deixar pistas para o leitor completar é legal, subestimar o leitor não é legal. Mas também não é preciso superestimá-lo. Não a ponto de construir uma história reapresentando o herói já supondo que se saiba tudo sobre ele como se sabe do Superman e do Homem-Aranha. Pra não dizer que o encadernado é de todo ruim, a última história estabelece, ao menos, o clima pulp de grandes escritores do gênero, como Raymond Chandler ou Elmore Leonard. Este último relato poderia funcionar bem como uma história de apresentação se os elementos certos fossem trabalhados. Realmente O Aranha não “polpa” ninguém. Nem o leitor.

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