O descaso com a América Latina nas revistas de Super-Heróis

Ser brasileiro é FOGO!
Ser brasileiro é FOGO!

Há uma máxima no mercado de quadrinhos que diz que para se dar bem nas HQs americanas como roteirista é preciso conhecer a cultura e as localidades dos Estados Unidos. Bem, é seguro dizer que estamos imersos na cultura dos Estados Unidos aqui no Brasil. Não que isso seja ruim, mas não seria melhor se todos os países fossem bem representados nas revistas dos nossos tão queridos heróis?

Pensem bem, que representações temos dos brasileiros nas revistas da Marvel e DC? Temos Fogo, Beatriz DACOSTA, uma ex-espiã da ANS, que é a representação da periguete em todo Universo DC. Na Marvel, temos o Mancha Solar, Roberto DACOSTA (assim mesmo, tudo junto), um ex-jogador de futebol, um latin lover. Ambos são do Rio de Janeiro. Ambos são DACOSTA. Ambos são safados. Ambos tem poderes a ver com temperatura elevada. Legal essa nossa imagem, né? Temos também a travesti Lorde Fanny, de Os Invisíveis, uma xamã brasileira que foi criada no México.

Beto Jamaaaicaaa! Mancha Solar no novo filme dos X-Men, usando a bandeira da Jamica e interpretado por um mexicano.
Beto Jamaaaicaaa! Mancha Solar no novo filme dos X-Men, usando a bandeira da Jamaica e interpretado por um mexicano.

Bom, então tá, fora essa fama de Brasileirinhas, já repararam que muito raramente, quando acontecem eventos de abrangência mundial nos quadrinhos americanos, apareça algum local da América Latina? Além disso, nas sagas de realidade alternativa, como A Era do Apocalipse e Ponto de Ignição (Flashpoint), a América Latina é Terra Devastada. Na primeira, o continente explodiu num Holocausto (literalmente) nuclear. Na segunda, ocorreu o mesmo, só que ela é habitada por monstros deformados e nazistas.

A América Latina? Que se exploda!
A América Latina? Que se exploda!

Aliás se tem uma coisa que o Brasil e a Argentina servem no mundo dos super-heróis é para ser abrigo de Nazistas. Não? Pra onde o Magneto vai em X-Men: First Class para matar o seu algoz dos campos de concentração? Quem respondeu aqui ganha o troféu cata-piolho. Fora servir para bases da HIDRA, do Kobra e outros neonazis.

Ah, mas você vai dizer, agora tem novos personagens, que honram nossa cultura, como Ya’Wara, dos Outros e a Garota-Tubarão, de Wolverine & Os X-Men. Legal. Parece que vieram daquele episódio dos Simpsons que tira sarro do Brasil. Uma anda com onças e panteras e a outra é um tubarão! Só tem bicho aqui nessa selva mesmo. Não querem criar o Garoto-Macaco ou a Mulher-Tamanduá?

Eu sou uma índia, sou filha da Lua, sou filha do Sol...
Eu sou uma índia, sou filha da Lua, sou filha do Sol…

Não falo só do Brasil, onde se fala espanhol e os habitantes daqui gritam “Madre de Dios!”. No arco de histórias do Hulk Vermelho, Mayan Rule (Jeff Parker e Dale Eaglesham) , os Hulks se juntam à Tropa Alfa para impedir o avanço dos Deuses Maias sobre a América Central, logo no ano da suposta destruição do planeta, 2012. Para auxiliar o povo da América do Sul, o Capitão América chama reforços. Só que nenhum deles é um Latino Americano, a não ser pela Garra de Prata. Todos são latinos, mas latinos estadunidenses: Relâmpago Vivo, Asa de Fogo, Velocidad, Toro… E de qualquer forma, por que latinos tem que salvar latinos? Por acaso super-heróis negros só salvam pessoas negras?

One, two, trees little indians... together in a little boat.
One, two, trees little indians… together in a little boat.

Essa semana foi anunciada uma nova HQ de Warren Ellis. Ela se chama Trees e sua história começa no Brasil, com direito a drones (?), favelas e polícia pacificadora. Ou seja, mais de 170 milhões de brasileiros estão reduzidos ao Rio de Janeiro, às favelas, ao samba e ao funk ostentação, às bundas e ao sexo, aos travestis, à selva e aos bichos. Aí vão dizer: ah, gente, quéisso, não tem nada a ver, é só pro leitor poder sentir que está no lugar, como a maioria das pessoas pensa que é. Ok, mas não é muito mais divertido conhecer um lugar diferente, da maneira que Brian Wood faz no seu The Massive, com uma extensa pesquisa da localidade? Então, pessoal lá dos states, eu imagino que para ser um roteirista de sucesso no mundo todo, que agrade gregos e baianos, é preciso conhecer o mundo, e tentar abraçá-lo (no sentido de acalentar) enquanto se escreve uma publicação de nível internacional. Né não?

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