Injustiça é não ler: Injustiça – Deuses Entre Nós, de Tom Taylor, Jheremy Raapack e Mike S. Miller

Injustiça: Deuses Entre Nós, de Tom Taylor, Jheremy Rapack e Mike S. Miller (Panini, 2014, 196 páginas) Tradução de Alexandre Callari e Daniel Lopes
Injustiça: Deuses Entre Nós, de Tom Taylor, Jheremy Rapack e Mike S. Miller (Panini, 2014, 196 páginas) Tradução de Alexandre Callari e Daniel Lopes

HQs baseadas em games geralmente não caem nas graças dos fãs. Nem dos fãs de games, nem dos fãs de quadrinhos. Mas Injustiça é um caso à parte. É uma história em quadrinhos que não deve nada ao jogo. Uma vez que o jogo não tem muito enredo, é apenas uma disputa de força e poder, a HQ preenche muitas brechas que poderiam ser exploradas de maneira mais detalhada.

Depois de ter produzido o jogo Mortal Kombat x DC Universe e ter falhado fragorosamente, a casa de Superman, Batman e cia, resolveu encarregar Ed Boon, dono do NetherRealm Studios e um dos criadores do Mortal Kombat para criar um novo jogo. Ed Boon é aquele carinha que aparecia no canto da tela gritando alguma palavra que você não conhecia quando criança. Isso acontecia quando se usava o ninja das sombras, Noob Saibot – que não por acaso é um anagrama do nome de Ed. Concedendo aos heróis um visual mais moderno, Ed criou uma realidade em que o Superman enlouquece, após matar acidentalmente Lois Lane e seu filho, ainda em gestação. Tudo era um plano do Coringa, que além de matar o grande amor de Clark Kent, também conseguiu destruir a cidade de Metrópolis.

O encarregado de escrever a adaptação para a HQ foi Tom Taylor, até então não muito conhecido no mundo dos quadrinhos. O roteiro deu tão certo que Taylor foi convidado para substituir o renomado James Robinson em sua fase em Terra 2. Já Injustiça ganhou duas continuações, com histórias baseadas naquele mundo. Taylor conseguiu um feito que poucas HQs baseadas em videogames atingem: uma continuidade própria. E foi além de muitas outras HQs que simulam realidades diferentes, como os Elseworlds, as revistas da linha chamada de Túnel do Tempo aqui no Brasil.

Mas o que Taylor e seus comparsas fazem nesta HQ que a fazem tão memorável? Bem, ele imagina e reimagina os super-heróis.

It's just emotion that's taken me over. Caught up in sorrow, lost in my soul.
It’s just emotion that’s taken me over.
Caught up in sorrow, lost in my soul.

Voltando a falar dos Elsewords, aqueles que são mais lembrados por todo mundo, como Gotham By Gaslight (Batman: 1789) ou Red Son (Superman: Entre a Foice e o Martelo), trabalham com a emoção. Em primeiro lugar com a emoção do personagem, aquele herói tão conhecido precisa se manter fiel às bases que o fizeram famoso, mas também precisa encarar o mundo novo à sua frente. Uma coisa que funciona bem nesses Elsewords é o determinismo, lembra, da aula de literatura? Os homens são influenciados pelo meio. São o que são por causa de seu credo, raça e classe social. Então, um bom exemplo disso, o livro O Cortiço, de Álvares de Azevedo, mostra como pessoas criadas num ambiente desfavorável são possuídas por seus desejos, sonhos e todos os “sentimentos vis” que as possuem. Super-heróis, em tese, sabem controlar esses impulsos. E é isso que faz muita gente se identificar com vilões. Vilões falham. Vilões não se controlam. Vilões erram. É essa catarse que os vilões provocam nas pessoas. Eles tem seus bons motivos para fazer o que fazem e não controlam seus impulsos. Mas, e se um super-herói sofresse uma emoção tão forte que seria incapaz de controlar esses desejos? Assim temos os Elsewords onde o meio em que os heróis vivem é outro, e, por isso, se comportam de maneira distinta. Isso é o Naturalismo da Literatura aplicada aos Super-Heróis. Assim Taylor trabalha, indo a fundo na emoção e motivação dos seus personagens, colocando-as em narrativa em off. Explicando direitinho porque o Superman age daquela maneira e porque o Batman é contra ele.

Olha a mão boba!!!
Olha a mão boba!!!

Em segundo lugar, Taylor mexe com a emoção do leitor. Ele sabe que quem está lendo essa revista busca saber o que acontecerá se as últimas consequências forem tomadas. O leitor sabe que Batman teve uma tremenda perda em sua infância e o levou por um caminho de justiça, mesmo não tendo poderes para enfrentar os malfeitores. Mas e o Superman, um “Deus entre nós”, como lidaria com uma perda de mesmas proporções? Será que isso o tornaria melhor, ou o tornaria um vilão? É comum a gente ver em seriados, em histórias em quadrinhos, as motivações por trás de um vilão. Como em Law and Order: SVU e, não negue, você já deve ter se identificado com um ou outro. Vilões são conduzidos por instinto, heróis por raciocínio. Enquanto uns seguem seus corações, outros usam o cérebro. E é essa a diferença básica entre Superman e Batman. Um é emoção pura e o outro mecânica pura. Quando as coisas se misturam, em ambos os casos, temos uma bomba desgovernada. É isso que o leitor quer: que o circo pegue fogo. Mas a maneira de botar fogo no circo e como os bombeiros vão apagar o fogo do maior espetáculo da terra, está nas mãos do roteirista e dos artistas envolvidos. É assim que Taylor domina o leitor: pelo coração.

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