Mês: março 2014

Glamour Selvagem – Fashion Beast: A Fera da Moda, de Alan Moore, Malcolm McLaren, Anthony Johnston e Facundo Percio.

No prefácio desta edição, Alan Moore apresenta Malcolm McLaren (responsável pelo apogeu e queda do Sex Pistols) como um homem que quer os holofotes sobre si, atraindo a atenção da imprensa marrom (amarela, em língua inglesa, graças ao personagem de quadrinhos Yellow Kid), causando polêmica, buscando sempre uma nova maneira de sobressair-se sobre os outros, criando novidades e desprezando o que criou anteriormente. Temos aí um bom retrato que, num maravilhoso ato falho, Alan Moore faz de si mesmo, aturdido pela persona de Malcolm McLaren. Cabe explicar que Fashion Beast é a adaptação para quadrinhos de um roteiro perdido de Alan Moore em parceria com Malcolm McLaren. Este último acreditava que a fusão de quadrinhos e cinema seria a nova grande onda mundial (lá nos anos 80, hein, até que o cara entendia da coisa). McLaren acreditava que um roteirista de quadrinhos poderia trazer um novo vigor para o cinema por causa das fusões e transições que os dois meios são capazes de gerar. Coube a Anthony Johnson e Facundo Percio fazerem o caminho contrário, …

Y: O Último Homem – Uma Análise

Y: O Último Homem faz parte de uma tendência de histórias escritas no rastro do 11 de setembro de 2001. O atentado às Torres Gêmeas propiciou a volta de temáticas pós-apocalipticas como uma espécie de mecanismo de defesa para os americanos. Refilmagens de filmes de mortos-vivos como Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder e Extermínio, de Danny Boyle. Mais recentemente temos a refilmagem de Eu Sou a Lenda, protagonizado por Will Smith (duas versões anteriores haviam sido feitas; uma estrelada pelo mais notável ator de filmes de terror, Vincent Price, em 1964, e outra, por Chalton Heston, em 1971),  filme que conta a batalha de um homem contra outros homens que se tornaram vampiros. Heidi MacDonald, a editora original da série de Yorick chama o título de “ficção científica social”:”Enquanto há muito drama e aventura no gibi, também existe uma surpresa em toda edição. Brian fez uma tonelada de tema de casa e criou um mundo inteiro que é ao mesmo tempo familiar e também horrivelmente chocante”.Mas é em Filhos da Esperança, filme de 2006, …

O mundo e os personagens de Y: O Último Homem

“Na ficção, todas as sociedades formadas apenas por mulheres são geralmente retratadas tanto como reinos perfeitos onde a guerra e a intolerância foram completamente eliminadas, ou como impérios fascistas governado por lésbicas que odeiam homens”, disse Vaughan. “Estes mundos sem homens quase nunca refletem a complexidade e diversidade das mulheres reais”. Duas delas têm uma importância vital na série Y: O Último Homem: a Agente 355 e a Dra. Allison Mann. A Agente 355 serve como guarda-costas de Yorick. Versada nas mais diferentes formas de combate ela guarda consigo o segredo do Culper Ring e a missão de conduzir o último homem a um destino seguro. Adepta das armas de fogo, sua principal arma é um cacetete. O nome da personagem nunca é revelado na trama, mas o escritor confessou que muitas pistas foram plantadas no sentido do leitor descobri-lo. Na realidade, existiu um agente 355 durante a Revolução Americana, ele era um espião cuja identidade nunca foi revelada. A Dra. Allison Mann se sente culpada por ter iniciado a praga, devido a suas pesquisas …

Conheça Y: O Último Homem

Morte e sexo. Dois temas que atraem as pessoas. Eles são o estopim da trama de Y: O Último Homem. O ano é 2002 e uma praga arrasou a civilização e todos os machos, ou seja, todos portadores do cromossomo Y, são erradicados da face da Terra. Todos? Não.Um artista de fugas, recém formado em Letras e seu macaco capuchinho resistem bravamente. Y: O Último Homem, junto com Fábulas, de Bill Willingham, veio para dar um novo fôlego para o selo Vertigo. Escrita por Brian K.Vaughan (Ex Machina, Fugitivos, Ultimate X-Men) e desenhada pela estreante Pia Guerra, a série é uma ótima recomendação para aquele seu amigo que não lê quadrinhos regularmente e também é uma forma de trazê-lo para o mundo dos quadrinhos, tal é seu poder de prender o leitor. Muito já se falou que os méritos são dos cliffhangers, as pontas soltas, que Vaughan deixa na história e das quais é mestre. Você TEM que saber o que acontece depois. É impossível ficar indiferente. Além de haver os cliffhangers de cada história …

Os Bastidores da Criação: Leaping Tall Buidings, de Christopher Irving e Seth Kushner

Este é um livros sobre a história dos quadrinhos diferente. Muito mais do que contar o ponto de vista num plano geral da indústria de quadrinhos norte-americana, o livro com texto de Chistopher Irving e fotos de Seth Kushner, apresenta a visão dos criadores sobre sua produção e criação. O livrão, de capa dura e papel com gramatura alta, é muito bonito. Desde seu acabamento a diagramação. É editado pela Powerhouse, uma casa publicadora conhecida por seus livrões belíssimos e vanguardistas, como o livro Lovemarks, que grande parte dos publicitários deve conhecer. Mas o que torna esse livro mais bonito são as fotos de Kushner. São fotos posadas, como se víssemos um ensaio de nossos ídolos criadores de quadrinhos, em lugares urbanos, típicos das cidades que vemos nossos amigos super-heróis transitando. É difícil encontrar fotos boas dos criadores de quadrinhos. O que se encontra por aí e na Wikipédia, geralmente são fotos de convenções, com os quadrinistas vestindo crachás em roupas questionáveis. O texto também não fica à parte. Irving fez um ótimo trabalho conseguindo …

Os sonhos e pesadelos de Sandman

Sonhos estão sempre presentes nos quadrinhos, podemos vivenciar os maiores medos e os maiores desejos dos personagens. Entretanto, nas histórias em quadrinhos de super-heróis esses parecem ser os únicos aspectos dos sonhos que existem. Existem milhares de histórias aí para provar. Mas fica mais estranho quando somos apresentados a sonhos e pesadelos de grupos, pois todos parecem sonhar da mesma maneira ao mesmo tempo. O que não acontece muito parecido na vida real. Dividir os personagens vem de uma tradição desde que o primeiro grupo de super-heróis, a Sociedade da Justiça, foi criada. Nessas histórias não havia muta interação entre os heróis e cada um devia responder por uma parte do combate. O mesmo acontecia na Era de Prata, com a Liga da Justiça: cada personagem resolvia uma parte do problema e ainda garantia uma aula de ciências para seus alunos-leitores, bem no estilo Era Atômica. Assim foi ao longo do tempo, com os personagens acordando sobressaltados ou porque tiveram uma visão do futuro, remoeram algo do passado, viram seu maior desejo e não gostaram …

10 motivos para você respeitar Jim Lee

Ele gosta de Kit-Kat de morango – coisa que só se encontra no Japão (ei, mas ele é sul-coreano!) – mas esse não é um motivo para respeitá-lo. Afinal, quem não gosta de Kit-Kat? Jim Lee é, hoje, um dos artistas e narradores mais influentes dos quadrinhos de super-heróis. Muito além dos anos 90, ele refez sua “image” ao longo dos anos, conforme o mercado de quadrinhos foi mudando. Ele foi se adaptando, crescendo e se mostrando uma das maiores forças criativas dos últimos 30 anos no quadrinhos. ESTILO: Com suas hachuras e estilo detalhado, mas não rebuscado, com um frescor moderno, Jim Lee passou da Tropa Alfa, para o Justiceiro e, então, para os X-Men. CÓPIAS: Durante os anos 90, uma forma de garantir que seus desenhos fossem aceitos pela Marvel e DC, o jeito era imitar Jim Lee. Muitos artistas renomados de hoje começaram assim e depois desenvolveram seu próprio estilo. NÚMEROS: A revista X-Men #1 (1991), escrita por Chris Claremont e desenhada por Jim Lee, ostenta, até hoje, o recorde de revista …

Tudo vira Hulk, ou, a importância dos coadjuvantes.

Ao salvar o jovem Rick Jones da explosão da bomba gama, o Dr. Robert Bruce Banner foi atingido pela explosão e se tornou o Incrível Hulk. Assim era criado um dos maiores super e anti-heróis de todos os tempos, mas também se criava um dos maiores coadjuvantes das histórias dos quadrinhos. Rick Jones foi um dos catalisadores da primeira formação dos Vingadores, já foi parceiro do Capitão América, já salvou o universo da guerra Kree-Skrull, já trocou de lugar com o Capitão Marvel através dos braceletes quânticos. Sempre teve um papel de destaque no Universo Marvel e era, com grande honra, um coadjuvante. Era. Desde sempre a Academia de Artes Cinematográficas e grande parte dos prêmios de cinema vêm laureando os melhores personagens coadjuvantes na forma do prêmio de ator/atriz coadjuvante. Um personagem principal só se torna forte por causa dos coadjuvantes que o rodeiam e pela dinâmica entre eles. À medida que essa dinâmica evolui, vão mudando as opiniões dos personagens secundários e também a do leitor. O personagem secundário cria as tensões que …

10 Motivos Para Ler Valiant Comics

Lançadas ano passado pela HQM Editora, as revistas da Valiant Comics são um boa pedida pra quem quer histórias de super-heróis que respeitam os leitores. São dois títulos nas bancas brasileiras: X-O Manowar e Universo Valiant da editora criada na década de 80 pelo ex-editor-chefe da Marvel Jim Shooter. A Valiant foi uma das editoras que pereceram na bolha especulativa dos anos 90. Ela foi comprada pela criadora de videogames Acclaim, que faliu em seguida. Retornando nos anos 2010, quando os direitos sobre seus personagens foram comprados por novos investidores. Recriada, ela veio com toda a força, e com novos donos, vieram novos criadores e uma nova roupagem para seus personagens, sem perder aquilo que os fez memoráveis. Aqui vão dez motivos para você não perder este “novo universo”: INEDITISMO: Os quadrinhos da Valiant são inéditos no Brasil. Nem em sua versão anterior foram publicados aqui. A editora se torna uma alternativa para personagens super-conhecidos da Marvel e da DC Comics. CRIADORES: A editora conta com talentos da nova geração que merecem uma espiada. Robert …

A Cultura dos Spoilers

Spoiler você sabe o que é, ao menos se lê quadrinhos. É aquela informação bombástica, que muda toda a história. Uma revelação do que vai acontecer no futuro. É como o que as revistas de fofoca estilo Contigo e TiTiTi fazem com as novelas. Só que, no mundo dos quadrinhos, os melhores representantes de revistas de fofocas são os fóruns da internet. Antes da internet, não havia toda essa comoção ao redor dos spoilers, era preciso garimpar muito para achar o que ia acontecer na próxima edição, mesmo as revistas brasileiras tendo uma defasagem de dois anos com os EUA. Já fui um caçador de spoilers, fuçava em fóruns para ficar sabendo o que ia acontecer em cada série, e, bem, já estava me frustrando com os quadrinhos. Mesmo depois, toda hora saía uma notícia bombástica estragando minha surpresa. Como dizem, o melhor não é susto, é o suspense. O melhor não é chegada, mas o caminho trilhado. Se fosse assim, nascíamos mortos. Se fosse assim, Lost não teria feito sucesso. Minha opinião mudou quando o …

Revolução e Devolução – Cuba: Minha Revolução, de Inverna Lockpez e Dean Haspiel

Muitos filmes e HQs falam sobre a invasão da Baía dos Porcos, a Crise dos Mísseis de Cuba, o assassinato de Kennedy, mas poucos tratam da experiência de alguém que estava vivendo aquele momento em Cuba. Também há muitos filmes e HQ que falam do lado revolucionário, de Che (de Enrique Breccia e Héctor Germán Oesterheld) e Fidel (de Reinhard Kleist) ou até mesmo de Celia Sánchez, mas o olhar do homem comum sempre é posto de lado. Cuba: Minha Revolução vem pra corrigir este erro. A graphic novel, lançada pela Vertigo, é uma história semiautobiográfica da artista, médica e exilada Inverna Lockpez. Junto com ela e sua personagem fictícia, Sonya, acompanhamos os horrores do combate – como não podia deixar de ser. Vemos o ufanismo revolucionário e a confiança do espírito jovem que crê que com uma revolução tudo dará certo e será melhor do que antes. Esse sentimento permeia a personagem durante quase todo o livro. Mesmo quando ela é presa e torturada por membros do seu próprio partido, ela ainda crê na …

Mashup #1: Quadrinhos A2 e Pato Fu

Hoje, estava escutando Pato Fu e aí, por alguma razão, eu lembrei dos Quadrinhos A2, de Paulo Crumbim e Cristina Eiko. Eles são um casal (e um cachorro) que publica webcomics no seu site http://www.quadrinhosa2.com e já lançaram três coletâneas. Ainda que eu achasse que, pelo nome, eles poderiam fazer quadrinhos eróticos como o Motel A2 aqui de Porto Alegre e depois evoluísse sua numeração para Quadrinhos A3, A4 e ABonecaInflável (sem dispensar o tradicional quadrinho A1), não se trata de nada pornô. São quadrinhos autobiográficos que, sim, nos levam a ter intimidade com os autores, mas não essa intimidade que você pensou, cabeça suja. O diferencial dos quadrinhos autobiográficos de Crumbim e Eiko é que eles são pequenos contos de cenas do cotidiano (sabe aquele quadrinho slice of life?), só que com grandes pitadas de imaginação, humor e de não se levar a sério tanto assim. Mais ou menos como as músicas do Pato Fu, que também são capitaneadas por um casal: Fernanda Takai e John. As músicas da banda mineira têm um quê …

Quadrinhos são como música para nossos ouvidos

“Os quadrinhos são o rock’n’roll da literatura, porque não dão necessariamente a eles aquele certo peso de respeito, mas são essa fascinante e empolgante mídia híbrida. Rock’n’roll não é exatamente um coisa só. Combina rockabilly, jazz, gospel – todos estes – e é copiado de si mesmo toda hora, tornando-o chato e azedo, mas toda vez que toma algo de fora de seu campo, e a absorve naquilo que está sendo feito, torna-se algo inerente e vital. Eu vejo a narrativa nos quadrinhos da mesma maneira. Quando as pessoas estão copiando algo de alguma coisa preexistente e tentando parecer com isso, não é interessante para mim, mas quando alguém está utilizando aquele formato que já está lá e se posicionando nos ombros de gigantes que já estiveram lá, mas adicionando algo novo, está dando o próximo passo e adicionando um novo e interessante vocabulário para o meio. É essa a maneira que me empolga”. – David Mack, em entrevista para Christopher Irving em Leaping Tall Buildings. “Para mim, Kirby num sentido visual é como a …