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Tudo vira Hulk, ou, a importância dos coadjuvantes.

Ao salvar o jovem Rick Jones da explosão da bomba gama, o Dr. Robert Bruce Banner foi atingido pela explosão e se tornou o Incrível Hulk. Assim era criado um dos maiores super e anti-heróis de todos os tempos, mas também se criava um dos maiores coadjuvantes das histórias dos quadrinhos. Rick Jones foi um dos catalisadores da primeira formação dos Vingadores, já foi parceiro do Capitão América, já salvou o universo da guerra Kree-Skrull, já trocou de lugar com o Capitão Marvel através dos braceletes quânticos. Sempre teve um papel de destaque no Universo Marvel e era, com grande honra, um coadjuvante. Era.

Estava à toa na vida, o Banner me chamou, pra ver a bomba passar e no que se transformou...

Estava à toa na vida, o Banner me chamou, pra ver a bomba passar e no que se transformou…

Desde sempre a Academia de Artes Cinematográficas e grande parte dos prêmios de cinema vêm laureando os melhores personagens coadjuvantes na forma do prêmio de ator/atriz coadjuvante. Um personagem principal só se torna forte por causa dos coadjuvantes que o rodeiam e pela dinâmica entre eles. À medida que essa dinâmica evolui, vão mudando as opiniões dos personagens secundários e também a do leitor. O personagem secundário cria as tensões que vão definir o personagem principal, seja conflitando com ele ou se colocando em perigo. Imagine, por exemplo, a dinâmica Jimmy Olsen/Superman ou Lois Lane/Superman. Dois coadjuvantes que ganharam série própria.

No caso do Hulk, tudo ia bem, até que o psiquiatra Dr. Leonard Samson também foi irradiado com raios gama. Tudo ok, é interessante o ponto de vista de um analista superpoderoso que aconselha toda uma comunidade superheroica. Mas tudo degringolou quando o avatar dos personagens coadjuvantes de destaque se transformou num superpoderoso Bomba-A. Rick Jones agora é um vitaminado Abominável Azul. Não pense que só foi ele o único coadjuvante do Verdão que sofreu. Agora, o nêmese de Bruce Banner, o General Thadeus “Thunderbolt” Ross, é o Hulk Vermelho. Betty Banner, seu amor e filha de Ross, é a Mulher-Hulk Vermelha. Sem contar Skaar, filho alienígena do Hulk e Llyra, a Selvagem Mulher-Hulk, filha do monstro verde de um futuro alternativo. Ah, sim, e Jennifer Walters, a Sensacional Mulher-Hulk, prima de Banner. Mas essa é um caso todo especial. De qualquer forma, agora tudo vira Hulk nas histórias do Hulk.

...mas para meu desencanto, o que era doce acabou, depois que bomba passou e quem ela transformou.

…mas para meu desencanto, o que era doce acabou, depois que bomba passou e quem ela transformou.

Um personagem coadjuvante superpoderoso não se faz com bombas gama. Mesmo no caso das narrativas do Hulk. Ao longo dos anos, vários escritores souberam trabalhar esse poder do secundário dentro da mitologia do Golias Esmeralda. Peter David nos trouxe Marlo Chandler e o Panteão. Greg Pak, O Pacto de Guerra, em Planeta Hulk. E agora, Mark Waid monta toda uma equipe de pesquisa para acompanhar Bruce e o robô R.O.B. enquanto agente da S.H.I.E.L.D. . Não é muito mais divertido ver como os auxiliares funcionam, mostrando suas peculiaridades e suas fragilidades, como dizem por aí nos reality shows?

Não que as histórias do Hulk e da Mulher-Hulk Vermelhos não sejam legais. Elas são muito interessantes, principalmente sob a batuta de Jeff Parker. Mas ao tornar estes personagens tão poderosos ou mais que o Hulk original, eles perdem sua utilidade. Tanto que é difícil ver uma história em que todos os Hulks participem e que funcione direito. Eles tiveram que migrar para suas próprias séries, ou participar de uma terceira, como no caso dos Thunderbolts, liderados pelo Hulk Vermelho.

Existia uma certa tensão recalcada-beijinho-no-ombro-das-inimiga entre Bruce Banner e Thunderbolt Ross. Mas isso enquanto um era uma arma viva e o outro era um comandante de todo um exército que a perseguia. Um exército de um homem só contra um homem só do exército. Essa era a dinâmica que não deveria ser esquecida. O mesmo para Betty: a mulher em perigo, o amor inalcançável, a esposa separada, a mulher que acabou morta pela radiação. Fragilidade, saca? Outro ponto frágil do monstro verde. Mas um ponto delicado que não é o “fracote do Banner”, é algo externo, que, por mais que o Hulk controle sua transformação, ele terá que ativá-la para salvar Betty, e terá de enfrentar Ross, que é o pai dela. Esse é o dilema. Um dilema que se perdeu superpoderosamente. E com ele, boa parte da graça da história.

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