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A Revolução dos Bichos – Sweet Tooth: Depois do Apocalipse, de Jeff Lemire

Doce, doce, doce, a vida é um doce, a vida é mel...

Doce, doce, doce, a vida é um doce, a vida é mel…

Mês passado chegou ao final a série do menino-veado (ou do veado-menino?), Sweet Tooth. Escrita por Jeff Lemire, o novo autor-sensação dos Estados Unidos (e do Canadá também), a série cativou os leitores por seus textos cheios de graciosidade e seu ambiente pós-apocalíptico, como um substituto certeiro para Y: O Último Homem.

Lemire começou sua carreira com uma série de três álbuns com histórias de cunho familiar que se passavam no interior do Canadá. A compilação delas veio a se chamar Essex County. Assim, ele foi chamado para escrever as histórias do Superboy, que se passavam no interior do Kansas (a série, infelizmente não foi publicada no Brasil). Dali para a os Novos 52 foi um salto, quando se viu Lemire vinha abocanhando títulos e mais títulos, seja individualmente, ou em pareceria com outros autores indies canadenses como Matt Kindt e Ray Fawkes. Mas, entre Essex County e Superboy, houve o advento de Sweet Tooth.

A premissa da série autoral da Vertigo era a de um mundo em que existe uma praga e as pessoas vão morrendo vítimas de purulências pelo corpo. Paralelo a isso, desde o dia em que foi deflagrada, a praga vêm tornando os partos bem diferentes. As crianças nascem híbridas de animais e humanos. Gus, o híbrido garoto/veado, é bem mais velho que os outros híbridos e especula-se que ele seja o primeiro. Isso o torna procurado. Para defendê-lo ele contará com a ajuda do grandão Jepperd.

Jeff Lemire, você pensa que é bonito ser feio?

Jeff Lemire, você pensa que é bonito ser feio?

A HISTÓRIA DA FEIÚRA

Os desenhos de Lemire são e foram muito criticados pelos leitores acostumados com um desenho mais mainstream. Há problemas com anatomia, perspectiva, mas quando se trata de narrativa e layout Lemire dá um show. Além disso, a feiúra do seu desenho também é uma explicação para engolirmos melhor os híbridos, de uma maneira que desenhos bonitinhos não compensariam. O que me faz lembrar a capa do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que tínhamos em casa e que me assustava. Na capa, era um porco, mas se abríssemos a capa veríamos que na parte de trás do suíno havia os membros posteriores de um homem. É esse assombro que os desenhos de Lemire nos ajudam a deglutir melhor, de maneira que ficamos maravilhados sem sentirmos uma perturbação que nos faria dispensar a revista.

Candy Dates

Candy Dates

Porém o que conquista em Sweet Tooth, está além dos quesitos gráficos, mas do textual. Por estar lidando com crianças em um mundo devastado, tendo de amadurecer mais rapidamente, o autor contrabalança a desolação com a ternura. Em um ótimo trabalho de adaptação e tradução, as falas dos garotos híbridos, como Gus e Bobby têm uma repercussão maior entre a gente, pois se repara que ambos os personagens não desenvolveram direito seu discurso. Um deles come letras, como um caipira ou uma criança muito pequena, e o outro, se expressa apenas em verbos e substantivos. Esse discurso dos híbridos denota sua simplicidade e mostra a sua vulnerabilidade. Existem cenas chocantes, e existem cenas tocantes, capazes de agradar até os mais duros corações, fazer se retorcerem os estômagos mais fortes, e fazer os mais céticos vibrarem.

ÚLTIMO HOMEM = PRIMEIRO HÍBRIDO

Mas voltando à comparação com Y, é patente que existem muitas semelhanças. A praga, um  mundo pós-desastre, teorias para o que aconteceu desde científicas a místicas, temos um guardião para o herói (355 e Jepperd), temos um doutor (Dra. Mann e Dr. Singh)e até a nêmese do protagonista é parecida (Alter e Abbot) e um mundo explorado rico de coadjuvantes. O decorrer da história, claro, é bem diferente, com algumas surpresas no final. Mais uma série que deixará saudade, assim como Y, Ex machina e tantas outras. Porque doçura nunca é demais. E que os Vigilantes do Peso não me persigam.

Este post foi publicado em: quadrinhos, Resenhas

por

Guilherme “Smee” Sfredo Miorando nasceu em Erechim em 1984. Já deu aula de quadrinhos, trabalhou com design e venda de livros e publicidade. Faz parte do conselho editorial da Não Editora. Co-roteirizou o premiado curta-metragem Todos os Balões vão Para o Céu. Seu livro de contos Vemos as Coisas como Somos foi selecionado pelo IEL-RS em 2012. Publicou em 2014 a HQ Fratura Exposta e sua primeira narrativa longa, Loja de Conveniências. Em 2015 lançou a antologia FUGA, de HQs com seu roteiro. Possui o blog sobre quadrinhos splashpages.wordpress.com

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