O Pior Conselho do Mundo, por Álvaro Borges

“Nossos papéis nada mais são do que aqueles que o tempo decide nos atribuir”.

Magneto, inimigo e aliado dos X-Men, escrito por Kieron Gillen.

“Seja você mesmo”. Esse é o pior conselho que qualquer um em qualquer situação pode dar para outra pessoa. Ou para si mesmo. Talvez as pessoas queiram dizer com isso “Seja verdadeiro” ou “Siga seu coração”. A verdade é que, bem, nem nós sabemos que somos verdadeiros, porque às vezes mentimos para nós mesmos. E seguir o coração? Hum, quem disse que estamos seguindo nosso coração e não nosso cérebro? A não ser, claro, que seja literalmente, alguém tenha roubado o seu coração e esteja fugindo com ele na mão, você pega um táxi e diz pro motorista: “Siga aquele coração!”. Mas até aí não inventaram uma maneira de vivermos sem ele, não é mesmo? Sorte de quem roubou seu coração, pois vai poder segui-lo.

 

Você pode dizer que eu estou viajando demais, mas vou abusar da sua suspensão da descrença e pedir para que você imagine: se não formos nós mesmos, quem podemos ser? Será que nós podemos sair do corpo feito um encosto e entrar no corpo de outra pessoa? Ou então trocar de cérebro com o cachorro pequinês e poder sair por aí cheirando a bunda de qualquer cadela e ver se ela está no cio? Ah, sim, também podemos mijar em qualquer lugar. Mas não! Não podemos ser outra pessoa.

Por isso “Seja você mesmo” é uma baita besteira. É como o guarda roupa da Mônica ou do Pato Donald, sabe? Só tem o seu corpo pra vestir, o seu cérebro pra usar e a sua alma pra… hum, pra que serve mesmo a alma? Mas aí tem uma coisa: não somos sempre os mesmos. Poxa, nem os super-heróis são sempre os mesmos. Tem o Batman da década de 40, o do seriado, o do desenho, o dos anos noventa com armadura e espada e tudo, tem o com símbolo amarelo, tem o do futuro, da Terra 2, tem o Batman do Frank Miller, tem o do Dennis O’Neil, o do Bob Kane, tem o do Michael Keaton, tem o do Val Kilmer, o do George Clooney, o do Christian Bale. E tem você vestido de Batman naquela festa à fantasia. É, você também tem as suas versões, seu duas caras! Seu mil caras!

 

Como eu li num livro sobre linguagem, todos nós temos uma maneira de nos portar em cada situação. Até nosso discurso muda. Com nossos amigos nós usamos “e aí, cara!”, com nossa família, nós chamamos de “você”, as pessoas mais velhas, tratamos de “senhor e senhora”, e aí vai. Tem um “você” pra cada situação. Tem o você na entrevista de emprego, tem o você bêbado, tem o você apaixonado, tem o você criança, tem o você na peça do colégio quando era o Amigo 3.


O fato é que não somos os mesmos, mudamos de segundo a segundo, como o Magneto falou ali em cima, naquela frase, somos o que o tempo faz de nós. Ou o que as pessoas fazem. Somos crápulas. Somos amigos. Somos sorrateiros. Somos baderneiros. Somos idiotas e bem espertos. Somos o herói de alguém e o vilão de outra pessoa. Para os pop nós somos indies e para os indies nós somos pop. Somos uma etiqueta, um sexo, uma profissão, uma raça, nossa religião, orientação sexual, somos um número nas pesquisas de um museu que visitamos, somos uma amostragem do censo, somos todas aquelas coisas na música do Raul Seixas. E no final não somos nós mesmos. Mas sim, somos quem podemos ser.

“If you don’t love yourself, how the hell you’re gonna love somebody else. Can I hear an Amen up in here?” – RuPaul Andre

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