Graphic Novel é um gibi vitaminado. E é BomBril.

O termo graphic novel já virou lugar comum. A prova disso é a utilização da expressão na Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel da Salvat. Nenhuma da obras ali publicadas é, em essência, uma graphic novel. Muito menos foram escritas/produzidas para serem vendidas como tal. Porém, de um tempo para cá, qualquer quadrinho encadernado se torna uma graphic novel. Não importa se é uma coletânea de histórias publicadas anteriormente, se são coloridas ou em tinta preta, qual o acabamento do papel, se são capa dura ou brochura. Mas eu já falei sobre como funciona essa diferenciação na minha maneira de ver as coisas.

A Coleção de Graphic Novels da Marvel, da Salvat
A Coleção de Graphic Novels da Marvel, da Salvat
Sabe qual a diferença entre gibi e quadrinhos? Tem aqueles que ficam na mentalidade gibi, que o mundo é maniqueísta, preto e branco, que nadam no volume morto dos super-heróis. Já os quadrinhos é toda essa vastidão oceânica que permite diversas comparações com um mundo aberto e sem barreiras, em que existem matizes e as coisas não são certas, em que deve se defender seus valores, podendo custar sua vida, mas lutando por ideal válido que não são aqueles incríveis heróis de papel.

O negócio é que não adianta lutar contra o sistema. Desde que o mundo é mundo, o sistema engole populações. O mundo é movido pelo dinheiro, isso é inegável. O comércio é movido pelas marcas, e qualquer publicitário tem que saber disso. Não adianta lutar contra o que já está estabelecido. Brasileiro é tudo idiota porque compra coisas de marca? Pode ser, mas não se esqueça de que você é brasileiro. Não se esqueça de que muita coisa que você compra é guiada pelas escolhas conscientes e inconscientes que o marketing e a publicidade produzem em nós. Ou você chama iPhone de Smartphone? iPod (que parou de ser produzido), de reprodutor de .mp3? Kindle, Kobo, como é que você chama? Leitor de livros digitais?

A mesma coisa acontece com as graphic novels. Está incutido em nós que qualquer “livro em quadrinhos” é uma graphic novel. Não adianta lutar contra isso e fazer birra contra a acepção. Graphic Novel agora é um termo genérico e não diferenciador. Da mesma forma que os mangás já não são somente os quadrinhos produzidos no Japão. E se no Brasil pararem de chamar revista em quadrinhos de Gibi porque se trata de uma marca e não a definição correta da coisa?

O Fim do Gibi - E seu mascote, o Gibi.
O Fim do Gibi – E seu mascote, o Gibi.

A revista Gibi foi lançada por Roberto Marinho em 1939. Naquela época, a palavra designava um moleque negrinho que, não por acaso, era o mascote da publicação. A revista se popularizou tanto que hoje é sinônimo de quadrinhos, é sinônimo de revista em quadrinhos e gerou expressões populares como “não está no gibi”.

“Quando Will Eisner começou a usar o termo graphic novel, estava no telefone tentando vender Um Contrato com Deus para um editor em potencial. Ele tirou isso do seu rabo porque ele tinha que chamar essa coisa de algo que o fizesse passar pelas portas da editora. De algum modo, essa conversa telefônica é a versão icônica e embrionária do que aconteceu durante os últimos 20 e tantos anos: tínhamos um termo que nos ajudava a passar pela porta, e era isso. Cada meio tem seus termos diferentes. Você pode ir ver um ‘filme’ mas então você escreve sobre uma ‘película’, e então coloca o seu smoking e vai para uma cerimônia de premiação da Academia de ‘Artes Cinematográficas'”, declara Scott McCloud, autor do seminal livro Desvendando os Quadrinhos, em entrevista a Christopher Irving, em seu livro Leaping Tall Buildings.

“Toda mídia que tenha uma marca real em nossa cultura deve ter diferentes maneiras de apresentação: há o modo formal, o modo crítico, e o modo cerimonial. Você pode ter uma Academia de Arte Sequencial, e quando as pessoas acabam seu trabalho, elas vão para sua casa e leem alguns gibis.”, McCloud continua, “Não há nada de errado com isso”.

Graphic Novel agora é um gibi vitaminado, encorpado, anabolizado. Vendido às massas e não a uma “nata” seleta de influenciadores, apesar de muitas quererem parecer isso. Graphic Novels têm tiragem de centenas de milhares e têm tiragens sob demanda. Atingem o vovô ex-militar do regime e a faxineira que acabou de ascender de classe. Atingem o “culturete” e o “culturete enrustido”. Falam de amor, de poder, de piadas, de super-heróis, do cachorro da vizinha, da mochila esfarrapada, da luta de classes e dos privilégios, dos marginalizados e dos entendidos. Graphic Novels são o sistema, graphic novels vão contra o sistema. Graphic Novels são BomBril, são O.B., são iPod, são Gillette, são Gibis.

Anúncios

2 Comments

  1. Ouvi num Quadrincast sobre o Asterix que o termo “gibi”, criado pelo Roberto Marinho, é a pronuncia da sigla em inglês para Graphic Book…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s