O poder do underdog: Wáluk, de Ana Miralles e Emilio Ruiz

Antropomorfizar animais é uma coisa comum desde a época dos egípcios. Na cultura popular vemos os quadrinhos e animações de bichos que reagem como gente. Wáluk é um desses casos. Conta a história do personagem-título, um filhote de urso polar que, durante o crescente degelo do ártico, se perde da mãe e precisa achar comida. Logo ele encontra o velho urso Esquimó que vai ensiná-lo a caçar e a viver nos tempos difíceis.

Wáluk, de Ana Miralles e Emilio Ruiz (Nemo, 2014,  58 páginas, Tradução: Fernando Scheibe)
Wáluk, de Ana Miralles e Emilio Ruiz (Nemo, 2014, 58 páginas, Tradução: Fernando Scheibe)

Além de uma grande história de consciência ecológica, Wáluk também põe em prática o poder do underdog – e com essa palavra eu quero dizer o zebra, a carta fora do baralho, o elemento surpresa, aquele a quem os outros não davam nada, a vítima, o looser, o perdedor. Esse looser tem tomado cada vez mais os holofotes, graças, em parte ao seriado Glee, que foca nesse tipo de personagem. Mas vamos dizer que não é de hoje que é muito mais fácil se identificar por personagens vitimizados pelos outros. Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida, todas elas sofreram o pão que as bruxas amassaram. E sempre torcemos por elas. Quando assistimos aos vídeos do Animal Planet ou da National Geographic, não torcemos pelo leão, mas sim pelo antílope. Quando vemos bebês ou filhotinhos de animais, os achamos bonitinhos e queremos oferecer a nossa proteção.

É assim que funciona Wáluk. O protagonista é um filhotinho, que apesar de ser um predador, enfrenta um inimigo mais poderoso, o vitorioso ser humano, que está acabando com o seu habitat e reduzindo suas chances de sobrevivência. São interessantes as descrições que os ursos polares, principalmente o experiente Esquimó, fazem dos seres humanos, com a mesma estranheza que poderíamos fazer dos ursos polares. Esquimó, por sua vez, também é um underdog: velho, sem dentes, com dores nas patas traseiras. Ele também precisa da ajuda de Wáluk assim como o ursinho precisa do mais velho. Juntos, eles são capazes de derrotar os humanos.

Wáluk, de Ana Miralles e Emilio Ruiz (Nemo, 2014,  58 páginas, Tradução: Fernando Scheibe)
Wáluk, de Ana Miralles e Emilio Ruiz (Nemo, 2014, 58 páginas, Tradução: Fernando Scheibe)

Com uma arte que está na beira do real e do caricato, com cenas incríveis como as da capa da HQ, e também as do momento em que a aurora boreal chega ao Ártico. Os ursos são retratados com feições humanas, lembrando os bons quadrinhos da linha clara, como Asterix e Tintim. Ser popular não quer dizer que você precisa ser um vitorioso e sim, conquistar o coração das pessoas. Afinal, que nunca se sentiu sem esperanças? Os perdedores agora são os populares. Sorry.

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