Entrevista com Estevão Ribeiro

capa_projeto_final1 (1)Autor das tirinhas d’ Os Passarinhos, de muitos outros quadrinhos e livros, Estevão Ribeiro está dando continuidade ao projeto iniciado com Pequenos Heróis, em que, através de histórias curtas e sem texto, homenageava heróis da DC Comics. O diferencial é que estes heróis tão famosos são incorporados em crianças em suas atividades do dia a dia. Agora, ele e mais um grupo de artistas talentosos, lançam Futuros Heróis, homenageando os super-heróis da Marvel. E vem mais coisa por aí. Confere aí nessa entrevista:

Como surgiu a ideia para fazer os álbuns da série Pequenos/Futuros Heróis?

A ideia de Pequenos Heróis surgiu de uma cena que vi. Garotos correndo atrás de uma pipa. Eu sempre achei o formato de uma pipa como o símbolo do Superman, e tentei fazer um curta de animação sobre o tema. Era uma época ótima para animação na DC Comics, era estréia de Liga da Justiça Sem Limites e a vontade de fazer parte daquilo era grande. Aí eu já não queria fazer um curta com referências à DC, queria fazer vários.

Mas, devido às limitações, era impossível fazer um curta. Resolvi então transformar numa história em quadrinhos. Então escolhi Mário César para trabalhar na arte, pois já tínhamos feito um trabalho juntos e eu sabia que podia contar com ele.

Mário não só terminou a história como ajudou a encontrar outros ilustradores para as outras homenagens. Aí fazíamos o convite, oferecíamos algumas opções, e o resto é história.

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Por que você escolheu estes heróis dentre tantos criados na Marvel e na Dc Comics?

Primeiro, porque são os mais conhecidos dos leitores e rendiam boas histórias. Não adianta pegar um personagem obscuro, por mais que renda uma ótima história, se a referência se perder.

Apesar de não ser necessário conhecer os personagens para ler e curtir as histórias, a experiência fica mais rica se o leitor conhecer os homenageados, sem dúvida.

E também, esses personagens tinham mais a ver com o perfil dos ilustradores. Raphael Salimena, por exemplo, queria ilustrar uma história do Lanterna Verde. Para o Vitor Cafaggi, ofereci o Flash, esperando que ele fizesse o estilo Puny Parker e ele veio com aquele estilo maravilhoso que o consagrou. Dei também ao Cafaggi de fazer outra homenagem ao Homem-Aranha, e isso não tem preço.

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Teremos a chance de ver álbuns com super-heróis de outras editoras?

Sim, dos Clássicos. Fantasma, Mandrake, Dick Tracy, Flash Gordon, Tex, Popeye… É uma ideia que ainda vai demorar um pouco para sair, mas está nos planos.

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 E alguma chance de outros heróis da Marvel e da DC Comics também ganharem sua homenagem?

No caso da Marvel, sim. Futuros Heróis 2, que nem entrou em produção ainda, trará homenagens aos X-Men, Vampira, Capitão América, Thor, Falcão, Motoqueiro Fantasma e Justiceiro.

Você, assim como muitos dos artistas que colaboram contigo, têm usado as publicações independentes para mostrar seu trabalho. Como você vê a autopublicação e como fazer com que ela funcione para a atual geração de criadores de quadrinhos brasileiros?

Olha, vou te dizer uma coisa sobre autopublicação: não sei se o que fiz foi. Tá certo que não fui pago, nem paguei para meus colegas. Investimos nosso tempo e trabalho num portfólio, mas nunca tirei dinheiro algum do bolso para publicar meus quadrinhos.

Os meus trabalhos vieram de diversas fontes: patrocínio, prêmio de concursos, leis de incentivo à cultura, editoras… Quando eu ia investir pela primeira vez, pondo dinheiro do bolso para a impressão de Hector & Afonso – Os Passarinhos, em 2009, a Balão Editorial apareceu e ofereceu pagar/comprar 1/3 da tiragem; fiz uma campanha pelo blog e arrecadei outros 1/3 do valor, e a gráfica com quem sempre realizava trabalhos, abateu 1/3.

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Sua tira, Os Passarinhos, surgiu antes na internet, conquistando os leitores, e depois se tornou livro impresso. Você acha que no Brasil as tirinhas têm conquistado mais espaço e discussão na internet em detrimento dos webquadrinhos seriados?

Sem dúvida. A tira pode conquistar a pessoa em um arquivo, enquanto as webcomics precisa cultivar. Se a pessoa pega a história no meio, vai precisar de um tempo para ler e isso pode desestimular.

E também hoje a atenção do internauta é dispersa. Ele lê a tirinha, curte, compartilha e segue a vida. Para o webcomic é mais custoso fisgar, mas conquista fãs tão fiéis quanto os das tirinhas quando isso acontece.

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Hoje, o crowdfunding é um passo natural para os quadrinhos da internet passarem para o papel. O que você acha desse movimento?

Na verdade, acredito que o crowdfunding é um dos passos. O passo esperadamente natural é uma editora gostar, apostar e pagar pelo produto.

O trabalho do escritor e ilustrador é criar histórias, e não ficar gastando todo o seu tempo criativo pedindo que apóiem seu projeto. É uma saída que desgasta muito o profissional.

O ideal é que tivéssemos editoras apostando como se apostam nos trabalhos lá de fora, desenvolvendo nossos próprios produtos, construindo a história gráfica/literária brasileira com o foco no autor.

Hoje o autor nacional disputa espaço com revistas de tiragens de 12 a 30 mil exemplares de revistas estrangeiras, por baixo.

Eu vi projetos de mais de 60 mil reais no Catarse, cerca de 700 pessoas apoiaram.

O financiamento numa plataforma não quer dizer que o profissional atingirá um público realmente massivo para fazer do seu quadrinho conhecido. É, para mim, mais uma forma de manter o sonho vivo, enquanto procura uma solução melhor.

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Em Pequenos/Futuros Heróis você trabalha com historias silenciosas. Qual você considera ser a chave para que uma história sem palavras seja compreendida pelo leitor?

Uma boa narrativa. Mostrar de onde o personagem está vindo, para onde vai, torcendo que o leitor preencha os espaços brancos entre um quadro e outro. É, a aplicação mais simples de histórias contadas em quadrinhos.

Qual a nova prática ou novo uso dos quadrinhos que você incorporou ao seu trabalho ultimamente?

Bem, eu sou uma pessoa que só trabalhava com o texto em meus quadrinhos e, de seis anos pra cá (menos da metade da minha carreira como quadrinhista) eu comecei a desenhar também. Isso foi graças a caneta e tablet, que me livraram da produção “manual” (papel, lápis, tinta…). Sempre fui muito sem jeito para isso.

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Em ambos os álbuns vemos que há uma grande mensagem de cooperação, ajuda aos necessitados e superação pessoal. Você acha que os quadrinhos de super-heróis de hoje continuam a passar esses ideais que você via na sua infância?

Infelizmente não. O público que lia aqueles quadrinhos cresceram e, bombardeado com os filmes de ação, acabaram fazendo trabalhos cada vez mais voltados para o público adulto.

Quadrinhos nunca foi apenas coisa de criança, mas está cada vez mais difícil fazer histórias que te transportem para um mundo diferente do que se vê na TV ou no seu dia a dia.

Não sei se foi se o autor que não queria mais ou se o leitor de acreditar, mas algo se perdeu e eu tento resgatar em todos os meus trabalhos.

Queria que os quadrinhos fossem menos séries e mais como os filmes da Pixar, sabe? Eu sei que ainda dá para fazer algo assim.

Para finalizar, você acha que a criação de quadrinhos é um trabalho para super-heróis e por quê?

Nada! Quem trabalha de verdade é a Marta, que cuida da casa aqui. Quadrinhos é trabalho para sonhadores. Pegamos os exemplos que vemos, policiais, médicos, pais, irmãos, e, para o bem ou para o mal, transformamos em histórias. Temos o melhor trabalho do mundo e o pior “salário” do mercado.
Um dia quem sabe, teremos tudo. Aí sim nos sentiremos nas nuvens, como um certo Kriptoniano…

 

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