Eu não quero ser você

 

Eu não quero ser você. Não é insensibilidade, apenas deixei de querer me mirar em alguém, de procurar um role model para a minha vida. Uma vez escrevi um texto dizendo que queria ser você. É, mas foi escrito sem nenhuma inveja na intenção. Apenas queria deixar de ser eu. Experimentar uma existência nova, mas o fato é que eu não posso. E, aos poucos, estou me acostumando com isso.

Sei que posso não saber como é ser você, mas isso, se você quiser, pode me contar. A inveja é um sentimento egoísta, porque eu não posso tê-la por você e nem você pode ter por mim. Não podemos nos colocar um no lugar do outro com este sentimento. Invejo, sim, mas invejo menos os outros do que a mim mesmo. Invejo-me do que fui e do que poderei ser, dificilmente invejo-me do que sou, porque aí a inveja seria orgulho. Não tenho orgulho de mim mesmo, nem me acho uma pessoa íntegra, mas acho que hoje, pelo menos, eu não quero ser você. Seja quem você seja, acho que hoje, eu não poderia abandonar a mim mesmo para outra pessoa. E se um dia eu resolvesse retornar?

Vendo exemplos de vida como Nick Vujicic — que não tem os braços e as pernas e ministra palestras de motivação — eu me obrigo voluntariamente a pensar como sou feliz. Felicidade é reparar como as oportunidades chegam de surpresa e como o gosto dos bons e curtos momentos fica mais doce ou apimentado por mais limitado que você tenha se tornado. Eu tenho buscado reparar nesse sentido. Sobretudo, toda noite, fazer um balanço do dia e ver se o saldo foi positivo ou não. E o incrível é que sempre, por pior que o meu dia tenha sido, eu consigo achar alguma coisa que me fez feliz.

Sim, é o princípio do wu wey, deixar que a vida aja por você, mas buscando reparar, encontrar, garimpar aquele momento que transforma o seu dia terrível num dia que mereceu ser vivido. Porque se parar para pensar em tanta gente por aí que não tem condições de viver ou que teve a vida arrancada cedo como o meu pai ou as crianças da Síria, porque não se considerar feliz? Felicidade não é um estado constante, mas ter braços e pernas e saber que sua vida não está ameaçada por algum atentado, traz um grande conforto, não é verdade?

Levar consigo o que é bom e o que é ruim, por pior que esteja esse momento, sempre há uma lembrança boa a que se apegar,  e tentar repeti-la não é demais. Sempre há qualidades e defeitos, mas tente não se comparar com os outros, porque apesar de alguns quererem ser como você, eles não sabem como é essa experiência. Só você sabe como é ser você. Só eu sei como é ser eu. Naqueles filmes em que as pessoas trocam de lugar, no final elas sempre preferem voltar a ser o que eram antes.

Por isso hoje eu não quero ser você, prefiro que você leve a sua vida e eu a minha. Você pode me apoiar, assim como eu posso te ajudar a levar a sua vida, mas inveja, acho dispensável. E se você sente isso, não tente reprimir, mas pare e pense como você pode ser feliz com a sua vida como ela é.

Em tempos de redes sociais, se a vida do outro lhe faz mal, é porque tem algo errado com a sua vida e não com a do outro. Enquanto o outro está feliz aproveitando o gosto salgado, cremoso e crocante que a vida tem, você se derrete de inveja. Então ria de si mesmo e comece a invejar você. Ou acesse menos as redes sociais. Use os outros como exemplos, não como objetos de inveja. Nick Vujicic é feliz, eu queria ser tão feliz como ele. Mas eu não queria ser ele, porque sei que não teria a força e a integridade dele para viver como ele vive. Eu sou limitado e o Nick não é. Para ser como ele, é preciso ter sabedoria. Isso eu ainda não tenho, porque ele me fez chorar a noite inteira por perceber o quanto eu sou ingrato e o muito que eu preciso agradecer. Hoje, eu não quero ser o Nick, eu não quero ser o presidente dos EUA, eu não quero ser o ganhador do Nobel, eu não quero ser você. Eu quero ser eu e levar comigo o que é bom e o que é ruim. Eu quero ser eu.

Já dizia a camiseta que a minha mãe usava com a letra música do Caetano Veloso: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

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