Y: O Último Homem – Uma Análise

Vincent Price em The Last Man on Earth
Vincent Price em The Last Man on Earth

Y: O Último Homem faz parte de uma tendência de histórias escritas no rastro do 11 de setembro de 2001. O atentado às Torres Gêmeas propiciou a volta de temáticas pós-apocalipticas como uma espécie de mecanismo de defesa para os americanos. Refilmagens de filmes de mortos-vivos como Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder e Extermínio, de Danny Boyle. Mais recentemente temos a refilmagem de Eu Sou a Lenda, protagonizado por Will Smith (duas versões anteriores haviam sido feitas; uma estrelada pelo mais notável ator de filmes de terror, Vincent Price, em 1964, e outra, por Chalton Heston, em 1971),  filme que conta a batalha de um homem contra outros homens que se tornaram vampiros.

Heidi MacDonald, a editora original da série de Yorick chama o título de “ficção científica social”:”Enquanto há muito drama e aventura no gibi, também existe uma surpresa em toda edição. Brian fez uma tonelada de tema de casa e criou um mundo inteiro que é ao mesmo tempo familiar e também horrivelmente chocante”.Mas é em Filhos da Esperança, filme de 2006, que a história da Vertigo encontra mais paralelos. A película, dirigida por Alfonso Cuarón, retrata um futuro distópico, onde as mulheres não engravidam mais e as pessoas mais jovens da terra são tidas como celebridades. Entretanto, uma refugiada acaba dando à luz uma criança, que deve ser protegida a todo custo. Nas duas obras uma pessoa é tida como o redentor da humanidade, a chave para contornar o cenário apocalíptico. A mensagem em todas estas histórias é a mesma que encontramos n’Os Mortos-Vivos, de Robert Kirkman: “nós sobreviveremos”. Não por acaso, Brian K. Vaughan trabalhava próximo ao World Trade Center quando ocorreu o atentado.

Filhos da Esperança (Chlidren of men): temática semelhante à de Y: O Último Homem
Filhos da Esperança (Chlidren of men): temática semelhante à de Y: O Último Homem

E, como foi dito no início, a série lida com morte e sexo, porém, não da maneira convencional. Há um arco de histórias que foi completamente dedicado ao tema e foi base para um estudo acadêmico. O arco, Safeworld, que ocorre entre as edições 18 a 23, gira em torno de Yorick sendo confrontado com sua culpa de sobrevivente. Para isso, a Agente 711, colega de 355 no Culper Ring, prepara uma intervenção suicida que envolve bondage, humilhação, ameaça de estupro e tentativa de assassinato. Durante o processo, é descoberta a “origem secreta” de Yorick, uma possível razão pela qual ele hoje é um artista de fugas. Yorick retorna à sua primeira experiência sexual, que é retratada através de polaróides, deixando a interpretação da cena para o leitor. Mais para frente, nos deparamos com outras visões do personagem sobre sexo envolvendo fantasias, simbolismo e alucinações. Brian K. Vaughan conta essas cenas usando sempre de narrativa subjetiva. Isso leva Yorick, primeiro a implorar por sua morte, para depois emergir com seus instintos suicidas transformados em desejo de viver. 711 tenta explicar dizendo que isso faz parte de “uma forma de terapia de aversão… baseado na idéia de que sua sexualidade e mortalidade são elementos indissolúveis da…” e então é interrompida. Os leitores nunca saberiam a resposta. Imagino que aqui caberia a palavra “vida”. Assim como Yorick passa por uma intervenção que envolve sexo e morte para voltar a se agarrar à vida, os americanos, depois de passarem por uma experiência traumática como o 11 de setembro, necessitam de obras semelhantes à Y para retomarem a esperança e a força para levar suas vidas adiante.

O final da série traz um questionamento semelhante, mas também realça a maestria de Vaughan em realçar a humanidade nos personagens que escreve. Um acontecimento em um dos últimos números da série enche o leitor de arrebatamento, subvertendo e enchendo de significado um dos elementos mais banais da história dos quadrinhos. Esse fato fez  valer as palavras do criador quando definiu a revista: “Esta série é sobre a jornada de um jovem homem tentando salvar a raça humana… e para, quem sabe, descobrir o que significa realmente ser um Homem ao longo do caminho”.

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