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O Show de Jesus: Punk Rock Jesus, de Sean Gordon Murphy

Sabe aquela HQ irretocável, que por mais que tu queira encontrar alguma coisa para descrever, para destacar, não consegue, porque são tantas coisas boas, a coisa foi tão acertada, que não sobra muito pra dizer? Bem, é essa minha relação com Punk Rock Jesus, de Sean Gordon Murphy. A mesma coisa aconteceu comigo e Asterios Polyp, do qual eu só pude mesmo citar algumas frases no post que fiz. Mas vou tentar superar esse bloqueio de maravilhamento que tenho.

Punk Rock Jesus se passa em um futuro próximo, em que a empresa Ophis resolve clonar Jesus Cristo a partir do Santo Sudário de Turim. Acontece que a intenção da empresa é envolver o garotinho clonado em um reality show que será exibido no mundo inteiro. Essa é a premissa da série.

Cruz-Credo!

Cruz-Credo!

Porém, logo no início da narrativa, entramos em contato com um outro personagem: Tommy, que teve os pais assassinados na Irlanda. Seus pais eram integrantes do IRA, o Exército revolucionário Irlandês, que luta através do terrorismo, entre muitas coisas para garantir que a Irlanda seja um estado católico. Tommy, ou, o Cemitério, é o guarda-costas da Ophis, do novo Jesus, da nova Maria (uma virgem escolhida a dedo) e de todos envolvidos no programa como a Dra. Sarah, responsável pela clonagem.

Claro que há muitos que não gostaram desta história de clonar Jesus, há uma organização liderada por uma feminista radical que quer o fim do programa. Até que o nosso segundo Jesus Cristo se torna um adolescente rebelde e resolve acabar com todo aquele circo: ele se torna Punk.

O nome do projeto, J2, lembra o nome da banda U2, que não por acaso também é irlandesa e emplacou o sucesso “Sunday, bloody Sunday”, sobre o Domingo Sangrento, em que tropas britânicas (protestantes) atiraram em manifestantes católicos defensores pelos direitos civis na Irlanda, em 1972. Também gerou o filme Domigo Sangrento (Bloody Sunday), de Paul Greengrass, em 2002. Outro sucesso, do U2, “In The Name of Love”, também falava sobre a relação de Jesus e seus ensinamentos e seu impacto na humanidade.

Virge Maria!

Virge Maria!

U2 não é uma banda necessariamente punk, mas Jesus Cristo poderia ter sido considerado um punk na sua época, pois ia contra tudo que a sociedade do tempo pregava. Da mesma forma, o faz Chis, o J2, quando vai ao quarto de Tommy e entra em contato com a cultura punk. Logo passa a se revoltar contra o sistema em que foi criado. Transforma seu cabelo em moicano entra em uma banda punk.

Punk Rock Jesus lida com reality shows, não apenas com a reação do público singular, mas com uma massa indistista e heterogênea. Cada vez mais presente na literatura e nos quadrinhos, os reality shows estão por tudo, e das mais variadas formas. Um reality show até a morte, como em Battle Royale e Jogos Vorazes. Um reality show de super-heróis: America’s Got Powers, Arena dos Vingadores. Um reality show sobrenatural: Hellblazer: Passagens Sombrias.

Pelamordedeuz! Sheezuz!

Pelamordedeuz! Sheezuz!

Mas o germe disso tudo está no filme Show de Truman, O Show da Vida, de Peter Weir, no já longínquo ano de 1998. Quando Big Brother e Survivor ainda engatinhavam, Truman, interpretado por um inspirado Jim Carrey, descobria que sua vida era uma farsa. Criado em uma cúpula, em que todos interpretavam personagens ao seu redor, Truman, queria destruir seu pai, o sistema.

Punk Rock Jesus, de Sean Gordon Murphy (Vertigo, 2013)

Punk Rock Jesus, de Sean Gordon Murphy (Vertigo, 2013)

Chris, também deseja isso: destruir seu pai, o sistema, a Ophis. Por outro lado seu comportamento niilista também quer destruir o próprio Deus. É um comportamento freudiano, edipiano, nietzschiano, mas que também encontra paralelo em Jesus Cristo, que veio para destruir a imagem do Deus do Antigo Testamento, vingativo, destrutivo, afeito a sacrifícios por um Deus de amor e perdão, que oferece a outra face, representado por ele.

Essa história de desconstrução da religião também faz eco na declaração de Sean Murphy no final do encadernado americano (aqui no Brasil a série saiu em Vertigo #40-45). Ele deixou de crer em Deus na hora em que mais precisava de uma ajuda superior. Um fato inusitado, pois as pessoas costumam buscar Deus apenas nas horas de maior necessidade. É preciso destruir para reconstruir, Murphy pode ter abandonado o Deus da Bíblia, mas encontrou um outro dentro dele. Pelo menos é isso que ele parece nos dizer com toda essa grandiosa obra.

Ufa, consegui!

 

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